sábado, 19 de maio de 2012

O HOMEM REALMENTE ESPIRITUAL



É bem assim o homem realmente espiritual: Não é um homem pacatamente virtuoso, uma alma dogmaticamente mansa e domesticada para encampar docilmente as crenças tradicionais. 

O homem integralmente espiritual é um intrépido aventureiro dos mundos ignotos, um genial sonhador do infinito, uma alma empolgada pela dinâmica inquietude metafísica dos insatisfeitos, dos insaciáveis, dos descontentes com o que “todos” sabem e fascinado pelo que todos ignoram...

O homem espiritual, surdo aos barulhos da turba-multa dos profanos e às teses dos catedráticos, escuta intensamente vozes do grande silêncio que principia além de todos os ruídos estéreis. E o que esse silêncio anônimo lhe sugere é mais sedutor do que tudo o quanto os discursos e os sermões dos sabidos e afamados possam lhe dizer.


H.R. Cosmorama

terça-feira, 15 de maio de 2012

O livro da pureza



1. Lao Tsé, o sublime, disse: “O grande Tao não tem forma, mas gera o céu e a terra e os alimenta. O grande Tao não tem desejos, mas ele faz girar o sol e a lua. O grande Tao não tem nome, mas ele assegura o crescimento e a manutenção de
todas as coisas. Não conheço seu nome, mas chamo-o de Tao.

2. Tao se manifesta no puro e no impuro, no movimento e na imobilidade. O céu é puro, e a terra, impura. O masculino é puro, o feminino, impuro; o masculino é móvel, o feminino, imóvel. O que é genuinamente puro desce, ao passo que o impuro é fluido e se espalha; assim tudo foi gerado. O puro é a fonte do impuro, e o movimento, o fundamento do repouso. Se o homem permanecesse sempre
puro, calmo e silencioso, o céu e a terra retornariam ambos ao não-ser.

3. O espírito humano ama a pureza, mas o intelecto a corrompe.
A razão ama a calma e o silêncio, as cobiças os fazem cessar. Se o espírito é capaz de sempre rejeitar as cobiças, o intelecto fará de si mesmo silêncio. Se a inteligência for depurada, o próprio espírito se tornará puro; os seis desejos (os dos cinco sentidos e o da imaginação) não aparecerão, e os três defeitos
(cobiça, cólera e estupidez) se aniquilarão, desaparecendo por si mesmos.

4. Se os seres humanos não podem ter acesso à razão, é porque seu mental não é puro e seus desejos persistem. Quem consegue rejeitar suas cobiças verá que sua razão já não lhe pertence; se considerar seu corpo, verá que ele já não lhe pertence; se considerar as coisas exteriores, verá que já não se interessa por
elas. 

Se compreender esses três pontos, ele estará simplesmente vazio. Esse vazio despertará seu pensamento à contemplação do “nada”. Sem esse “nada”, não
existe vazio. Quando o pensamento do vazio desaparece, o “nada” desaparece também, e quando o pensamento do “nada” desaparece, segue-se nitidamente um estado de repouso e de silêncio contínuos. Como, nesse repouso, independentemente do lugar que ocupamos, poderia nascer um desejo sequer?

Então, quando já nenhum desejo aparece, reinam o verdadeiro silêncio e o
verdadeiro repouso. O verdadeiro silêncio é uma qualidade constante e, nessa disposição, percebemos todas as coisas no interior do ser; sim, essa verdadeira
e constante qualidade torna-nos mestre da natureza humana. E essa entrega e esse calmo silêncio proporcionam pureza e repouso contínuos. 

Quem possui a pureza perfeita chega progressivamente ao verdadeiro Tao. E, quando chegar a isso, ele será chamado mestre do Tao. Embora chamado mestre do Tao, ele não pensa ter na verdade melhorado o que quer que seja. Por proceder à transmutação de todas as coisas vivas ele é chamado de mestre.do Tao. Quem está em condição de compreender isso tem o poder de transmitir a outros o Tao sagrado”.

5. Lao Tsé disse: “Os superiores, os que sabem, não fazem esforço; as pessoas de condição inferior se esforçam com prazer. Quem possui uma grande qualidade não a mostra; quem só tem uma pequena se contenta com ela. Quem se contenta com
ela e a mostra não é contado como participante “do Tao e de suas qualidades”.

6. A razão pela qual todos os homens não recebem o verdadeiro Tao é porque seu mental está corrompido. Se seu mental está corrompido, seu espírito está perturbado. Se seu espírito está perturbado, eles se deixam atrair pelas coisas exteriores. E, neste caso, eles as buscam com avidez. Ora, essa avidez causa embaraço e tormentos, provocando a confusão do pensamento e lançando o corpo e o espírito na angústia e na aflição. A pessoa experimenta tristeza e humilhação,
ela atravessa de forma selvagem e precipitada as conseqüências dos estados de vida que levam à morte, continuamente arriscada a soçobrar no oceano da amargura e a perder o verdadeiro Tao pela eternidade.

7. O verdadeiro e eterno Tao! Os que o compreendem recebem-no por si mesmos. E os que chegam a compreender o Tao permanecem na pureza e no repouso”.

sábado, 12 de maio de 2012

Música - Gnosis - Bach - R+C



“Não é verdade que o artista é sempre um estrangeiro entre os homens?
Onde quer que ele vá, levado por determinado impulso, ele se sente banido em toda a parte. Parece que ele conheceu um céu mais puro, um sol mais quente e
homens melhores.” Franz Liszt

Como um compositor como Johann Sebastian Bach expressou estes sentimentos
na música? 

Seu lema era que toda a música deve servir unicamente “à honrar o Senhor e fazer florescer a alma”. “Se não fizermos assim”, diz ele no prefácio de um de seus manuais, “não se trata de verdadeira música, mas de rugidos e de ruídos diabólicos.” 

Para Bach, a verdadeira música tem sua raiz na consciência religiosa. Segundo seus alunos, ele considerava as partes vocais de suas composições como diálogos
entre os participantes que, na ordem de inscrição, falavam e escutavam.

Cada nota devia ser de uma grande pureza, a fim de servir perfeitamente
o sentido interior da composição. 

Esta retidão, esta disciplina, formam a base de toda a obra de Bach. 

Nenhuma de suas criações é superficial ou medíocre.

Seu comportamento se reflete tanto em suas obras religiosas quanto profanas.

É por esta razão que alguns críticos o acham muito douto, muito sério e meticuloso.

Sua visão se expressa muito poderosamente em inúmeras cantatas em que letras e sons ilustram passagens da Bíblia. 

Os escritores que trabalharam com Bach estavam, sem nenhum dúvida, sob a influência do pietismo e mostravam o profundo desejo de interiorizar e aprofundar a fé. 

A palavra pietista foi utilizada como apelido para designar um “carola”. O pietismo é uma corrente espiritual na qual se aspirava à experiência divina individual sob
a influência do gnosticismo. 

Neste contexto, lembremo-nos de Johann Valentin Andrea, o pastor de Calw (Alemanha), que escreveu As Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreuz. 

Andrea é citado como fundador do pietismo suábico.

As cantatas de Bach contêm, além disto, uma quantidade de textos que
encontram eco no aluno, em razão de sua visão de vida. 

Assim, o coro da Cantata 22 canta: 

"Faz-nos morrer por tua graça; desperta-nos por tua bondade.
Que o velho homem pereça a fim de que ele possa viver novamente." 

Estas palavras ligam diretamente à endura, que é o processo do recuo deliberado
do eu em proveito do novo homem-alma.

Há muito tempo já se acha que Sebastian Bach introduziu seu próprio nome e o de Christian Rosenkreutz nas composições por meio da simbologia dos números. 

No livro entitulado Bach en het getal publicado em 1985, os autores mostram que Bach deu algumas indicações que dizem respeito aos rosa-cruzes da Idade Média e a suas obras. 

Numerando de 1 a 24 as vinte e quatro letras do alfabeto de sua época, e
adicionando estes números, os autores encontraram, por exemplo:

“A C.R.C. Hoc Universi Compendium Vivus Mihi Sepulchrum Feci” (Altar
de C.R.C., deste compêndio do universo fiz, em vida, um sepulcro),frase
tirada do Manifesto Fama Fraternitatis.

terça-feira, 1 de maio de 2012







Sabemos tão pouco sobre Deus quanto sobre as formas sob as quais Ele se manifesta.

Da mesma forma que um som ou que uma freqüência somente podem ser percebidos por um instrumento adaptado a eles, da mesma forma, a sombra divina
somente será percebida por sentidos adaptados, sem que estes tenham, por isso, a capacidade de perceber Deus.

Estes conceitos importantes evocam a alegoria da caverna de Platão.

Nesta caverna, encontram-se homens que estão acorrentados a ela desde muito jovens.

Eles não podem voltar a cabeça e não vêem, portanto, a entrada diante da qual arde uma fogueira.

Diante desta fogueira passam todos os tipos de formas que projetam sua sombra sobre a parede do fundo, enquanto os ruídos do exterior somente chegam até a caverna sob a forma de ecos.

Para os prisioneiros, essas sombras e esses ecos são a única realidade, e, no entanto, é uma realidade inexata.

Este exemplo mostra bem a relatividade do mundo e do eu.

Esta tomada de consciência é a primeira etapa na senda da Verdade:

“Homem, conhece-te a ti mesmo.”

No livro “O Anel da sabedoria” , Ibn Arabi declara:

“O conhecimento que temos de Deus é tão ínfimo quanto os fenômenos por meio dos quais Ele se manifesta”.

E ele explica: “Se uma luz incolor atravessar um vidro colorido, ela ficará da cor do vidro. Quem diz que a luz é verde, diz a verdade a partir de seu ponto de
vista, e seus sentidos testemunham a favor desta verdade. Mas, quem diz que a luz não é nem verde nem colorida, diz a verdade e é a razão sã que dá testemunho desta verdade”.

Quando a luz atravessa pedaços de vidro de diferentes cores, acontece uma multiplicação aparente desta, conforme a consciência dos observadores.

O sufi Abdul Quasim al Djunaid diz: “A água é da cor daquele que a olha”.

Da mesma forma, um processo ou um certo número de características dependem do ponto de vista do observador.

Podemos dizer da luz que penetra tudo no universo que ela é “branca” e que ela não pode ser percebida a não ser por aqueles que se encontram nela.

Para tocar os homens, a luz deve adaptar-se a sua consciência, a fim de fazê--los sair de sua decadência.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

E Trabalhem em silêncio.



“Ainda não estamos em condição de abrir os olhos de nosso ânimo e contemplar a imperecível e inimaginável beleza do bem. Somente a verás quando aprenderdes a já não falar dela, porque a Gnosis do bem é tanto silêncio divino como o silenciar de todos os sentidos.
Quem uma vez a encontrou já não pode dar atenção a nenhuma outra coisa. 
Quem uma vez a vislumbrou já não pode ter olhos nem ouvidos para outra coisa, porque até seu corpo participa da imobilidade.
Porque enquanto todas as percepções e estímulos corpóreos desaparecem de sua
consciência, ele permanece na quietude.”

Hermes Trismegisto - Corpus Hermeticum

O silenciar de todos os órgãos dos sentidos acontece concomitantemente com o participar do silêncio insondável da natureza fundamental.

Então, o ânimo, tal como Hermes o denomina, desperta.

Ele é a unidade entre a cabeça e o coração. O ânimo experimenta um repouso interior inabalável de grande intensidade.

Nesse silêncio, é inflamado um fogo em perfeita suavidade.

E a energia desse fogo brando nutre o inteiro sistema corporal, a fim de que o silêncio recém-nascido, a paz interior, seja fortalecida.

Assim, nosso inteiro ser torna-se maduro para perceber a voz do silêncio

segunda-feira, 9 de abril de 2012




O Buda disse num sutra que quando você ouve algo, mesmo uma palestra de Dharma, quando vê algo, mesmo uma prática, não deveria ser capturado pelo que ouviu ou viu porque isso pode ser um obstáculo para seu crescimento, para seu crescimento espiritual. Você tem que manter sua liberdade porque o que você vê e ouve pode te dar uma visão e o fato é que todas as visões são visões erradas. As visões não nos deixam ter acesso direto à realidade. Portanto, seja muito cuidadoso quando usar seus olhos, seja muito cuidadoso quando usar seus ouvidos, seu nariz, sua língua, seu corpo e sua consciência. Não seja capturado por visões. Este é o núcleo dos ensinamentos, e este é o ensinamento chamado “desapego a visões”.

Se você aprendeu a prática dos 14 Treinamentos sabe que os primeiros três treinamentos existem para nos ajudar a não ficar apegado a visões, doutrinas, ideologias e que os olhos do Buda podem ser descritos primeiramente como o tipo de olhos que podem nos ajudar a reter nossa liberdade. Liberdade, não liberdade política, mas liberdade de nossas visões, liberdade de teorias, de doutrinas. Portanto o Buda barrou o caminho das especulações filosóficas. Isto é muito autêntico. Você não deveria gastar seu tempo especulando sobre doutrinas, ideologias. O que você deveria fazer é aprender o caminho da prática de forma que possa identificar seu sofrimento e ver o caminho que leva à cessação do sofrimento. Você não deveria se doar para uma ideologia, teoria ou doutrina, você não deveria se entregar à especulação filosófica. Isto é muito básico nos ensinamentos budistas.

O Buda disse, “Eu apenas ensino duas coisas: eu ensino sobre o sofrimento e a saída do sofrimento.” Seu tempo deveria ser devotado ao estudo e à prática dessas duas coisas. E quando somos capazes de nos liberar do sofrimento, nossa mente se torna clara, então ela pode refletir a realidade última sem nenhuma procura intelectual. Sua mente se torna como um espelho que pode refletir a realidade como ela é, sem nenhuma distorção. Você é um rei e sua face é como um espelho refletindo a realidade como é, e você não precisa de nenhuma palavra, nenhum conceito, nenhuma noção. Aquele que ainda espera pacientemente por visões dogmáticas, considerando-as as mais altas no mundo, pensando que é a mais excelente visão, depreciando as outras visões considerando-as inferiores não está ainda livre. Meus amigos, meus alunos, não entrem nessa. Façam bom uso de seu tempo para a prática da transformação e cura.

Ao ver, ouvir ou sentir alguma coisa e considerar que é a única coisa que pode te trazer conforto e vantagem, você sempre fica inclinado a ficar preso nisso e considera tudo mais inferior. Esta é a tendência natural de cada um de nós. Queremos confinar a verdade. É um sentimento maravilhoso sentir que temos a verdade e os outros não (risos) e assim perdemos nossa liberdade. A atitude de ficar preso na visão pessoal e considerar as outras como inferiores, é considerada pelos sábios, como  escravidão, como ausência de liberdade e quando você não tem liberdade, seu caminho espiritual é bloqueado. Não pode fazer mais progressos.

Na semana passada alguém me escreveu e disse, “Thay, eu percebi que o caminho espiritual apenas nos satisfaz por dois ou três anos e parece que depois não podemos fazer mais progressos. Você fica muito entusiasmado durante os primeiros anos aprendendo e praticando, mas depois de poucos anos você não sente mais avanços.”

Eu entendi imediatamente. É assim porque o que foi oferecido a ele é um conjunto de ensinamentos, um conjunto de visões, e o tipo de prática que é baseada nestas visões. É por isso você fica preso e não pode mais fazer progressos. A única maneira de continuar a fazer progressos no seu caminho espiritual é remover os obstáculos feito de visões, mesmo visões da doutrina, visões sobre liberdade e transformação. Temos que nos livrar de quaisquer visões.

No Sutra das Cem Parábolas, o Buda conta a história de um jovem homem de negócios que perdeu seu filho. Ele estava ausente, era tão ocupado, e por isso não estava em casa para tomar conta do filho. Durante sua ausência muitos piratas vieram e colocaram fogo na vila e seqüestraram o garoto. Quando o homem de negócios voltou para casa, a viu queimada, apenas um monte de cinzas. Ele entrou em pânico, estava procurando por seu filho e não podia vê-lo em nenhum lugar. Nesse estado de pânico, viu um corpo queimado de criança que acreditou ser do seu filho. Ele se jogou no chão, bateu no peito, puxou seu cabelo e chorou, porque estava ausente e por isso seu filho estava morto. Depois de organizar a cerimônia de cremação, ele coletou as cinzas e as colocou em um saco de veludo que passou a carregar com ele o tempo todo. Comendo, dormindo ou andando ele sempre carregava o saco, porque como não tinha mais esposa, seu filho era a única razão de sua vida. Ele era habitado por um sentimento de pesar e lamento e completamente apegado ao pequeno saco contendo as cinzas do seu filho.

Uma noite quando estava deitado, sem conseguir dormir e chorando silenciosamente, ele ouviu batidas na porta. Era seu filho que tinha conseguido escapar dos piratas e voltou para casa, descobrindo que seu pai havia construído uma nova casa. Ele bateu na porta. Era cerca de uma hora da manhã e o pai disse: “Quem está aí?” ”Sou eu, seu filho! Por favor, abra!” O pai disse: ”Não, seu garoto mau, meu filho já morreu. Quem é você para vir a esta hora da noite para me perturbar! Vá embora!”. O garoto insistiu muitas vezes, mas o pai estava certo que o garoto estava morto.

Esta história foi contada pelo Buda que disse: ”Às vezes na sua vida você toma algo como verdade, e fica preso nisso, e por isso você para. Não há como avançar no seu caminho espiritual e continuar a procurar a verdade. Mesmo se a verdade vier e bater na sua porta você se  recusará em abrir a porta.” É uma história maravilhosa sobre apego.

Se você continua a sofrer, a prática do Buda é soltar as visões de forma a poder avançar no seu caminho espiritual. Suponha que você tenha subido uma escada e chegou no quinto degrau e olhando para baixo vê que é muito alto e assim pensa que adquiriu o mais alto tipo de visão, a visão mais bonita. Se você ficar preso nesta situação, não vai mais querer dar um outro passo, porque sempre é possível dar outro passo.

É como a ciência. Cientistas descobriram coisas e consideram-nas verdade, e se ficarem presos a isto, se acharem que é a verdade absoluta, vão parar de questionar e não poderão avançar. Um bom cientista é aquele que está pronto para abandonar suas visões porque tem a mente aberta, é livre de espírito. O espírito da ciência é o espírito da abertura. Um bom cientista está sempre pronto para deixar ir suas descobertas de forma a dar outro passo no caminho do questionamento livre. Portanto a prática de desapego a visões é muito básica nos ensinamentos do Buda. Cada um de nós tem que usar seus olhos de Buda de forma a praticar assim, para nos libertarmos de nossas visões. Feliz é a pessoa que é livre de visões, incluindo as visões sobre a felicidade. (risos)

Há um país que acredita que a ideologia sozinha pode ajudar o país a ser forte e as pessoas felizes e por isso abraçam esta ideologia há 70 anos. Durante este tempo houve perseguições de muitas pessoas que não concordam com eles. Foram colocados em prisões, em hospitais psiquiátricos porque têm a coragem de desafiá-los sobre suas visões. Os líderes criaram muito sofrimento, morte, separação e frustração porque são muito apegados a uma visão, uma super ideologia.

Você pode se agarrar a uma visão como essa por 70 anos, mas 70 anos é muito. Pode criar muito sofrimento para você e para as pessoas que você ama. Sua boa intenção está presente, mas você não tem liberdade. Cada um de nós pode ainda ser aprisionado pela visão que temos a respeito de nossa felicidade. Acreditamos que só podemos ser felizes sob certas condições: a,b,c,d... Portanto, de acordo com este ensinamento, ajuda muito dar um passo atrás e olhar para nossa visão a cerca de nossa felicidade. Talvez seja provável que sua visão de felicidade seja o principal obstáculo para que você seja feliz. (risos)

Se tiver uma hora, duas horas, para praticar por favor, vá, sente-se no pé de uma ameixeira e olhe para idéia relativa a sua felicidade. Você acreditou firmemente que se não conseguisse isso ou aquilo, a felicidade não seria possível. Pode ser que se você abandonar esta visão de felicidade então ela possa vir até você aqui e agora. Nunca houve condições antes. De acordo com o Buda, viver feliz no aqui e agora é possível para qualquer um. Você precisa apenas de uma coisa: ser livre, ser livre de suas visões. Não é que outra pessoa esteja impondo algo a você e assim você não pode ser livre. É você mesmo que se aprisiona nas suas visões. É por isso que a prática básica do budismo é a prática de remover as visões. Nirvana é a ausência, é o silenciamento de todas as visões porque visões e noções são a fundação do sofrimento.

Quando você for capaz de silenciar todas as visões e palavras, quando se libertar delas, a realidade se revelará sozinha para você. Isto é Nirvana. Nirvana é a cessação, é a extinção. Primeiro a extinção das visões e então a extinção do sofrimento que nasce com as visões. Estamos bastante conscientes, estamos muito preocupados sobre nosso bem estar e o bem estar de nossos entes queridos. Queremos ser felizes, queremos que nossos filhos, parceiro, amigos sejam felizes. Não temos nenhuma dúvida sobre esse tipo de bom desejo. Mas não estamos livres. Pensamos que nosso filho somente poderá ser feliz se fizer isto. Se ele não fizer isto... Nossa filha só pode ser feliz se fizer aquilo, e ela não fez aquilo... Portanto impomos nossas visões aos nossos amados e os destruímos por causa de nossas boas intenções. Amar é oferecer liberdade, oferecer as condições para a outra pessoa ser livre e conseguir o correto entendimento sobre sua felicidade.

Thich Nhat Hanh
(Palestra de Dharma feita no dia 8 de junho de 2000 em Plum Village)
(Tradução para o português: Leonardo Dobbin)
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EVANGELHO DA VERDADE



Ele se transforma, por assim dizer, nos seres e nas coisas, que, por sua vez, se transformam nele. 

Já não há objetos diante dele, ele torna-se o sujeito que tudo abarca. 

Pode-se dizer que a Gnose consiste em uma experiência espiritual direta.

Com base nessa compreensão da Gnose, fica evidente que os fundadores das religiões e das escolas de mistérios, desde a noite dos tempos, eram gnósticos, “portadores do conhecimento”, isto é, aqueles que ao longo de suas vidas experimentaram a unidade de todas as coisas em Deus.

Assim disse Mestre Jesus: “Eu e o Pai (a fonte primordial divina) somos um”. 

E Paulo: “Agora vemos por espelho em enigma (isto é, por meio de nossos
sentidos através dos quais as coisas nos parecem objetos enigmáticos), mas então veremos face a face”, ou seja, olhos nos olhos, de forma direta, imersos na essência de todas as coisas.

Ou como disse Buda: “O que percebo em minha contemplação é a verdade. 
O que pratico com devoção é a verdade, pois, vê, eu mesmo tornei-me a verdade”.

E o hinduísmo declara: “Tat tvam asi”. Tu és o ser.

Tudo o que está à tua volta e vês como objeto, na realidade, é tu mesmo. 

Mas, com a tua consciência comum não podes percebê-lo. 

Além dessa noção geral, a Gnose tem um significado específico ligado a uma religião ou filosofia que surgiu na mesma época que o cristianismo e floresceu nos primeiros séculos de nossa era. 

Os grandes nomes dessa corrente são Madalena, João, Tiago, Mateus, Marta, Tomé, Filipe, Salomé, Mani, Cerintho, Paulo, Menander, Saturnilo, Silas/Silvanus, Priscila, Euphrates, Marcion, Amônio Saccas, Basílides, Valentino, Carpócrates, Bardesanes, Monoimus, Cerdo, Theodotus/Panteno, Ptolomeu, Heracleon, Philon, Hipatia, Porfírio, Jâmblico, Clemente, Orígenes, Proclo, Dionísio Areopagita. 

Dessa Gnose histórica (em sentido literal) provêem os escritos gnósticos descobertos em 1945, em Nag Hammadi, no Alto Egito. 

O Evangelho da Verdade, que se estima ter sido escrito por volta da metade
do segundo século, estava entre os documentos descobertos em Nag Hammadi.

A Igreja, com o passar do tempo, tornara-se incapaz de uma experiência espiritual direta com o divino, tornara-se dogmática. 

Ela condenou os escritos gnósticos como errôneos, heréticos, e não os admitiu no Novo Testamento. 

Para essa Igreja romana, a Gnose histórica era, e ainda é, uma doutrina falsa.

Mas, sob o ponto de vista de que o cristianismo original foi o instituído por Jesus, percebe-se que esse cristianismo efetivamente se refere a uma experiência
espiritual, precisamente como a Gnose da mesma época. 

Não há diferença essencial entre o cristianismo espiritual e a Gnose histórica, até mesmo no que concerne aos símbolos. 

Desse ponto de vista, Jesus foi um gnóstico tal como Valentino
e Mani foram cristãos espirituais, e também Paulo e João. 

A hostilidade, ainda atual, do cristianismo tradicional contra a Gnose histórica e contra a Gnose em geral começou quando, em benefício do dogmatismo e do poder romano, desapareceu do cristianismo o sentido espiritual interior fundamental, ensinado por Jesus.

Verificamos, no entanto, ao comparar os documentos do cristianismo original com os pertencentes à Tradição da Gnose histórica como, por exemplo, o Evangelho da Verdade, que o sentido revelado por um confirma o significado apontado pelo
outro.

Valentino, nascido no Egito, por volta do ano 110 d.C., é um dos gnósticos mais conhecidos e provavelmente o autor do Evangelho da Verdade. 

Por volta do ano 150, Valentino foi escolhido bispo da comunidade cristã em Roma. 

Desse fato é possível concluir que nessa época ainda não havia separação
entre "cristãos" e gnósticos. 

Sobretudo, parece que nessa primeira comunidade cristã reinava certa
liberdade. 

Seus bispos eram eleitos e não havia a figura do Papa. 

Ao retornar para o Egito, Valentino fundou uma escola filosófica religiosa. 

Valentino morreu no ano 170, no entanto suas idéias sobre o surgimento do mundo e o desenvolvimento da humanidade permaneceram através de alguns fragmentos de suas cartas e alocuções, bem como do Evangelho da Verdade, que muito provavelmente é de sua autoria.

Um testemunho de um dos Pais da Igreja talvez nos permita compreender melhor Valentino: “Valentino afirmava que, tendo visto um menino muito jovem, lhe perguntou quem era, e que o menino lhe respondera: Eu sou o ‘Verbo’.”

Essa é uma bela referência à compreensão característica dos gnósticos: experiências interiores feitas pela consciência espiritual. 

Valentino vê em seu interior, como em uma visão, um menino, uma criança. 

Em contraposição ao homem terrestre, ele se torna consciente do Outro, o Verbo divino eterno, luz, vida, sabedoria. 

Esse Verbo é ainda pequeno como uma criança. 

Isso significa que Valentino percebe sua identidade espiritual, seu verdadeiro ser, ainda por desenvolver-se, mas que é incondicionado e capaz de desenvolver-se como uma criança. 

Sem preconceitos, sem desconfianças, sem opiniões rígidas. 

Assim simboliza Valentino o primeiro ingresso auspicioso do mundo divino em
sua consciência. 

Foi o início de sua iluminação, durante a qual o mundo divino, o ser espiritual no
imo, desenvolveu-se cada vez mais. 

De maneira cada vez mais abrangente a estrutura e as forças do mundo divino revelaram-se para sua consciência.

A mesma experiência foi vivida por Paulo: “[…] porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus […] Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus.”

E Paulo pergunta a seus companheiros: “Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós?” 

O gnóstico Paulo é consciente de sua verdadeira identidade e da identidade de seus companheiros, homens espirituais.

Valentino nos relata seus pensamentos a respeito do mundo divino no Evangelho da Verdade. 

Ele fala da alegria e do repouso que o preencheram desde que se tornou consciente da realidade espiritual.

Valentino diz que já não faz parte dos que caíram nos reinos dos infernos, mas que se encontra no mundo onde já não há cobiça, nem sofrimento, nem morte. 

O mundo exterior, inferior, é o inferno, um mundo de conflitos, de angústias, de cobiça, de sofrimento e de morte, no entanto esse mundo infernal já não influencia sua vida.

Os seres que se tornaram conscientes da Verdade, afirma Valentino: “[…] repousam Naquele que está em repouso, não são atormentados pelo anseio pela
Verdade e não são confundidos na busca pelaVerdade. E o Pai está neles, e eles estão no Pai. Porque eles são perfeitos e inseparáveis do verdadeiro Bem e não sofrem com a carência de qualquer coisa, mas vivem no repouso e são constantemente revigorados pelo Espírito”. 

E dizemos aos que não se encontram nesse repouso e nesta alegria: “[…] saibam que eu já não posso falar sobre outra coisa depois de ter estado uma vez nesse
lugar de repouso”.

O objetivo único do autor do Evangelho da Verdade é indicar para nós, que somos atormentados por essas carências, o caminho para livrar-nos delas.

O caminho para salvar-nos dos reinos dos infernos, da carência da verdade e do desejo aflitivo pela verdade é o conhecimento, o conhecimento da verdade.

Esse caminho começa com a compreensão de que nos encontramos em ignorância e engano sobre a verdade e sobre nós mesmos. 

Esquecemos e negamos nossas raízes e as do mundo. 

É do mundo divino, do Pai – diz Valentino – que fomos criados, como seres espirituais, de quem recebemos tudo e por quem somos incentivados a progredir em nosso desenvolvimento.

Entretanto, conservamos nosso corpo, assim como nossos pensamentos e sentimentos que dele provêem, como bens pessoais; cremos que no espaço a matéria visível – portanto mortal – tal com como estrelas e planetas – são a única realidade. 

E com base nesse preconceito, nessa crença, reprimimos o Espírito e não reconhecemos que ele quer operar em nós e no mundo. 

Dormimos e acreditamos que nossos sonhos são a realidade. 

Contrariamente ao mundo do Espírito, nossas percepções sensoriais do mundo material nos apresentam uma realidade de segunda ordem, tal como são os sonhos
em relação ao estado de vigília.

Nossa ignorância em relação ao Pai, diz Valentino, nossa incapacidade de perceber o Espírito, em nós e fora de nós, gera medo, confusão, instabilidade, indecisão, divergência, muitas ilusões e vãs ficções que são como pesadelos durante o sono.

Esse estado é acompanhado da crença na idéia preconcebida de que a matéria é a única e definitiva realidade. “[…] Aqueles que rejeitaram o sono da ignorância já não vêem o sono como realidade… eles deixam o sono e os sonhos da noite para trás. O que há de melhor para o homem é despertar-se e converter-se…”.

O primeiro passo no caminho da experiência do “eu” verdadeiro e da verdade é reconhecer que nos enganamos a respeito de nós mesmos e do mundo.

Que nossas considerações de orientação puramente materialista sobre a realidade nada são senão sonhos. 

Porém, uma concepção gnóstica é possível com base em uma abertura a uma imagem espiritual do mundo, que se dá por meio da fé gnóstica.

Mas, como a autêntica realidade aparece? Como acordar e tornar-se consciente?

Façamos algumas analogias para explicar como acontece esse despertar interior de uma consciência gnóstica. 

Tomemos um exemplo simples da vida comum: já aconteceu a todos nós de não lembrarmos o nome de alguém conhecido. Sabemos o nome dessa pessoa, sentimos que seu nome está na “ponta da língua”, que está em algum lugar obscuro de nossa consciência, no entanto, embora façamos um imenso esforço
mental para lembrá-lo, não conseguimos. 

Temos a sensação desagradável e irritante de que esse nome é como que impedido de vir à nossa consciência.

Entretanto, ao deixarmos o problema de lado e nos ocuparmos com outra coisa, de repente o nome surge em nossa memória, e respiramos aliviados.

Um último exemplo: temos uma vida social e uma vida privada às quais estamos tão habituados que não percebemos o quanto elas contradizem profundamente nosso coração. 

Habitualmente, consideramos que as circunstâncias particulares nas
quais nos encontramos são realmente necessárias e fundamentais para nossa existência. 

Entretanto, sentimos uma tensão vaga e um conformismo, capazes de nos levar ao desespero. 

Então, temos a impressão de que nossa vida não corresponde à nossa natureza, que teríamos de mudar de direção. 

Mas, por medo das conseqüências, acabamos por seguir o mesmo caminho.

A repentina lembrança de alguma coisa esquecida; o sentimento de ter reprimido um antigo ideal e a consciência de levar uma vida mentirosa podem ser comparados à compreensão gnóstica, com a diferença que esta é muito mais profunda e global.

O gnóstico chega de repente a um insight de que ele esqueceu o verdadeiro sentido de sua vida. 

Que sua vida nesta terra e suas tentativas de encontrar felicidade, riqueza, sucesso, ou seu impacto nomundo material já não o contentam e que o mais
profundo e espiritual de sua alma não está ativo.

Ele compreende, enfim, que sua vida é uma grande ilusão. 

Para ele, essa é a única visão possível da vida,e apesar de tudo, ela é bela.

Essa idéia traz conseqüências. O que reprimimos até o presente se faz sentir e clama por seus direitos.

Se assim não fosse, o que reprimimos jamais poderia vir à tona. 

Dessa maneira, o núcleo espiritual fundamental em nós que é eterno nos convida,
nos chama, sim, nos tira de nossa ordem para que ele possa evoluir e tornar-se consciente. 

Passamos a perceber em nós uma nova receptividade ao espiritual, uma abertura ao que temos de mais profundo,uma fé na Gnose. 

Ora, são essa fé e essa abertura que nos permitem adquirir a compreensão.

A compreensão, o despertar gnóstico, de acordo com a fé gnóstica, nada é senão tornar-se novamente consciente daquilo que até o presente havíamos abandonado, esquecido, dissimulado ou reprimido. 

À medida que esse fundamento espiritual oprimido se revela à consciência, damo-nos conta do sentido da vida há muito tempo esquecido e desmascaramos a relatividade, o erro, a mentira e a superficialidade de nossa vida comum.

E aspectos de nossa consciência há muito abandonados tornam-se facilmente ativos outra vez. 

Dessa maneira, é possível perceber que as concepções gnósticas não são fórmulas ou teorias intelectuais, mas que se trata aqui de tornar-nos conscientes de nosso ser interior profundo. 

A maior parte das tentativas filosóficas e teológicas modernas de compreender os gnósticos sofre da deficiência de acreditar que o conhecimento gnóstico é mera
especulação do pensamento sobre a situação do ser humano no mundo. 

Quando os gnósticos dizem que são libertos pelo conhecimento entendem que
passam do estado inconsciente ao consciente do que que há de mais profundo neles, que essa nova consciência age neles e os conduz à libertação; o que alguns teólogos compreendem de maneira errônea quando consideram que os gnósticos se sentem libertos graças a um conhecimento secreto especial, pois acreditam que determinadas fórmulas e teorias sobre o mundo e a natureza humana conduziriam os gnósticos à libertação. 

No entanto, para o gnóstico, a libertação pelo conhecimento significa que seu ser interior mais profundo voltou à consciência e à vida, e assim, age nele e o liberta
de sua superficialidade e de sua inércia. 

Como Valentino, o gnóstico adquire a consciência de sua verdadeira identidade espiritual, ele ouve o Verbo divino, percebe o mundo divino, no início, como
uma criança particularmente dotada, e depois, cada vez de forma mais ampla e intensa. 


Se o chamado ressoar no mais profundo de nossa alma, sugerindo a possibilidade de tornar-nos conscientes, de despertar em nós a eternidade que nos libertará,
poderemos apresentar duas reações: ter fé ou não.

Pode acontecer também que, profundamente tocados, aceitemos imediatamente escutar o chamado e a ele responder.

O Evangellho da Verdade a esse respeito expõe:

“Quando é chamado [pelo nome], ele ouve, responde e volta-se para aquele que o chama, eleva-se até ele e, nesse chamado, obtém a Gnose. E, como agora sabe, ele faz a vontade daquele que o chamou”. 

Essa seria a reação apropriada do ser humano a esse chamado proveniente do próprio imo: abertura e resposta positiva. Isso é fé gnóstica.