sábado, 3 de março de 2012
Audi, Vide, Tace.
Quem entrava na escola de Pitágoras não podia falar nos primeiros dois anos. Percebemos que as pessoas falam geralmente antes de serem solicitadas, e que devem aprender a ouvir “a voz”, Deus dentro de si.
Isso é mostrado de modo muito acertado na história de Samuel, que é
chamado três vezes, e que, somente no quarto chamado, quando procura o conselho de seu mestre Eli, reconhece a voz de Deus.
Falar é chumbo. A alquimia ensina a transformar o chumbo, metal
vil, em ouro, metal nobre, ou seja, a realizar a passagem do homem impuro ao homem em quem a luz divina foi liberada.
Muitas religiões consideram o falar vão e enaltecem o silêncio.
Podemos citar trechos dos provérbios de Salomão:
Na multidão de palavras não falta transgressão; mas o que refreia os seus lábios é prudente.
E Mestre Jesus disse em relação à pureza:
"O que contamina o homem não é o que entra na boca, mas o que sai da boca, isso é o que contamina o homem."
Sabemos que o falar pode arrastar muita impureza para o exterior.
É a impureza interior que se derrama, e isso se manifesta claramente pelo fato de o pensamento fazer uso de “matéria” mental, o éter mental, do mesmo modo que os sentimentos são animados por forças astrais.
Aquele que escuta é ligado às forças derramadas por aquele que fala.
Ele recebe seus problemas, seus descontentamentos, e sofre essas influências até em seus pensamentos, sentimentos e ações.
Falar é prata, calar é ouro. Este provérbio significa que nenhum falar pode superar o silêncio.
Na antiga sabedoria, a prata, metal semiprecioso, simboliza a dualidade, como o número dois. O ouro simboliza a unidade, o número um.
Reconhecer que no falar e no ouvir há uma escolha entre ligar-se à pureza ou à impureza pode trazer uma mudança na consciência.
Vamos supor que decidamos só ter pensamentos e sentimentos puros e que consigamos realizar isso. Então nosso falar também dará testemunho dessa pureza.
Nesse sentido é dito: Falar é prata. A prata brilha ao ser limpa.
O falar é mágico porque a voz é um órgão criador. Falar é criar.
A fala comum é alimentada pelas forças da consciência do sistema fígado-baço. Ela é a expressão do instinto de conservação e da sede de poder. A fala que é de prata é o intérprete de um coração e de um pensamento purificados.
E isso não é fácil como o exemplifica o conto Os três desejos:
Júpiter concede três desejos a um pobre lenhador. Este reflete e, com sua mulher, já se imaginam ricos. Eles decidem aguardar o dia se- guinte para formular seus três desejos.
Mas, embriagados pelo vinho,eles se deixam levar e três disparates
tomam o lugar dos desejos.
Eis a moral da história: É especialmente verdadeiro que pessoas insensatas e confusas, que agem de modo inconseqüente sob a influência da ira ou da ignorância, não podem pedir o que quer que seja, pois são incapazes de aproveitar os dons que o céu lhes envia.
Este conto ensina que o pensamento, a vontade e a fala, que obedecem à lei de causa e efeito, não ficam sem conseqüências.
Falar é criar.
Uma pergunta se impõe: Em que nível se situa esse processo de criação?
É para erigir ou para desintegrar?
Lao Tsé disse: "Quem fala pouco permanece ele mesmo."
Aquele que fala pouco, com consciência e com toda a responsabilidade, permanece ele mesmo. Tal é a base de uma mudança libertadora.
O apóstolo Paulo diz, quando alcançou o estado da nova consciência:
E sei que tal homem [...] foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras
inefáveis, de que ao homem não é lícito falar.
Falar é ouro
O falar áureo não é acessível ao homem terreno. Somente Deus emite o Verbo.
E o Evangelho de João inicia assim:
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ela estava no princípio com Deus."
No Novo Testamento Mestre Jesus exprime a força criadora. Ele diz ao leproso: "Quero; sê limpo;" ao paralítico: "Levanta-te, toma tua cama e anda."
À tempestade ele ordena: "Cala-te, aquieta-te e estas coisas se cumpriram."
As palavras do Mestre Jesus, o Cristo e de outros enviados tomam um sentido especial para aquele que alcançou o silêncio interior.
Não é somente não articular nenhuma palavra, porém, também, e sobretudo, realizar o apaziguamento mental e emocional.
Isso só é conseguido à custa de profunda purificação. Nesse silêncio, uma outra consciência, uma consciência divina, irrompe no homem.
Ele ouve dizer: "Quero, sê limpo e levanta-te", e pleno de uma força nova, ele se põe a caminho para retornar à Casa do Pai.
Ao vento da tempestade que sopra nele, ele ordena:
"Cala-te, aquieta-te", a fim de que surja a consciência nova, a qual trabalha com força.
Aquele que trabalha com uma força dessas faz, realiza, cria.
Ele chama as coisas à manifestação.
Este é o fundamento, a base exclusiva e absoluta de toda a atividade gnóstica: o Verbo!
Onde a Gnosis começa a manifestar-se, lá é pronunciado o Verbo, isto é, a força fundamental.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Santo Graal , Cátaros, Caminho
Certamente conheceis a lenda do Santo Graal. Esta antiga lenda conta que o Graal é a taça utilizada pelo Mestre Jesus, o Senhor, por ocasião da Santa Ceia. Diz a lenda que nela José de Arimatéia recolheu o sangue do crucificado e, em seguida, tomou o Graal sob sua proteção.
Mais tarde, seus sucessores transportaram o Graal para o Ocidente, onde se encontra, até o presente momento, guardado em local oculto.
A busca do Graal é um tema sempre atual. É um símbolo universal da busca da verdade: a verdade eterna que se apresenta quando o ser humano alcança o limite de suas possibilidades.
Foi assim na Idade Média, e continua assim ainda hoje. Mas nesse meio tempo, a humanidade, e cada indivíduo, evoluiu. Para o bem ou para o mal, para o alto, para uma elevação ao Espírito divino, ou para baixo, descendo sempre mais no abismo da matéria.
As lendas bem conhecidas do Graal só dão uma pequena idéia da imensa influência da mensagem que transmitiam.
Elas apresentavam um caminho espiritual que conservou toda a sua importância
para o homem de hoje. A fonte dessa mensagem é a Gnosis, a verdade universal, percebida e transmitida sob a forma de uma vida concreta e regeneradora.
A busca do Graal não é, portanto, uma ficção, e muito menos o relato de
acontecimentos sobre os quais podemos discutir científica ou filosoficamente.
Trata-se de uma prática de vida adotada de forma direta e radical pelo buscador no caminho para a verdade vivente. Para conceber um pouco a grandiosidade desse impulso, ao mesmo tempo secular e tão atual, este caminho deve compreender a mensagem libertadora oculta em cada feito heróico dos cavaleiros do passado.
Esses acontecimentos apresentam dois aspectos, duas dimensões: por um lado, um aspecto humano transmitido pelas aventuras pitorescas dos cavaleiros; por outro lado, a dimensão divina alcançada após a execução desses atos heróicos.
O aspecto humano aparece diretamente na luta contra o orgulho, a tolice e o escândalo da ignorância com referência à vida superior.
Estes são os inimigos característicos daqueles que partem em busca interior do
Castelo do Graal.
Parsifal consegue vencer seus adversários com o auxílio da força interior que lhe é sempre concedida. Mas, apesar de sua coragem e de sua genialidade, ele ainda não pode encontrar a Luz. Ele é levado pela inquietude e pela agitação provocadas por seu desejo do Graal. Mas sua vitória sobre o Cavaleiro Vermelho lhe dá o poder
de penetrar no castelo do rei Artur. Podemos considerar o Cavaleiro Vermelho como a alma natural, inteiramente devotada à vida terrestre.
Para o buscador autêntico, ela é o primeiro obstáculo a ser superado se ele quer alcançar a vida superior da alma. Seu caráter e o meio no qual ele vive, portanto sua herança sanguínea, são igualmente obstáculos a serem vencidos, o que implica num processo de purificação da alma que se prepara para o encontro com o Espírito.
Os celtas estão na origem das lendas do Graal na Europa. Eles não tinham uma verdadeira estrutura estatal, mas formavam uma sociedade dirigida pelos druidas, que transmitiam seu ensinamento ao povo sob a forma de contos ou de cantos.
A Távola Redonda continua atual. Quem não se senteria tocado pela nobreza, valentia e tragédia dessa maravilhosa história?
"Eram heróis, Artur, Lancelot, Parsifal e Galaad. E estão vivos ainda hoje!"
Há séculos o homem é criado com a idéia de que o verdadeiro herói é um personagem exterior a ele mesmo, de modo que, depois de uma história tão bonita, ele retorna tranqüilamente à mediocridade de sua vida cotidiana: comer, beber, dormir...
E a mensagem do Graal em tudo isso? Apesar de tudo, ela ressoa em cada
passagem da nobre lenda. É a própria história da vida. Todos os acontecimentos
dessa lenda representam a busca dos ideais, assim como os esforços, os desalentos, as descobertas e as decepções da vida.
O que buscamos em nossos dias com nossas máquinas ultra-rápidas, nossos aparelhos sofisticados e os produtos sintéticos? São empreitadas muito parecidas com as dos cavaleiros que estavam em busca do Graal.
Alguns querem alcançar um ideal elevado e ajudar o próximo; outros querem conseguir um domínio absoluto sobre a natureza ou sobre os povos. Assim, cada um traz, em si mesmo, os diferentes aspectos da busca: em cada um se esconde o rei Artur.
Um bom rei não é um tirano, porém assume conscientemente a responsabilidade
de todas as vidas confiadas à sua direção. Portanto, ele não se aproveita de seus súditos para alcançar seus próprios objetivos; ele não os explora. Na qualidade de verdadeiro cavaleiro, ele não luta em interesse próprio. Mas será que ainda existem
cavaleiros como esses?
Quem ainda pode ouvir a voz interior, sua consciência, por ela será inspirado
a seguir o caminho correto. No entanto, para ouvi-la, é preciso calma e silêncio interiores. Ora, é escutando essa voz que o cavaleiro andante pode descobrir e ver claramente qual é a verdadeira finalidade de sua vida e, por fim, alcançá-la.
Esta lenda, que é profanada de todas as maneiras possíveis para especulações emocionais, e que serviu de tema, na Idade Média, para diversas obras poéticas por parte dos imitadores místicos, em sua simplicidade nos dá plenamente os valores gnósticos de que necessitamos para compreender o que é o Graal, como deverá ser edificado ou onde poderemos encontrá-lo.
Para penetrar neste mistério, chamamos primeiramente vossa atenção para tudo o que já foi considerado na narrativa do Evangelho sobre o envio de Pedro e João para a preparação da Santa Ceia.
É o próprio aluno quem terá de preparar o Graal para que ele possa, em seguida, ser utilizado pelo Mestre Jesus, o Cristo.
Os cátaros no caminho do Santo Graal, o aparecimento dos cátaros nas regiões mediterrâneas coincide com o apogeu das lendas do Graal na Europa. Na corte dos nobres, os trovadores contavam a epopéia do Graal e interpretavam cantos místicos que falavam do Amor divino.
Os cátaros não se contentaram em permanecer como espectadores desse
fenômeno. Eles buscaram o Graal dedicando-se, diariamente, à pureza e à coragem.
Em 950 d.C., os bogomilos vindos da Bulgária trouxeram ao Ocidente o
autêntico ensinamento gnóstico e cristão de Mani.
Após o ano 1000, os cátaros retomaram a chama do ensinamento cristão da libertação e, num curto espaço de tempo, desenvolveu-se um grande movimento que influenciou todo o Ocidente.
No fim do século XII, quase toda a Europa conhecia a mensagem do Graal. Mas foi somente no final do século XIII que as mudanças se manifestaram. E a cratera
preenchida pelas forças do Espírito, segundo a expressão de Hermes Trismegisto surgiu na Europa para prodigalizar às almas amadurecidas o Amor divino libertador.
O centro do movimento cátaro encontrava-se na Occitânia, no sul da França. Lá floresceu uma cultura excepcionalmente rica. Foi principalmente no Languedoc que se cantou o amor cortês e se propagou a pura mensagem cristã dos cátaros.
Mas, bem antes deles, outros haviam encontrado proteção e salvação nessas vastas grutas com suas nascentes quentes e atmosfera tão peculiar, verdadeiros refúgios para aqueles que desejavam praticar livremente sua religião.
Graças aos desenhos encontrados nas paredes, sabemos que essa região foi habitada há 12.000 anos. As colinas e cavernas do Sabartez foramutilizadas pelos celtas e pelos druidas como lugares de culto.
Lá encontramos traços dos maniqueus, dos paulicianos e dos priscilianos, predecessores dos cátaros; aos poucos, formaram-se grupos que se diziam ligados à Gnosis e às suas correntes de sabedoria.
A palavra cátaro vem do grego katharoi que significa puro. Os cátaros diziam-se simplesmente cristãos e o povo os chamava de bons omes e bonas femnas. Mas, entre si, eles se nomeavam amici Dei ou amicz de Dieu ou ainda crezens.
O termo cátaro foi utilizado pela primeira vez nos meados do século XII por um grupo de heréticos de Colônia. Mais tarde, o termo foi empregado principalmente
nos escritos oficiais. Foi a Igreja que os denominou de albigenses, dando esse nome a todos os grupos pretensamente hereges da Occitânia.
Essa denominação nada tem a ver com a cidade de Albi, no sul da França. Ela foi
utilizada pela Igreja e pelos franceses do norte para designar os hereges que
não eram valdenses e que habitavam no sul da França. Na Inglaterra os heréticos
também eram denominados de albigenses.
Tornar-se cátaro não era algo realizado de qualquer maneira, fazendo-se batizar, por exemplo, ou passando por uma prova de admissão na comunidade religiosa.
Uma das exigências era uma longa preparação na prática de vida cristã, a exemplo de Jesus. Os cátaros diziam que um serviço formal, com rituais falsificados e degradados, não é capaz de libertar a alma de sua prisão.
Para que essa libertação aconteça, é preciso que o mistério de iniciação crística do Santo Graal seja revelado graças a um comportamento coerente e integralmente cristico.
Se observarmos um candidato que aspira por esse caminho, poderemos
perceber com que seriedade e abnegação os cátaros se consagravam ao processo
de transformação interior.
O candidato que havia tomado sua decisão renunciava à vida social comum.
Ele se dedicava à endura, um processo voluntário de neutralização de tudo o
que liga à vida terrestre, para permitir que a alma despertasse e crescesse.
Esse tempo de preparação durava alguns anos e ocorria nas grutas de Ussat-
Ornolac, no vale do Ariège. Algumas grutas tinham a função de templos, outras de habitações. A entrada dessas habitações era, às vezes, fechada por um muro e uma porta.
Essas spoulgas (grutas) eram de difícil acesso. Até o século XIII, essas grutas estavam situadas sobre as margens de um grande lago que se estendia até Tarascon.
O candidato que se decidisse a seguir o caminho do Santo Graal devia, primeiramente, atravessar um muro simbólico. Assim ele se despedia do mundo terrestre e obtinha acesso ao mundo dos que buscam o Espírito de Deus.
Com o auxílio de outros irmãos, ele percorria esse caminho passo a passo.
Os diferentes estágios eram percorridos graças a um programa diário de jejum, de trabalho e de aprendizagem, em absoluto silêncio.
Dessa forma eram-lhe ensinadas a sabedoria dos astros (astrosofia), a medicina
e, principalmente, os mistérios que acompanhavam as diferentes etapas de seu desenvolvimento interior.
Para os cátaros, o caminho do Santo Graal implicava em conhecimentos libertadores e serviços aos outros. Pouco antes de o candidato ser iniciado em sua missão, ele deveria sofrer uma morte mística simbólica, após um período de quarenta dias de jejum. Ele precisava passar três dias deitado numa sepultura, na gruta denominada Kepler, para morrer para a natureza terrestre. Desse modo, sua alma podia alcançar a libertação e, pela imitação de Jesus, pronunciar o consummatum est: tudo está consumado.
O mistério do Graal está estreitamente ligado à morte da natureza terrestre.
Mas a endura não tem, efetivamente, nada a ver com a morte do corpo físico ou
com qualquer espécie de tortura ou suplício.
Na realidade, a endura era, e continua sendo, um processo que rompe todos os laços que mantém a consciência presa ao passado.
Nesse processo, o velho eu entrega-se às forças crísticas renovadoras para que a
alma possa renascer.
Após ter passado três dias na grutade Kepler, o candidato era despertado pelo irmão que o acompanhava, e saía da tumba. Ele agora podia receber o consolamentum, o sacramento da consolação. Sua alma purificada estava ligada
ao Espírito de Deus.
Esse grande acontecimento passava-se na gruta de Bethléem (Belém). O candidato entrava nessa gruta, que era considerada um templo, pela porta mística.
Lá, encontrava-se um altar, uma pedra de granito coberta por uma toalha de
linho branco, sobre a qual havia uma Bíblia aberta na página do Evangelho de João. Num nicho da parede estava colocada a taça do Graal, encoberta por uma cortina.
No momento dessa iniciação, o nascimento do Cristo tornava-se uma experiência física. Antonin Gadal, Patriarca dos cátaros e guardião de seu tesouro, escreveu:
Nada poderia fazer estremecer ou desviar do bom caminho o homem que renascia em Bethléem. Ninguém no mundo poderia vencer a Força misteriosa que ele representava!
Quando o candidato havia cumprido o caminho iniciático e se tornado perfeito(parfait), ele saía do santuário pela porta mística, celebrava um ritual e dava
a sua benção aos companheiros. Depois disso, ele percorria o célebre caminho
dos cátaros, que existe ainda em nossos dias: da Montanha Sagrada ele se dirigia a Montségur, onde os perfeitos se reuniam antes de caminhar pelo mundo para levar a Luz aos seus semelhantes.
A herança dos cátaros continua atual Montségur tem a forma de um navio e está situado no cume de um rochedo.
Esse castelo foi construído num lugar onde se elevava, há muito tempo, um templo dedicado ao sol, e no qual as pessoas da época se ligavam aos mistérios de Zoroastro.
Na capela há uma abertura pela qual, no dia de São João, 24 de junho, às onze horas, um raio de sol penetra e ilumina o símbolo do Logos solar na parede
oposta (Essa data corresponde ao solstício do verão no hemisfério norte).
Quando, em 1244, o exército da Inquisição forçou os que estavam refugiados
no castelo a capitularem, os cátaros tiveram ainda um prazo para terminar sua tarefa espiritual.
Na véspera de subir para a fogueira, todos os que queriam defender sua fé receberam, das mãos do grão-mestre Bertrand Marti, o consolamentum, para que
suas almas se unissem ao Espírito de Deus.
O misterioso tesouro dos cátaros foi ocultado nas grutas do vale do Ariège. No dia 16 de maio desse ano, duzentos e cinco homens e mulheres lançaram-se voluntariamente nas chamas da fogueira.
Conta a lenda que, enquanto caminhavam em direção à fogueira, de mãos dadas e cantando, um trovador que se encontrava entre a multidão disse: Após 700 anos o loureiro reflorirá sobre as cinzas dos mártires.
Em 1944 o patriarca da Fraternidade dos cátaros, Antonin Gadal, subiu com sete testemunhas até a montanha de Montségur e cumpriu a profecia do trovador.
Assim, verifica-se mais umavez, que os buscadores da Luz sagradaque representa o Santo Graal podem ser perseguidos, martirizados e mortos, mas que a própria Luz jamais pode ser destruída e retorna sempreao lugar de onde ela já surgiu.
Em Albi, os perseguidores dos cátaros construíram uma catedral fortificada
para mostrar que eles eram os vencedores. A catedral ainda existe e
domina a cidade. Assim, fecha-se umadas mais negras páginas da história da
Igreja Católica dita «cristã».
O amor do Graal, que tudo perdoa, e a não combatividade absoluta dos cátaros, que dele decorre, colocaram um fim a esses acontecimentos. Desde então, um acontecimento tão maravilhosoquanto inesperado aconteceu em Albi,provocando um retorno espiritual que deu um novo impulso à libertação espiritualda humanidade.
Não longe de Albi, em 1167, Nicetas, patriarca búlgaro, havia dado à
Fraternidade Cátara a missão de fazerconhecer e espalhar pela Europa os
mistérios da iniciação crística.
Era preciso libertar a humanidade do personagem histórico de Cristo da igreja de roma e dos dogmas a isso inerentes, pois são essasrepresentações que sempre a impedem de ter acesso às possibilidades libertadoras que a Força crística cósmica
propicia: o Graal, preenchido pela Luz que é capaz de expulsar todas as trevas das almas humanas.
A pessoa que adquire essa compreensão descobre em si uma chaga incurável e isto a impulsiona a procurar a verdade universal.
Ela não cessará de aspirar pelo renascimento de sua alma e já não dará ouvidos aos cantos de seu eu, que sódeseja garantir a segurança e o poder de seu próprio mundinho.
A humanidade deve aprender novamente a fazer essa oferenda que representa o amor ao próximo e a viver do santo e maravilhoso alimento dispensado pelo
Graal.
Foi erigido, em 5de maio de 1957, em Ussat-les-Bains,no vale do Ariège, um monumento que recebeu o nome de Galaad. Esse nome aparece com freqüência nas lendas do Graal. Traduzido literalmente ele significa: «O Monte do Testemunho ». Sobre o quadrado do monumento está apoiada a pedra do altar sobre a qual o Perfeito celebrava seu primeiro ritual após sua iniciação na gruta de Belém. Este monumento simboliza os esforços contínuos para libertar a humanidade da sua prisão religiosa, esforços empreendidos pela Aliança da Luz.
Indubitavelmente, a gruta de Belém e a catedral de Lombrives, por exemplo, ainda são, atualmente, lugares especiais onde a atmosfera de pureza interior e de disponibilidade a serviço do próximo é sempre perceptível. A Catedral de Lombrives tem cerca de oitenta metros de altura. Era lá que os cátaros celebravam seus serviços. Em 1328 – oitenta e quatro anos após a queda de Montségur – essa gruta foi fechada para o mundo exterior.
Talvez a mensagem do Graal seja transmitida oculta sob imagens pitorescas, mas não é um conto de fadas. Trata-se de uma realidade vivente e vibrante, mesmo para nossa época. Entretanto, não podemos descobrir essa realidade pela exaltação ou investigando o passado.
Para ter acesso a essa dimensão, é preciso seguir concretamente o processo da endura, isto é, o abandono dos desejos terrestres e a aspiração à união com o Espírito de Deus, a Gnosis Universal.
Segundo a lei hermética O que está embaixo é como o que está em cima, o Graal tem um aspecto macrocósmico, um aspecto cósmico e um aspecto microcósmico. Seu aspecto macrocósmico é a manifestação universal; seu aspecto cósmico abrange a Terra como morada da humanidade e seu aspecto microcósmico tem relação com a presença da taça do Graal no
próprio homem. Cada um deve realizar esse milagre: reencontrar interiormente essa taça, purificá-la e preparála, para nela receber a força santificadora do Espírito!
Eis a razão pela qual a imagem do Graal vivente toca profundamente a consciência humana: ela reanima a alma adormecida e prisioneira da matéria.
A lembrança dessa realidade, que um dia existiu e que é continuamente apresentada à humanidade, impulsiona os seres humanos a buscar Deus.
Para a eterna pergunta: Quereis receber o Graal? só podemos dar a eterna resposta: Só há uma única condição: desejá-lo santa e profundamente!
No Corpus Hermeticum (antigo escrito iniciático egípcio) podemos ler:
"Ele fez descer uma grande cratera, preenchida por forças do Espírito e enviou um mensageiro para anunciar aos corações dos homens: mergulhai nessa cratera, vós, almas que o podeis; vós que aguardais, com fé e confiança, vos elevar até àquele que fez descer esse vaso; vós que sabeis para que finalidade fostes criados. Todos aqueles que deram ouvidos a essa advertência e se purificaram imergindo-se nas forças do Espírito tiveram parte na Gnosis, o vivente conhecimento de Deus, e recebendo o Espírito, tornaram-se homens perfeitos." Hermes Trismegistus.
Os textos de Mani provêm das tradições da antiga sabedoria persa; contudo, ele denominava a si mesmo Apóstolo de Jesus Cristo segundo a vontade de Deus.
"O Espírito da verdade veio e nos desatou da ilusão do mundo.
Ele nos entregou um espelho.
Contemplando-o, vemos nele o Universo.
Ele nos mostra que existem duas ordens:
a ordem da Luz e a ordem das trevas.
A ordem da Luz penetra a ordem das trevas.
Não obstante, a ordem das trevas está separada da Luz desde o começo..."
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
O Senhor dos Anéis- Comentários e mensagens no filme
"Cabe a cada um decidir o que fazer com o tempo que lhe é concedido.."
Quando Frodo, o hobbit, chega nas profundezas da montanha de Moria, ele é invadido pela dúvida:
"Eu desejaria nunca ter recebido o anel, desejaria que nada disso tivesse me acontecido".
Gandalf, o mago, lhe responde:
"Sempre pensamos assim no momento das provas, mas não temos o poder de decidir. Cabe a cada um decidir o que fazer com o tempo que lhe é concedido!"
O livro do século XX torna-se o acontecimento cinematográfico do século XXI. Assim foi anunciado o lançamento do filme da primeira parte da trilogia – A Sociedade do Anel. Durante o ano de 2002 ele vem sendo projetado nos cinemas do mundo inteiro.
Os livros de Tolkien já contam com cinqüenta milhões de leitores.
No Ocidente, A Sociedade do Anel ocupa o segundo lugar na lista dos bestsellers.
O primeiro lugar pertence ainda e sempre à Bíblia. O que apaixona tanto as pessoas nesse conto maravilhoso? Será a magistral adaptação, que custou 190 milhões de dólares?
Ou então o mistério e a magia do conteúdo que se dirige a todos? A Sociedade do Anel se reporta ao combate entre a luz e as trevas, que ocorre no fim de uma era.
Na Terra Média vivem grupos diferentes de seres, bons e maus. O poder de cada
grupo é ligado a um anel forjado em tempo longínquo com o único fim de dar um sentido histórico à evolução desses seres:
Três Anéis para os Reis-Elfos sob este céu,
Sete para os Senhores-Anões em seus rochosos corredores,
Nove para Homens Mortais, fadados ao eterno sono.
Os elfos são seres imortais de alta estatura que devem proteger os mortais da Terra Média, na qual muito do antigo conhecimento se perdeu.
Mas os poderosos magos que acompanham os elfos dispõem desse conhecimento.
Os homens e os hobbits pertencem aos mortais da Terra Média.
Estes últimos são de baixa estatura, não medem mais que um metro e se parecem muito com os homens.
Além dos dezenove anéis já citados, existe um vigésimo que não provém da luz, mas das trevas:
Um para o Senhor do Escuro em seu escuro trono.
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
Um Anel para todos governar,
Um Anel para encontrá-los,
Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los
Na Terra de Mordor onde as Sombras se deitam.
A sorte dos habitantes da Terra Média teria sido selada há muito tempo se Sauron, o Senhor do Escuro, não tivesse sido vencido pela luz, alguns milhares de anos antes. Nessa derrota ele perdeu seu poder, e perdeu o anel.
Este permaneceu durante muito tempo oculto, inativo.
Finalmente ele reapareceu entre os hobbits. Mas, agora que a vida na Terra Média aproximase do fim de um período de desenvolvimento, Sauron quer reunir novamente suas forças.
Ele se torna cada dia mais poderoso, o que reaviva ao mesmo tempo o poder do anel. Sauron conseguiu conquistar os nove anéis dos homens. Os portadores desses anéis eram poderosos monarcas que agora foram reduzidos à condição
de escravos quase subumanos, submetidos a Sauron. Fantasmas em seu reino
de sombras.
Sauron também rompeu o poder dos sete senhores anões e tomou posse de seus anéis. Somente os três anéis dos elfos ainda estão fora de seu alcance.
O Senhor do Escuro também tem em suas fileiras um grande número de elfos que degeneraram até tornarem-se orcs monstruosos, soldados a soldo de Sauron.
Para retomar toda a sua força e seu poder, Sauron deve se apossar do último anel; por isso ele fica totalmente concentrado nessa finalidade.
Por força das circunstâncias, Frodo, um hobbit, encontra-se de posse do anel tão avidamente cobiçado. Os poderes das trevas o perseguem assim que ele inicia, com seus oito companheiros, a perigosa viagem pelas ravinas da Montanha da Perdição, no país de Mordor. Lá, ele deve jogar o anel no fogo de onde proveio, pois é o único meio de aniquilar para sempre o poder das Trevas.
Uma compilação de acontecimentos seculares, apoiando-se num grande conhecimento de mitos e lendas, o autor J.R.R. Tolkien escreveu uma história
cheia de símbolos eloqüentes, e o diretor Peter Jackson foi inspirado para
transmiti-los em níveis profundos por trás dos maravilhosos acontecimentos
do filme, das escaladas, batalhas e monstros.
Talvez seja esse o motivo por que tanta gente se apaixonou e por que essa compilação de acontecimentos seculares comoveu tantos leitores e espectadores.
É como se eles olhassem para trás, para uma época na qual tomaram parte, inconscientemente; como se lhes mostrassem alguma coisa que se relacionasse com seu passado microcósmico, ainda presente neles como uma imagem adormecida.
O espectador entra na sala do cinema. Após a publicidade e os trailers, ele mergulha, durante três horas, na história da Terra Média. Como os atores, ele entra na pele dos personagens, e assim vivencia como que uma parte de seu próprio passado.
Ele sofre e luta, com Frodo e seus amigos, no caminho que conduz ao turbilhão da
Montanha da Perdição, no sombriopaís de Mordor, para auxiliá-los a destruir
o anel do mal.
Entre os nove companheiros chamados para realizar com êxito essa tarefa há um elfo, um mago, um anão, dois homens e quatro hobbits.
Cada qual exerce um papel importante nessa pequena comitiva, mas três dentre eles têm uma missão excepcional: o mago Gandalf, o homem Aragorn e o hobbit
Frodo, portador do anel.
Gandalf é imortal como os elfos, superior aos homens. Mas, no momento, sua sorte
está estreitamente ligada à dos mortais, sem que sua sabedoria e sua magia sejam submissas às limitações da vida sobre a Terra Média.
Por esse motivo, ele pode combater o mal que se manifesta de forma visível ou invisível. No início, Tolkien denomina o mago de "Gandalf, o cinzento".
Ele deve suportar uma série de provas para tornar-se "Gandalf, o branco".
Sua nova condição lhe permitirá deixar, com os elfos, a Terra Média, quando esse campo de evolução chegar à expiração.
Gandalf terá, então, realizado sua missão.
Esses seres existiram?
No espectador desperta uma certa suspeita de que se trata aqui de uma realidade ainda invisível.
O homem mortal deste século perdeu-se na matéria e a sabedoria secular concernente a todas as ondas de vida que acompanham a humanidade lhe é quase desconhecida.
Ela lhe transmite, no máximo, fragmentos confusos, mas ele não conhece o final da história. Esses seres viveram realmente? Existem ainda hoje, e trabalham ainda com a Luz, com a finalidade de retirar a humanidade de seu caminho de morte?
A princípio, não se conhece a origem de Aragorn. Os homens e os hobbits o denominaram Passolargo, o vagabundo.
Mas, no grupo que deve resolver o mistério do anel, descobre-se, aos poucos, que ele foi rei. Ele descende dos reis da Terra Média que, outrora, foram depostos de seu trono por Sauron. Em seu combate com as trevas, a espada de seu poder foi quebrada, e assim eles também foram subjugados.
Aragorn carrega o peso dessa herança e se entrega inteiramente a serviço do portador do anel, a fim de restaurar seu desventurado reino.
A figura do homem real remete ao homem original; sua verdadeira natureza encontra-se no mais profundo do seu ser e, ao mesmo tempo, ela o perturba.
Por um lado ele está ligado às trevas, sua natureza da Terra Média, e por outro lado, ele reconhece a Luz e se esforça para servi-la e assim reconquistar sua realeza.
Ele não conhece o caminho, mas confia nos seus amigos.
É fácil nos identificarmos com Frodo e os outros hobbits, pois são muito naturais, adoram comer e beber bem, festejar e divertir-se. Eles vivem nos buracos aconchegantes do belo Condado.
Melhor dizendo, eles preferem nada saber sobre o mundo que os rodeia.
Mas alguns possuem uma alma aventureira. Frodo e os três hobbits deixam sua pátria. Eles são tão pequenos que nunca tiveram um papel especial na Terra Média. Mas é justamente devido a essa independência que estão aptos para chegar ao fim do mistério do anel.
Frodo está de posse do anel há pouco tempo, quando Gandalf lhe relata o
poder e o significado dessa jóia. Mesmo sentindo-se muito pequeno e muito
frágil para uma tão pesada tarefa, ele se prepara para empreender a perigosa
viagem para as ravinas da Montanha da Perdição.
Ele não conhece o caminho, mas confia nos companheiros.
Mesmo nos momentos de dúvida, ele sabe, interiormente, que tudo está certo e que deve perseverar para conseguir destruir o anel. Portanto, não se trata de um caminho que alguém escolhe por ser particularmente romântico, excitante ou glorioso.
Esse caminho que conduz ao aniquilamento do poder cíclico do anel do mal provém
de uma vocação interior.
O papel de Frodo coloca em evidência a ligação que existe entre todas as criaturas do universo. Grandes ou pequenas, fortes ou fracas, elas estão ligadas entre si, em unidade. Elas provêm da unidade divina e se manifestam em miríades de entidades de infinita diversidade.
Cada criatura, por menor que seja, onde quer que se encontre, é uma engrenagem no mecanismo universal. Por esse motivo, o menor de seus atos é importante para o todo; elas influenciam o conjunto.
Na comitiva dos nove, com Gandalf, Aragorn e os outros, Frodo é o único que pode carregar o anel. Ele não possui muita força e nem luta para ter poder ou riquezas.
Mas ele é puro, corajoso e suficientemente inteligente para compreender a tarefa da qual está incumbido e pôr-se a caminho. Contudo, acontece-lhe de exprimir,
no coração da montanha de Mordor, suas dúvidas:
"Gostaria que isto nunca tivesse acontecido."
E as palavras de Gandalf ressoam em seus ouvidos:
"Cabe a cada um decidir o que fazer com o tempo que lhe é concedido."
O filme terminou. O espectador está saturado de batalhas da Terra Média e retorna a sua própria realidade cotidiana.
Mas em sua miséria interior, algo ainda vibra por um tempo. Será que ele realmente comprovou sua ligação com todas as formas de vida e seu próprio
lugar nisso tudo? Ele se lembra de algo a esse respeito? Talvez ocorra com ele o mesmo que aconteceu com Frodo em seu desespero.
Devo decidir o que fazer com o tempo que me é concedido.
*O autor J.R.R. Tolkien nasceu em 1892, na África do Sul. Estudou
universidade de Oxford. Em 1924, foi professor de língua e literatura inglesa e, um ano mais tarde, obteve uma cadeira em Angelsaksich. Em seu livro J.R.R. Tolkien, uma Biografia, Humphrey Carpenter escreve:
Era 19 de setembro de 1931. Após um almoço coletivo no Magdalen College, três homens vão dar um passeio na margem do rio.
Eram eles: Tolkien, filólogo e professor em Angelsaksich, C.S. Lewis, professor e futuro escritor de literatura infantil, e Hugo Dyson, conferencista de letras inglesas.
Eles falam sobre os mitos na literatura e de seu grau de veracidade. Lewis afirma que os mitos são mentiras.
Tolkien replica: "Não, não são mentiras".
Mostrando as árvores, ele diz: "Denominamos uma árvore de árvore, sem refletir a respeito. Mas não há árvore enquanto ninguém pronunciar essa palavra.
Denominamos estrela uma estrela, e dizemos que é uma bola de matéria que segue uma trajetória matematicamente definida. Mas é somente o que vemos.
Dando um nome às coisas e descrevendo-as, exprimimos o que percebemos.
E, assim como uma língua é um sistema de conceituação dos objetos e das idéias, o mito é um sistema de conceituação da verdade.
Tolkien prossegue: "Nós procedemos de Deus, mas é inevitável que os mitos, que nós mesmos criamos, comportem erros, pois eles nada mais são do que fragmentos refletindo a verdadeira luz, a eterna verdade que é de Deus.
Ao inventar um mito, ao tornar-se “subcriador” por inventar um conto, o homem pode se esforçar pelo estado de perfeição que ele conhecia antes da queda.
Talvez nossos mitos desencaminhem, mas eles nos orientam para o porto correto,
por mais tortuoso que seja o caminho que conduz a ele.
A "porta de entrada" da matéria, ao contrário, só conduz a um perigo medonho,
à coroa de ferro das forças do mal.
* Hoje a palavra mito, significa alguma coisa inveridica, irreal ou ficticia. Entretanto ela deriva do vocábulo grego mythos, que em seu uso original significa uma explicação da realidade que lhe confere significado.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
OS VERSOS ÁUREOS DE PITÁGORAS
Mestre Pitágoras viveu há dois mil e quinhentos anos, numa colônia grega conhecida hoje pelo nome de Sicília. Com frequência ele é citado de um só fôlego com Hermes, Zoroastro e Platão, e é incluído entre os maiores sábios.
É dele que nos vem a palavra filosofia: amor à sabedoria. Em sua opinião, o homem deve, primeiro, esforçar-se para alcançar a pureza da alma. Isso seria algo natural, se o homem respeitasse tudo o que vive, se refletisse acerca do universo onde reinam a regularidade e a harmonia e onde miríades de coisas crescem e se expandem naturalmente em seu próprio ritmo. Nesse macrocosmo majestoso,
o número, o valor dos números e suas relações determinam tudo o que se manifesta.
De acordo com a lenda, Pitágoras podia estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Metaforicamente, também é possível afirmar isso nos dias de hoje, pois sua influência se faz sentir em toda parte: na filosofia, na ética, na astronomia, na
música e na matemática. A combinação entre música e astronomia pode ser observada na expressão “a música das esferas”.
Nesse contexto, Shakespeare também dá sua contribuição em O mercador de Veneza:
“Vem aqui, Jéssica, vê como a abóbada celeste está incrustada de pontos de ouro que cintilam. Cada corpo celeste que vês, por pequeno que seja, segue
sua órbita cantando como um anjo no coro dos sempre jovens querubins. Assim a harmonia ressoa nas almas tornadas imortais. Mas, enquanto estivermos revestidos de argila, ela permanecerá inaudível para nós”.
Os pitagóricos formavam comunidades com determinadas regras de vida, as quais, para nós, se apresentam fora de seu próprio contexto. Segundo Dicaiarcos, Pitágoras afirmava que a alma é imortal.
Tudo o que ocorre reaparece no curso da rotação do tempo e de acordo com determinados ciclos, e, por conseguinte, em verdade, nada é novo.
Tudo renasce com o que tinha antes ao seu redor, pois a vida decorre justamente em ligação com tudo o que a circunda. Homens e mulheres eram membros da escola pitagórica; todos os seus bens eram partilhados, e todos viviam em comunidade.
As descobertas nos domínios da música, da matemática ou da astrosofia eram consideradas como bens comuns e atribuídas, no sentido místico, a Pitágoras, mesmo após sua morte.
Os pitagóricos seguiam uma ética na qual a vida contemplativa ocupava o lugar principal:
"Somos estrangeiros neste mundo; o corpo é o túmulo da alma. Mas não devemos fugir dele pelo suicídio, porque somos bens e propriedade de Deus, nosso pastor, e sem sua ordem não temos o direito de evadir-nos."
Há três espécies de homens, exatamente como nos jogos olímpicos. A classe inferior é a dos que vêm comprar e vender, a seguinte, a dos competidores; e, acima de todos, os que simplesmente veem.
A maior purificação é, portanto, a ciência desinteressada, e o homem que a ela mais se dedica, o verdadeiro filósofo, é quem mais se liberta da roda dos nascimentos”.
A palavra “teoria”, diz o filósofo moderno Bertrand Russel, é originalmente uma palavra “órfica”, isto é, um conceito proveniente de um antigo movimento religioso místico que considerava aalma como um elemento divino, tendo a possibilidade
de libertar-se do corpo após uma série de reencarnações. Poderíamos interpretar a palavra “teoria” como: uma “contemplação simpática e fervorosa”. Uma teoria pode levar a um saber científico ou a uma compreensão profunda.
Assim, essa palavra, passando pelos pitagóricos e chegando até nossos dias, tomou progressivamente seu atual significado, mas para os que se deixam inspirar por Pitágoras ela conserva algo de uma manifestação extática.
Algumas das regras de vida dos pitagóricos foram transmitidas mediante Os versos áureos de Pitágoras.
Apresentamos aqui alguns fragmentos dessa antiga Sabedoria.
OS VERSOS ÁUREOS DE PITÁGORAS
Primeiro, honra os deuses imortais, como a lei estabelece, e venera o juramento, depois os heróis dignos de honra, e os gênios do mundo inferior, executando as prescrições da lei.
Honra também teus pais e parentes mais próximos; e, entre os outros, escolhe como amigo o melhor em virtude; cede às palavras doces e aos trabalhos úteis, e não te desavenhas com teu amigo por causa de pequena falta, tanto quanto
possas, pois o poder habita junto à necessidade.
Sabe que estas coisas, por um lado, são assim; por outro, habitua-te a dominá-las: sobretudo o estômago, o sono, e a sexualidade, e a ira; e nunca faças algo vergonhoso, quer com outros, quer sozinho; porém, acima de tudo respeita a ti mesmo.
Depois, sê justo em palavras e ações; habitua-te a nunca comportar-te sem refletir; porém, sabe que morrer é o destino de todos.
Quanto às riquezas, aceita por vezes adquiri-las, e por vezes perdê-las.
E tudo o que, pelos destinos divinos, os mortais recebem de dores, se disso tens tua parte fatal, suporta-a e não te indignes; porém é a cura que convém, tanto quanto te seja possível; e reflete desta maneira: que aos bons o destino não dá
muito desses sofrimentos.
Muitas palavras vis ou virtuosas são pronunciadas diante dos homens, que elas não te turbem; e não te permitas desviar-te por elas.
Se alguma mentira for dita, sê brando. O que te digo se cumpra em qualquer circunstância: Ninguém jamais deve levar-te, por palavras ou por ações, a fazer ou a dizer algo que não seja o melhor para ti.
Delibera antes da ação, para não haver consequências censuráveis: pois agir e falar sem reflexão são coisas de um homem fraco; mas cumpre essas coisas, a fim de que mais tarde não te entristeçam.
Nada faças que não entendas, porém aprende tudo o que te é necessário; e levarás assim a mais agradável vida. Também não negligencies a saúde do corpo;
porém, na bebida, na comida e na ginástica, sê comedido. Chamo medida tudo o que não te entristecerá.
Habitua-te a um modo de vida puro e sem indolência; e evita fazer tudo que cause inveja. Não gastes fora de medida, como o que ignora a beleza, nem sejas avarento: a medida em todas as coisas é excelência.
Faze o que não te prejudicará e reflete antes de agir.
Não permitas que o doce sono cerre teus olhos antes de teres examinado cada um de teus atos do dia: em que errei? O que fiz? O que não fiz que deveria ter feito?
Começando no primeiro ponto, vai até o fim e em seguida: se cometeste coisas vergonhosas, repreende-te; mas, se agiste bem, regozija-te.
Nessas coisas esforça-te e exercita-te; é preciso que as ames. Elas levar-te-ão aos caminhos da virtude divina; sim, por aquele que deu a tétrada à nossa alma, fonte
da natureza eterna! Agora empreende a tarefa, após orar aos deuses para que a realizem.
Quando tiveres dominado essas coisas, saberás qual é dos deuses imortais e dos homens mortais a constituição, e até que ponto se diferenciam e onde se unem.
E conhecerás, segundo a medida da justiça, que a natureza é em tudo semelhante, de modo que para ti não haja nenhuma esperança do que é sem
esperança, e que nada te permaneça oculto.
E saberás que os homens têm os males que eles mesmos escolheram. Infelizes, que não vêem os bens que estão próximos deles nem os escutam: raros são os que sabem livrar-se do mal.
Essa é a sina que extravia o espírito dos mortais; e, como cilindros que rolam, são jogados para lá e para cá e padecem males infinitos. Triste companheira,
a discórdia inata neles, sem que percebam, os extravia.
Não deves fazê-la avançar, porém cedendo a ela, dela fugir. Zeus pai, por certo livrarias de muitos males todos os homens, se lhes mostrasses de que demônio
eles se servem.
Tu, porém, arma-te de coragem, pois divina é a ascendência dos mortais, aos quais a natureza sagrada revela todas as coisas.
Quando algo dela tornar-se parte tua, dominarás o que te ordeno.
E, após teres curado a alma, salvá-la-ás desses males.
Abstém-te, porém, dos alimentos dos quais falamos, e, tanto nas purificações como na libertação da alma, decide e reflete sobre cada coisa, após ter estabelecido como condutor o juízo cheio de excelência que vem do alto; após abandonares o corpo, se chegares ao éter livre, serás imortal: um deus que não morre, já não um mortal.
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