sexta-feira, 14 de setembro de 2012



..."O sol não gira em torno da terra,nem a terra é o centro do universo. 
O universo não está submetido a um destino rígido, mas se encontra em permanente evolução, seguindo uma ordem fixa, desde a eternidade.
O superior e o inferior estão ligados por uma só e mesma vida, que é infinita e inesgotável. Se bem os indivíduos sejam inumeráveis, o todo é Uno e conhecer esta unidade é o objetivo de toda a filosofia e toda a contemplação humana.

Todas as coisas que existem no universo estão dotadas de alma e vida...
O universo é eterno no tempo, infinito no espaço e tudo está em constante evolução. Em um universo assim, o espaço, o tempo, tamanho, peso, movimento, sucesso, trocas, relações e perspectivas são sempre relativos a qualquer marco de referência...

Nunca deve valer, como argumento, a autoridade de qualquer homem, por excelente e ilustre que seja. É sumamente injusto pregar o próprio sentimento a uma reverência submissa aos outros; é próprio de mercenários ou escravos, e contrário à dignidade da liberdade humana, sujeitar-se e submeter-se . É suma estupidez crer por costumes, é coisa irracional conformar-se com uma opinião por causa da quantidade de quantos a crêem. Pelo contrário, é preciso buscar sempre a razão verdadeira e necessária...

As estrelas, consideradas fixas, não o são em absoluto. Já que se pudéssemos observar o movimento de cada uma delas, poderíamos ver que jamais duas estrelas conservam a mesma direção a mesma velocidade, somente as grandes distancias que nos separam delas é que não nos permite perceber as variações. Portanto, há inúmeros sóis e um sem número de Terras que giram ao redor deles. Se aceitarmos que somente nosso planeta é habitado estaremos limitando a infinita bondade e perfeição atribuídas a Deus e as suas obras..." 


Tradução do memorial:

"A Giordano Bruno, queimado vivo por intolerância religiosa. A comunidade democrática de Dovadola não esquece que é na harmonia da vida em comum que a liberdade de pensamento encontra seu fundamento."
1º de agosto de 1909.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

O ELEMENTO DO FOGO E A MUDANÇA



“No passado, tivemos a luz que cintilava; no presente, temos a luz que flameja; no futuro, haverá uma luz que brilhará sobre toda a terra e todo o mar.” – Winston Churchill

Aqueles que estão trabalhando para o futuro possuem algumas qualidades inatas que alimentam suas vidas. Para mencionar algumas dessas qualidades, podemos dizer que são: abrangência, cooperação, senso de responsabilidade, pureza de motivo, imaginação criativa, poder de encorajar outros e serviço altruísta. Essas qualidades são como o vento que enche nossas velas à medida que nos movemos através do oceano da vida.

Cada indivíduo tem que desenvolver cada faísca progressivamente e transformá-la, à sua própria maneira, para o nível seguinte de existência. Cada passo dado na direção do futuro é um fenômeno de desenvolvimento, transformação e manifestação do potencial interno existente na faísca. Essa faísca interna ou eu torna-se a chama interior, consome impurezas, descobre sua identidade e passa da escuridão à luz.

No início, no viagem é solitária. A faísca ígnea dentro de nós necessita de direção. O desejo de mudança necessita ser transmutado em aspiração e determinação. A mudança, ou a passagem de um estado a outro, demonstra a habilidade de transformar nossos hábitos através do uso da vontade ígnea. À medida que estas idéias são compreendidas pelo indivíduo, elas causam dois acontecimentos. Primeiro, inicia-se um período de derrubada e uma ruptura daquilo que é velho e que obstrui. Isto é seguido pelo segundo estágio, um brilhar claro de novas idéias. Estas idéias incorporam maiores princípios e constroem caminhos mais claros para o futuro na vida do aspirante. O primeiro estágio, o estágio da derrubada e ruptura, traz geralmente uma crise na vida da pessoa. Em cada crise está uma oportunidade. Somos confrontados com uma convergência um tanto complexa de todos os tipos de pensamentos, sentimentos, coisas que têm de ir-se. Neste momento, a hora da oportunidade esta sobre nós e temos de abandonar facetas impeditivas desnecessárias da natureza de nossa personalidade. É através deste estágio que podemos e devemos nos identificar com o grande todo e com o propósito da alma.

O sacrifício, ou o significado comum de sacrifício – renunciar a algo – pode ser visto de uma outra maneira. Podemos ver o sacrifício como o processo criativo de transformação espiritual onde o maior é substituído pelo menor. Ter esta visão, implicando tornar completo o sacrifício visto como processo criativo, reflete o sentido da raiz da palavra sacer que é “sagrado” ou “santo”. Assim, à medida que trilhamos o caminho, começamos a responder ao propósito e à visão do eu superior – a alma.

À medida que essa ligação ou contato torna-se mais estável e sua visão mais impulsionadora, sentimos o anseio de encarregarmo-nos da vida exterior de nossa personalidade. Nossa vontade torna-se ativada à medida que desenvolvemos uma determinação para mudar atitudes e valores em todas as áreas de relacionamento, de modo que entrem em harmonia com a visão mais elevada que podemos perceber. Esta compreensão e determinação são a essência do sacrifício como um processo transformador, elevando as vibrações mais baixas, por assim dizer, para as mais altas e unindo nossas experiências interiores e exteriores no serviço. Desta compreensão de uma vontade compassiva, aprendemos a aplicá-la em nossa vida através dos muitos sacrifícios com os quais as circunstâncias nos desafiam. É nestas circunstâncias que encontramos oportunidades de compartilhar, amar e agir de acordo com os impulsos de nossa alma. Os obstáculos da personalidade são transformados, e o potencial de servir torna-se maior.
A regeneração e a transformação podem ser um processo lento à medida que percorremos o caminho. A lentidão é devida à sua profundeza; cada minúscula etapa pode ser muito mais importante do que muitos de nós percebem.

De um ponto de vista físico ou médico, sabemos que uma mudança completa no sistema sanguíneo de um ser humano, purgando e regenerando completamente o corpo físico, leva cerca de sete anos. Então, talvez, possamos dizer que poderia levar algo como sete anos ou mais para regenerar a personalidade-alma, o espírito e o caráter de alguém.

É desta perspectiva que o sacrifício tem a ver com renunciar, Nós renunciamos de boa vontade a algo, porque é um processo mais profundo que traz o sagrado para dentro de nossas vidas e o manifesta. Cada contribuição que fazemos em serviço ajuda a nutrir a visão do bem maior. Cada sacrifício que fazemos para nos tornarmos mais fiéis à nossa visão espiritual é uma contribuição ao “fazer sagrado” da família humana. Albert Schweitzer disse “Nada de real valor jamais é realizado sem entusiasmo e auto-sacrifício.”

Elaine Ralston

domingo, 9 de setembro de 2012



NAVEGADORES ANTIGOS tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero pra mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.


Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

FERNANDO PESSOA

*Obra Poética - Volume único, 1965.

domingo, 2 de setembro de 2012

Ilusões



"O que é este mundo? Maya. Qual é a sua causa? Nossa ignorância. O que é a ignorância? Novamente Maya."

Maya é não somente a causa das ilusões que engendram a estreiteza de espírito, o ódio e os desejos, como também a própria i

lusão.

O homem original era um ser poderoso manifestado, cuja forma mais elevada é designada na Índia pelo termo Atman.

Atman é imortal, todavia não é perceptível, pois é oculto pelos fenômenos terrestres transitórios.

Em inúmeros escritos antigos da Índia, os fenômenos da matéria sutil ou densa, incluindo o corpo físico, são qualificados de Maya.

Para libertar Atman da sujeição de Maya, é preciso se voltar para o átomo divino do coração, a “jóia do lótus”.

Maya é a força cósmica que cria e também possibilita a percepção das ilusões.

A sabedoria hindu só concebe como real aquilo que é imutável e imperecível.

Tudo que se transforma, se desagrega e desaparece, que tem um começo e um fim, é considerado como Maya.

Nestas condições, o homem desta natureza suscita fenômenos passageiros com os quais se identifica.

Assim, ele mesmo é Maya, ilusão e irrealidade.

Todos os elementos, materiais e forças estão potencialmente presentes na substância primordial; do mesmo modo, o potencial da eternidade está presente em todo fenômeno mortal.

O coração sempre encerra esse “potencial de eternidade”, mas progressivamente perdeu a consciência divina.

Existem, portanto, duas consciências diametralmente opostas: a consciência do homem prisioneiro de Maya e aquela do homem no qual Atman fala em sua forma mais pura, naquele que é um com Brahman.

Tudo que é mortal não pertence à única Realidade, segundo a antiga sabedoria hindu. Aquilo que encerra a consciência inferior não tem qualquer realidade e tem por nome Maya.

O mundo da ilusão se opõe, aqui, ao mundo do Criador; porém, fora Dele, nada existe. O que é mortal é da vida divina não liberta ou não manifestada.

As criaturas não reais aparecem e desaparecem pela força de Maya, enquanto que Atman, o ser eterno,permanece.

Sem nascimento, nem vir-a-ser, nem morte.

Pode-se, por conseguinte, indagar em que medida a personalidade é realidade ou ilusão.

Para o homem terrestre, a vida cotidiana, com seus sofrimentos e alegrias, é a única realidade.

Ele não conhece nenhuma outra. Ele luta continuamente para salvaguardar sua felicidade fugaz, seus ideais imaginários, seu corpo que envelhece, sua saúde frágil, sua mente confusa, seu poder ameaçado, e suas posses, que
crescem ou diminuem.

Todavia, sem sucesso. E para terminar, o homem deve renunciar à luta e tudo perder por causa de Maya. Sua consciência deficiente o torna incapaz de sondar o divino e, por este motivo, ele não oconsidera como a única Realidade.

O homem se opõe a ela e até mesmo a ignora, pois sente, ainda que de forma obscura, que o divino combate e destrói as poucas certezas que ele, homem, acredita possuir.

Os véus de Maya, na tradição espiritual da Índia, a morte possui uma significação diferente daquela compartilhada pelo materialista de hoje.

Como a vida na matéria nada mais é que ilusão, não se perde nada de essencial ao sobrevir a morte. A morte simplesmente retira um dos inúmeros véus de Maya.

Só se pode adquirir a consciência do divino procurando e encontrando Atman no fundo do ser. Deve-se despertar Atman em si mesmo.

Freqüentemente se compara o mundo de Maya a uma miragem.

Aquele que vagueia no deserto da vida crê ver um oásis ao longe.

A água com seus reflexos ondulantes, a sombra atraente das palmeiras, os seres humanos, os animais, uma vila, se descortinam no horizonte.

Mas, quando ele se aproxima, tudo se dissipa. A realidade que ele imaginou nada mais era que uma miragem.

Eis o que é Maya! Erro dos sentidos, erro da consciência limitada.

Às vezes também se compara a vida a um sonho.

A consciência não faz distinção entre o sonho e o estado de vigília.

Esta é a razão pela qual, segundo a antiga sabedoria hindu, o mundo daquele que está em estado de vigília não é mais real do que o mundo daquele que dorme.

Quem quer que se encontre aprisionado na consciência terrestre pensa que o seu mundo é o mundo real.

Mas aquele que pode ultrapassar esses limites, e no qual o centro divino do coração tem a possibilidade de despertar, aquele que é capaz de testemunhar da realidade velada por Maya descobre que o mundo cotidiano nada tem a ver com o mundo da Realidade divina.

Os sábios da Índia, há milhares de anos, aspiravam sair do mundo dos sonhos e das mistificações para se fundir em Atman.

Entre esses dois estados de consciência se interpõe o véu de Maya.

Como nada existe fora de Brahman, é nele que se encontra a origem de Maya.

A história do asceta Narada descreve como Vishnu lhe ensinou o segredo de sua MayaNarada desejava aprender o segredo de Maya.

Ele a encontrou sob a forma de uma bela jovem. Maya é a força que incita Narada a se entregar ao mundo da ilusão.

Ele abandonou o Paraíso e suas portas se fecharam atrás dele. Aí começou a sua história, ou sua queda, como se diz.

Ele participou do árduo trabalho e das alegrias dos camponeses. Trabalhou a terra e entrou no círculo vicioso dos nascimentos e das mortes. Foi feliz e infeliz, e descobriu que não podia conservar o que é mortal.

Assim, perdeu seus bens, sua mulher, seus filhos, a si mesmo e o mundo de Maya.

Narada é a imagem do homem que se deixa guiar pela ignorância e pelos desejos.

Por isso, tudo aquilo que ele adquire lhe é subtraído.

Sua ignorância dos processos vitais o retém prisioneiro, encarnação após encarnação, no interior das dimensões do espaço tempo.

Ele mergulhou na matéria e tornou-se um fenômeno terrestre, inteiramente submisso às forças da natureza.

A consciência dos intelectuais cultivados e materialistas não parece, após muitos séculos, capaz de afastar os véus de Maya.

Mas, em nossa época, uma nova direção lhes é mostrada, um novo caminho que principia pelo átomo divino que sobrevive no coração e que recebe as indicações para evitar, ou se desembaraçar, dos obstáculos que na Índia antiga ainda não existiam ou apenas começavam.

O que é divino no coração e provém da origem espera sua libertação.

E sobre esse caminho, o homem moderno recebe toda a ajuda necessária para romper o seu estado de sono, libertar o princípio divino e se abrir a uma nova vida.

Como o eterno está “morto” no corruptível, o corruptível deve agora morrer no eterno.

Aquele que desejar perder o seu eu encontrará o seu “Ser divino”.

Neste processo de morte e de renascimento, o ser fundamental do homem imortal se liberta dos fenômenos, das idéias pré-concebidas e do medo que o retêm prisioneiro como Narada.

É assim, então, que a finalidade de toda vida humana é a mesma ontem, hoje e amanhã: o acesso ao campo de vida divino, o retorno à casa do Pai.

Mas o ensinamento e o caminho devem sempre adaptar-se às mudanças da consciência, para que reste sempre a capacidade de compreender esse ensinamento e de seguir o caminho....

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

OPUS ALCHIMICAE (A Obra Alquímica) – por Awmergin, o Bardo



II


NIGREDO

Se queres a vida viver
Deves morrer, ó filho.
Não penses que vivendo
Podes viver realmente.
Hás de morrer para o mundo
Dos homens e nascer novamente.
Prepara-te para descer ao antro escuro.
Ali, onde pavorosas são as vozes
E desesperados são os gritos.
Desfaz-te de tuas vestes.
Deixa tudo para trás e arroja-te à caverna.
Acendeste tua lâmpada? Tens luz própria?
Se já a tens, então estás pronto.
Ousar: eis o primeiro passo.
Sê intrépido em tua jornada.
Se o medo te acometer, inflama-te de coragem.
No mundo dos mortos verás
Muitas faces familiares.
Não te apegues a elas –
Não passam de sombras e espectros falsos.
Afugenta-os e dá-lhas as costas.
Segue teu passo resoluto.
Não podes parar; ainda tens caminho à frente.
Recorda-te de que deves encarar
O demônio face-a-face.
Muitas formas tem ele.
“Que forma assume”, tu te indagas?
Isso depende de ti.
Para cada neófito ele assume uma forma.
Qual será aquela que ele se apresentará
A ti? Vai e verás.
Chegaste ao fundo do antro.
A câmara está escura como
A treva primordial. Não olhes para fora.
Confia na luz que arde dentro de ti.
Só ela poderá iluminar-te.
Deixa que se putrefaça a matéria.
Não impeças o processo.
Colhe a substância do que restar
A obra em negro está sendo realizada.
Deixa os resíduos para trás e segue.
Agora estás morto.
Uma vez morto, podes retornar
Sendo outro. Agora és um filho da luz real.
Todavia, a Obra não está finalizada.
Ainda deves purificar a matéria.
Recorda-te de do que te disse
Hermes a seu filho Asclépios
E segue com o labor.
Eis a primeira etapa
Da Obra Solar.

Rudy Rafael

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

"A MULHER E O SUFISMO



Mesmo que neste mundo de dualidades nós podemos adotar distintas formas, em última instância não existem homens ou mulheres, senão somente o Ser. Dentro da tradição sufi, o reconhecimento desta verdade estimulou a maturidade espiritual das mulheres, de uma maneira que nem sempre foi possível no Ocidente.

Desde os primórdios do Islã, as mulheres desempenharam um importante papel no desenvolvimento do sufismo, a espiritualidade islâmica, o qual tradicionalmente se entende que começou com o profeta Maomé (ou Muhammad, que a paz esteja com ele). Maomé transmitiu uma mensagem que combinava o espírito e a matéria, a essência e a forma, e o reconhecimento do feminino e do masculino. Ainda que as manifestações culturais tenham ocultado em parte a pureza original da intenção, as palavras do Alcorão expressam a igualdade de mulheres e de homens ante os olhos de Deus.

Em um tempo em que as tribos árabes adoradoras de deusas eram ainda bastante brutais, chegando inclusive a enterrar as meninas recém-nascidas para favorecer a descendência masculina, entes novo porta-voz da tradição abraâmica tentou restabelecer o reconhecimento da Unidade do Ser. Tratou de corrigir os desequilíbrios que haviam surgido, aconselhando honrar e respeitar o feminino, assim como a graça e a harmonia da natureza.

Durante os primeiros anos da nova revelação islâmica, Khadija, a amada esposa-sacerdotisa de Maomé, jogou um papel de grande importância. Foi ela quem respaldou, fortaleceu e apoiou o Profeta, quando este foi assaltado por dúvidas e inseguranças. Esteve junto dele no meio das dificuldades e angústias extremas, e ajudou a transmitir a luz da nova fé. Fátima, a filha de Maomé e Khadija, foi a primeira a compreender o Islã da maneira mais profunda e, de fato, a miúdo ela é conhecida como a primeira gnóstica muçulmana. Seu casamento com Ali semeou no mundo esta nova manifestação de misticismo, e as sementes de sua união começaram a florescer.

Quando se desenvolveu mais ainda a dimensão mística do islamismo, foi uma mulher, Rabi’a al-Adawiyya (século 8º d.C.) quem expressou pela primeira vez a relação com o divino em uma linguagem que chegamos a reconhecer como especificamente sufi, referindo-se a Deus como O Amado. Rabi’a foi o primeiro ser humano que falou sobre as realidades do sufismo com uma linguagem que qualquer pessoa podia entender. Apesar de que experimentou muitas dificuldades em seus primeiros anos, o ponto de partida de Rabi’a não foi nem o temor ao Inferno nem o desejo do paraíso, senão somente o Amor. “Deus é Deus”, dizia, “por isso amo a Deus… não por nenhum de Seus dons, senão por Ele Mesmo.” Seu objetivo era dissolveu seu Ser em Deus. Segundo ela, pode-se encontrar a Deus voltando-se para dentro de seu próprio Ser. Tal qual disse Maomé: “Quem conhece a si mesmo conhece a Seu Senhor”. Em última instância, é o Amor o que nos conduz à Unidade do Ser.

Ao longo dos séculos, mulheres e homens seguiram levando a luz desse Amor. Por muitas razões, as mulheres foram a miúdo menos visíveis e mais reservadas que os homens, porém, sem embargo, participaram ativamente. Dentro de alguns círculos sufis, as mulheres participavam com os homens nas cerimônias. Em ouras ordens, as mulheres reuniam-se em seus próprios círculos, recordando a Deus e adorando-O separadas dos homens. Algumas mulheres entregaram-se ao Espírito através da ascese, isolando-se da sociedade, como fez Rabi’a, para a eliminação do próprio Eu, em benefício do Ser… Outras optaram pelo trabalho de benemerência – ou terceiro fator –, e fomentaram grupos de oração, rituais e estudos.

Infelizmente, no Ocidente sabemos muito pouco sobre a influência das Mestras sufis. Muitos dos grandes iluminados do sufismo que conhecemos tiveram mestras e discípulas, companheiras e até mesmo esposas-sacerdotisas que muito influenciaram em seus pensamentos e em suas vidas. Esposas e mães também apoiaram os membros de suas famílias, enquanto continuavam sua própria viagem para unir-se com O Amado (o Íntimo, o Ser).

Ibn Arabi, conhecido como o Polo do Conhecimento Superior (séculos 12-13 d.C.), fala do tempo que passou junto a duas anciãs contemplativas que exerceram profunda influência sobre ele: Shams de Marchena, “a dos suspiros”, e Fátima de Córdoba. De Fátima, com quem passou muito tempo, disse:

“Servi como discípulo de uma das amantes de Deus, uma gnóstica, uma dama que vivia em Sevilha, chamada Fátima bint ibn al-Muthanna de Córdoba. Estive a seu serviço durante vários anos, tendo ela uns 95 anos de idade… Ela conseguia tocar o pandeiro e mostrava grande prazer em fazê-lo. Quando perguntei a ela sobre isso, respondeu: ‘Regozijo-me nEle, que me deu atenção e me converteu em um de Seus Amigos, usando-me para Seus próprios fins. Quem sou eu para que Ele deve me escolher dentre todos os seres humanos? Ele se mostra zeloso comigo, pois, cada vez que, de maneira negligente, dirijo minha atenção a algo que não seja Ele, me envia alguma aflição relacionada com esse algo’. Construí-lhe com minhas próprias mãos uma choça de juncos tão alta quanto ela, na qual viveu até seu falecimento. Ela me dizia: ‘Sou tua Mãe Espiritual e a luz de tua mãe terrena’. Quando minha mãe veio visitar-me, Fátima lhe disse: ‘Ó luz! Este é meu filho e Ele é teu pai, portanto, trata-o com amor filial e não o desgoste!’” ( Fonte - Gnosisonline )

domingo, 5 de agosto de 2012

O significado do Nam-myoho-rengue-kyo


O título do Sutra de Lótus é Myoho-rengue-kyo. Nitiren Daishonin acrescentou a palavra Nam, que significa devoção ou dedicação, consta em uma de suas escrituras: "Somente praticar os sete caracteres do Nam-myoho-rengue-kyo pode parecer limitado, mas desde que esta Lei é o mestre de todos os Budas do passado, presente e futuro, o professor de todos os bodhisattvas do universo, e o guia que capacita todos os seres humanos atingir o estado de Buda, sua prática é incomparavelmente profunda".
Em outras palavras, o título, Myoho-rengue-kyo contêm a essência dos ensinos do Sutra de Lótus na qual contém dentro de si, todos os ensinos budistas. Nas escrituras de Nitiren Daishonin consta o seguinte trecho: "dentro do título, Nam-myoho-rengue-kyo, está incluso todo o sutra que consiste em todos os oitos volumes, vinte e oito capítulos e 69.384 caracteres sem nenhuma exceção".
Assim, em poucas palavras se torna impossível estudar todos os aspectos do significado do Nam-myoho-rengue-kyo, já que como exposto acima, implicaria em explanar toda a filosofia budista. Desta forma, somente iremos destacar os pontos básicos.
Myoho é geralmente traduzido como Lei Mística. A palavra místico significa, difícil de discernir. Myo se refere a iluminação inerente e ho, a ignorância inerente. Myo representa a morte e ho, a vida. Ho, corresponde a todos os fenômenos na qual pode ser percebido pelos nossos sentidos, enquanto myo, se relaciona aos aspectos da vida que não podem ser percebidos. Por exemplo, se alguém está triste, se torna óbvio através de sua expressão facial e reações. Mas, quando está mesma pessoa se torna feliz e começa a sorrir, para onde vai a tristeza ? Não podemos dizer que a tristeza existe como antes, mas ela continua existindo em algum lugar dentro da vida desta pessoa e pode reaparecer a qualquer momento. Este é o chamado estado de "nem existência, nem não-existência", e é descrito como místico. Logo, a vida em todas as suas miríades manifestações, tanto físicas como não–físicas, é acompanhada por um contínuo ciclo de myo e ho, do latente ao manifesto, da morte para a vida.
Myo também engloba outros três significados na qual Nitiren Daishonin explica na carta "Sobre o Daimoku do Sutra de Lótus": abrir, ser dotado e perfeito, e reviver. A energia inerente da vida é a expansão. Isto é o que significa abrir. Ser dotado e perfeito significa que todo e qualquer elemento da vida apresenta esta qualidade. Por exemplo, cada gota do oceano contém as propriedades e elementos do próprio oceano. E por último, reviver, se refere a força vital de regenerar-se e recriar-se.
Myo descreve a vida em sua totalidade, embora esta seja de difícil compreensão e por esta razão é chamada mística. Ho se refere ao aspectos do indivíduo, enquanto Myo se refere ao ritmo universal da vida, na qual se harmonizam e se unificam entre si. Ho, representa os dez estados de vida, enquanto myo, o estado de Buda. Naturalmente, ambos os aspectos são inseparáveis. Esta é a razão para que uma vida baseada somente no ho, que representa a aparência externa, tende a destruição enquanto que uma vida baseada no myoho é sempre voltada para a harmonia e criatividade.
Rengue representa a flor de lótus e significa a simultaneidade da lei de causa e efeito, pois o lótus é uma das únicas espécies do reino vegetal que a flor e a semente nascem no mesmo instante. Rengue indica a simultaneidade do myo (estado de Buda) e ho (nove estados: Inferno, Fome, Animalidade, Ira, Tranquilidade, Alegria, Erudição, Absorção, Bodhissatva). Em termos de nossa prática budista, os nove estados são a causa e o estado de Buda é o efeito.
Na verdade, existem duas causas, a causa inerente e a causa externa, e dois efeitos, o efeito latente e o efeito manifesto. Todos nós apresentamos a causa inerente para a iluminação. A causa externa é o Gohonzon e nossa relação se estabelece ao recitarmos o Nam-myoho-rengue-kyo. Este ato cria o efeito manifesto do estado de Buda e com isto, surge uma tendência (efeito latente) para que possamos evidenciar o estado de buda no futuro. Mas, isto não significa que nossas ações não gerem um efeito imediato. Rengue explana a simultaneidade da lei de causa e efeito e Nitiren Daishonin escreveu:
"Para a questão, onde está exatamente o inferno ou a terra do Buda. Um sutra diz que o inferno existe abaixo de nós e outro sutra diz que o Buda está no Oeste. Entretanto, um exame minucioso revela que ambos existem dentro de nós. A razão para que eu veja desta forma, é que o inferno está no coração de um homem que despreza seu pai e desrespeita sua mãe, assim como a semente do lótus, na qual desabrocha a flor e o fruto ao mesmo tempo."
Por último, desde que a flor de lótus nasce em pântanos, rengue também representa a capacidade da própria vida em purificar-se.
Kyo significa o sutra, ensino, som ou vibração. O som nunca se interrompe, há uma reação em cadeia que se expande por todo o universo. "Kyo denota as vozes e sons de todos os seres vivos. Nos Ensinos Orais de Nitiren Daishonin consta: "a voz é uma parte essencial da prática budista". Isto é chamado kyo e as três existências da vida também são chamadas de kyo."
Assim, kyo também significa interligar, como o ato de costurar uma peça de roupa, simbolizando a continuidade ou o fluir do passado, presente e futuro. Em breves palavras, o perfeito ensino na qual explana o eterno fluir da vida.
Embora esta explanação possa ser limitada, podemos dizer que o Myoho-rengue-kyo possui uma infinita profundidade. Todos os princípios budistas, assim como a sua filosofia, emergem através de um contínuo e profundo estudo destes caracteres. Mas, como podemos usá-los em nossas vidas ? Caso o Myoho-rengue-kyo se torne uma mera teoria, se tornará inútil. Neste ponto reside o significado do Nam.
Nam é derivado da palavra Namas, que em Sanscrito, significa devoção ou saudação. Em chinês, é traduzido como kimyo. Ki, significa retornar para a imutável e verdade inabalável e myo (diferente do myo de myoho) significa ter a sabedoria para agir de acordo com as circunstâncias. Logo, Nam, incorpora o ato de devotar ou concentrar-se no ato de recitar o Nam-myoho-rengue-kyo ao Gohonzon. E nesta ação retornamos para a verdade imutável do Myoho-rengue-kyo e começamos a viver nossas existências com sabedoria, para agir da melhor forma em todas as circunstâncias da vida diária. Em suma, significa unir a vida individual com o ritmo universal. Desta forma, a felicidade não depende de nada externo a nós. Um bom emprego, casamento ou qualquer outra situação da vida pode ser tanto um fonte de alegria como de sofrimento. Esta é a razão para recitarmos o Nam-myoho-rengue-kyo: assegurar uma inabalável condição de vida.
(Por Pat Allwright – SGI-UK)