sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Conferência dos Pássaros, um conto SUFI
Simorg é o pássaro fabuloso das antigas narrativas do Oriente, símbolo
brilhante do Príncipe que deve ressuscitar interiormente em todo ser humano.
O conto Conferência dos Pássaros, o sufi Farid ud-Din Attar (1119-1233)
relata como muitos pássaros partem à procura de um rei, e como sua busca os leva por sete vales, ao longo de uma exaustiva peregrinação mas somente trinta dentre eles chegam ao fim.
O autor desse conto maravilhoso era originário de Nishapur, na Pérsia. Ele escreveu muitos textos líricos e épicos, a maioria datada do fim do século XII,
que refletem sua busca e sua profunda aspiração de encontrar o segredo do amor divino.
As obras desse místico mostram aos pesquisadores de todas as culturas que só a forma está ligada à época e à tradição, e não a essência.
A ação que precede e que segue essa experiência autenticamente mística é o
ponto central da obra de Attar.
Pois é por um comportamento interior libertador que um novo desenvolvimento
pode acontecer.
A purificação que disso resulta dá acesso ao caminho que conduz ao reino divino interior.
A Conferência dos Pássaros começa no momento em que estes estão reunidos
e exprimem o desejo de encontrar um rei.
A poupa (ave) ocupa um lugar importante na discussão.
Em muitas narrativas ela aparece como a enviada de confiança de Salomão junto à rainha de Sabá. “Em seu peito, ela traz o símbolo do conhecimento espiritual; e,
sobre sua cabeça, brilha a coroa da fé.”
Ela é a mediadora que conhece a existência do rei e sabe aonde é preciso ir para procurá-lo. Ela declara que somente a Simorg, “que, na ilha da sublimidade,
mora na cidade da magnanimidade”, é digna da realeza.
No coração dos pássaros nasce um grande desejo e todos querem partir à
procura da Simorg.
Mas surgem muitos pretextos para não fazer uma viagem tão perigosa.
Então, a garça real afirma que não pode ficar sem o seu lago.
Mas a poupa lhe responde: “O lago é mutável e pouco fiel. Um dia, ele te engolirá”. O pavão crê que só ele tem o desejo de retornar ao paraíso.
A poupa replica que o senhor do paraíso é mais importante do que o paraíso.
As sábias palavras da poupa acabam levando-os à decisão de se manterem em seu projeto inicial. É principalmente o amor dela que lhes dá a força para suplantar seus temores.
Assim reconfortados, os pássaros partem em viagem.
Mas, surgem novas dúvidas quando eles vêem que, diante deles, no interminável caminho, não encontram nenhum ser vivo.
Angústias ancestrais vêm à superfície.
A poupa responde a um de seus companheiros de viagem, que tem medo de morrer, que a morte é seu destino:
“Tu nasceste para morrer!” Um outro pergunta a que distância se encontra verdadeiramente o objetivo. Então, a poupa lhes relembra longamente os
sete vales que é preciso atravessar.
Depois de muitos anos, só trinta pássaros conseguem alcançar a corte
da Simorg. Eles pedem então para entrar e repousar, mas isso lhes é recusado.
Desesperados, eles se sentem mais do que nunca próximos da morte.
Somente depois de prestarem contas do que fizeram durante sua vida é que são
absolvidos.
Por fim, quando seu desejo se transmuta em não desejar, eles recebem uma nova força, e reconhecem que o pássaro Simorg representa verdadeiramente sua aspiração à Luz.
Então se lhes ensina que a realeza é semelhante a um claro espelho, e que aquele que sai desse espelho, se reconhece.
Em seguida, eles desaparecem todos dentro do espelho.
“A sombra desaparece no sol e isso é o fim.”
Finalmente, eles entram na imutabilidade depois que tudo o que era antigo desapareceu. Eles se perdem para sempre na Simorg. Já não há viajantes, nem guias. Ao encontrar a Simorg, eles também se encontram a si mesmos, e o
problema do eu e tu é resolvido.
O pesquisador da Verdade certamente reconhecerá algo do seu próprio anelo na aventura desses trinta pássaros.
A força propulsora nasce com a lembrança da vida original.
Aos poucos, seu estado o inquieta. É como um fogo. A consciência experimenta
que algo de estranho a este mundo a agita e a inquieta.
Esta impressão está sempre presente, sejam as circunstâncias tristes ou alegres.
É aí que começa a Conferência dos Pássaros.
Após a euforia do início, instala-se o medo de que a viagem seja perigosa.
A consciência limitada não pode fazer outra coisa senão trazer para o seu próprio
nível o que se situa fora do seu alcance.
Entretanto, fica alguma coisa de indefinível que assim como uma sombra, obscurece toda a alegria e jamais dá descanso.
Pássaros de todas as variedades, de cores e comportamentos diferentes, ilustram bem as inúmeras ilusões humanas, e principalmente a série de objeções, sua extensão e diversidade, em face da escolha que a personalidade deve fazer para se voltar ou não para a Luz.
Nesse conto simbólico, esses problemas aparecem desde o início.
Os pássaros traduzem todas as características que são obstáculos no caminho da libertação interior: sentimento de indignidade, tendência à melancolia, jugo dos instintos naturais, desejo de posse, tentações e cobiças sempre novas e abandono às emoções sucessivas.
Todas essas fraquezas surgem a cada instante, se atropelam por detrás de tudo e querem subsistir e dominar.
E o doce chamado que vem do fundo do coração e incita à autoanálise e à reflexão fica completamente sufocado.
Essa é a razão pela qual muitos pássaros se perdem durante a penosa viagem através dos sete vales.
Um deles acredita que alcançou o estado da perfeição com exercícios e se recusa a mudar de opinião.
A poupa o repreende severamente e lhe explica que sua pretensão não pode fazê-lo progredir.
Ela afirma que o caminho que conduz a Fonte não é para aqueles que são aparentemente perfeitos, mas para aqueles que reconhecem sua imperfeição.
A pergunta é a seguinte: o pesquisador está centrado em sua própria verdade ou na verdade divina? Será que censuras como as da poupa são um reconforto para ele? Será que ele vai continuar a se aperfeiçoar e a se cultivar negligenciando a
verdadeira finalidade da vida?
Aquele que se obstina em servir os interesses de seu eu em lugar dos interesses de sua alma, e quer alcançar alguma coisa precisa na vida antes de voltar-se para a Luz, está enganado.
Ele sempre quer atingir com seu eu um cume que é inacessível para ele!
Orgulho e presunção o acompanham, e seu eu convive com prazer com esses dois incômodos parceiros.
Mas somente a compreensão de que a escolha inicial é incorreta pode quebrar essa atitude forçada.
Isto exige uma decisão; e, em seguida, sua realização.
Somente assim é que o orgulho e a presunção se retiram para dar lugar às qualidades que abrem novas perspectivas.
“Bem” e “mal” são os dois pólos entre os quais a natureza dialética ímpia
se mantém.
Não se pode vencer o mundo, onde os contrários se alternam, tomando partido pelo pretenso bem ou pelo pretenso mal, a fim de forçar uma situação.
Este mundo dos opostos oferece a possibilidade de descobrir essa realidade.
Aquele que se dá conta de que esses aspectos contrários se mantêm mutuamente, e que portanto é impossível desembaraçar-se deles, reconhecerá que os conselhos da poupa são verdadeiros.
E tirará proveito disso quando for à procura do rei interior.
Este caminho conduz para fora de todos os aspectos contrários:ele representa uma mudança fundamental e total do ser.
“Devemos ainda percorrer sete vales. Ninguém sabe a que distância eles estão, e aqueles que neles chegaram jamais voltaram”, responde a poupa àqueles que perguntam se a meta ainda está longe.
Para encontrar a verdadeira finalidade da vida, é preciso passar por experiências.
Nessas condições, não é mais possível voltar atrás: a busca experimental está fora de questão. Estas não são apenas belas palavras: é preciso compreender que os poderes do eu são insuficientes para transpor os limites interiores.
É isto o que a psicologia deveria aprender e ensinar!
A poupa explica cada um dos sete vales e sua particularidade.
Assim, há o Vale da Busca, o do Amor, o do Conhecimento, o do Não Desejar, o da
Unidade, o da Confusão e o do Desapego.
“Quando desceres ao Vale da Busca, estarás sempre diante de novas alternativas.
Lá, cada respiração é semelhante a milhares de possibilidades, e mesmo um corajoso papagaio pode tornar-se uma mosca! Durante anos, deves te esforçar ao máximo e fazer o teu máximo possível enquanto teu coração atravessa diferentes situações.
Deves renunciar a toda posse e a todo poder.
Teu caminho passa pelas profundezas de teu sangue e por tudo o que te é exterior.
Uma vez que tenhas a certeza de nada mais possuíres, ainda terás que esvaziar teu coração de tudo o que ele contém.
Se teu coração estiver finalmente ao abrigo da perdição, contemplarás a luz serena de sua majestade divina.
E se a luz começar a se manifestar em teu espírito, tua aspiração espiritual se multiplicará mil e uma vezes.”
“Depois aparece o Vale do Amor. Aquele que nele chega é mergulhadoo fogo porque neste vale não há nada além de fogo.
Quem não puder agüentar esse banho de fogo não mais encontrará alegria.
Ele é um amante, que é como fogo, e que, com o rosto ardente, se consome.
Ele não hesita: joga seus cem mundos no fogo com alegria.
Nesse caminho, não existe diferença entre o bem e o mal, pois aqui não existe
nem bem, nem mal. O amor transcende os dois.”
“O peregrino vê aparecer agora o Vale do Conhecimento. Aqui, cada um segue um caminho diferente. O caminho de um nunca se parece com o caminho de outro. Aquele que segue o caminho do corpo não é o mesmo que trilha o caminho da alma.
Mas para os dois, tanto o corpo quanto a alma, existe sempre, por causa de mau procedimento ou de virtude, uma porta que leva à elevação e uma porta que leva à
perdição.
E quando o sol do conhecimento brilha no firmamento do caminho mais elevado, cada um reconhece seu verdadeiro valor e seu coração se abre amplamente para a verdade”.
“Em seguida, vem o vale do Não Desejar.
Aqui não há mais exigências e nada mais tem importância. Os sete oceanos voltam a ser uma simples poça. Os sete planetas não brilham mais que um débil clarão. As sete esferas do paraíso desaparecem aqui, e os sete infernos se cristalizam no gelo.
Não importa o que faças ou deixes de fazer: nada de novo e nada de antigo tem qualquer poder”.
“Então vem o Vale da Unidade, o domínio da completa solidão.
Somente aqueles que vêm desse deserto têm na cabeça o mesmo turbante. Quer notes aqui agora muito ou pouco em número, é um, contudo, que está nesse caminho da unidade. Porque permanece sempre um em um, e é esse um o Uno,
a unidade perfeita.”
“Agora, é o Vale da Confusão, onde tudo é fonte de dor e tristeza.
Aqui, cada respiração é como uma espada cortante, e cada batimento de pálpebras é só suspiro e gemido. Os suspiros e as dores são como um fogo. Não se distingue o dia da noite. O sangue escorre, não da espada, mas de cada raiz de
cabelo, e todos os lamentos são registrados.
O fogo é como o gelo comparado ao peregrino que queima e se consome
na sua dor. Ele é jogado na confusão e aí se encontra porque a confusão
lhe fez perder o seu caminho. Aqui aquele que possui a unidade absoluta
inscrita na alma perde tudo, e também a si mesmo.”
“Finalmente, surge o Vale do Desapego.
Quem poderia descrevê-lo? Ele se caracteriza pelo esquecimento, o silêncio,
a surdez e a inconsciência. Basta um único raio de sol espiritual e vês desaparecer todas as sombras ao redor de ti. Quando o oceano do infinito eleva suas ondas, como podem se manter as formas que aparecem na superfície?
Os dois mundos já não são nada além das formas que tu vês na superfície
do oceano. Quem duvidar é vitima de alucinações. Aquele cujo coração se
perde nesse oceano está perdido como nunca e aí repousa em paz...”.
Como se pode perceber pela história, a maior parte dos pássaros sente medo com a descrição dos sete vales.
Finalmente, trinta alcançam a meta.
Mas quando o guardião do palácio os repele, priva-os de suas últimas forças e de sua última esperança. Não obstante, é-lhes apresentado um texto onde estão anotados todos os atos de suas vidas e eles demonstram arrependimento.
Então, o pássaro Simorg perdoa-lhes as faltas. Em outras palavras: no fim do caminho, eles encontram seu verdadeiro ser.
“O brilho do sol do rei é como um espelho. Aquele que se olha nele vê sua alma e seu corpo. Ele se vê por inteiro.”
Muitos aspectos do caminho seguido pelos trinta pássaros são familiares ao buscador da verdade.
Alcançar a Simorg não é uma atividade do eu, mesmo que seja através do eu que o caminho comece.
Quando ele se dá conta de que sua mais elevada aspiração acaba se tornando uma decepção, pode abandonar o lugar que outorgou para si durante milênios.
Farid ud-Din Attar fala sobre o desapego, que implica na remissão de todos os pecados.
Mas por que apenas trinta pássaros alcançam a meta?
O número trinta representa os três nascimentos pelos quais o peregrino deve passar: a fase preparatória, a fase da nova vida e a fase do retorno.
O zero indica que a fase foi cumprida.
Em outras palavras: a fase anterior deve ser levada a um bom fim para que a fase seguinte possa começar.
“Ele viu um novo céu e uma nova terra,” diz o Apocalipse. Eles entraram “no que é permanente, depois que todo o antigo desapareceu”.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
“A candeia do corpo são os olhos. De sorte que, se teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luz. Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!” Mestre Jesus, o Cristo (Mateus, 6:22)
O homem comum é limitado pela luz que seu olho capta, ou seja, pelos fenômenos que acontecem a seu redor.
Ele está habituado a identificar-se com mundo que o rodeia, com lado externo das coisas, o que se tornou cada vez mais importante.
Este esplendor e este brilho mascaram sua pobreza interior.
O que uma pessoa pretende ser, sua imagem, começa a tornar-se mais importante do que aquilo que ela é realmente.
O olho “mau” não poderá dissipar a ilusão deste mundo, pois ele não está
completamente satisfeito com tudo o que vê.
Deste modo, nenhuma luz verdadeira pode penetrar o ser humano como criatura microcósmica, e todo o seu corpo continua nas trevas.
A multiplicidade dos contrários é a marca do mundo.
Quase sempre, somente percebemos as diferenças entre os fenômenos e ninguém é capaz de vê-los como uma unidade.
E não poderia ser de outra forma, pois o homem perdeu o contato com sua própria
unidade e assim ficou condenado a conhecer a si mesmo dentro de um caos interior.
Como ele comeu do fruto da “árvore do conhecimento do bem e do mal” e somente vê oposições, a “árvore da vida” tornou-se inacessível para ele.
Quando o olhar se volta do exterior para o interior, é possível comer o fruto
da “árvore da vida”.
O olho que quer-se tornar simples deve aprender a se desligar do mundo das oposições, e isto não é fácil.
Primeiro, é preciso descobrir que, na natureza, cada força atrai uma força contrária.
Para atingir a tranqüilidade, é preciso conseguir ter uma relação completamente diferente com a natureza.
Se possível, é preciso deixar o mundo em calma para depois conseguir sua própria calma e é com este propósito que os frutos da “árvore da vida” nos vêm ajudar.
De fato, este novo alimento, que provém de um outro campo de vida, concede a força de ultrapassar as oposições da natureza perecível e de seguirem frente, em meio ao mundo, a caminho do mundo da unidade.
O homem traz a unidade dentro de si mesmo, e este único vestígio divino está
sempre lhe dizendo: “Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha
voz e abrir a porta, entrarei em suacasa...”. (Apocalipse, 3:20).
Um novo rumo lhe será dado, para que ele possa sair do mundo dos opostos.
Este rumo lhe trará a paz e apagará dentro dele os desejos deste mundo.
Surgirá para ele um novo preceito:
“Busca primeiro o Reino de Deus e todo o resto te será dado em acréscimo”.
Será estabelecida uma nova relação com o mundo: ele já não terá necessidade,
como antes, de buscar o que é preciso para viver, pois isto lhe será oferecido.
Ele receberá tudo o que necessitar para o crescimento da nova alma.
Portanto, a maneira pela qual o olho vê determina a qualidade do corpo astral e
do corpo mental.
É por esta razão, também, que ele é chamado de “espelho da alma”.
Jacob Boehme explica, em seu "Diálogo entre o mestre e o discípulo":
“Teu olho direito vê na eternidade. O olho esquerdo olha para trás, no tempo.
Se te permites sempre olhar a natureza e as coisas do tempo, não atingirás
jamais a unidade que tanto desejas. Deixa disto e fica atento. Não permitas a
teu espírito que percorra o que é exterior ou que se satisfaça com isto; e não
voltes teu olhar sobre ti mesmo... Não deixes que teu olho esquerdo te induza
a erro, evocando a todo o momento uma idéia depois da outra; mas que teu olho
direito conduza o esquerdo... E é somente levando o olho do tempo no olho da Eternidade e... descendo na luz da natureza graças à luz divina... que conseguirás atingir a unidade de visão, ou a vontade unificada”.
Nós vos dizemos isto para que vejais claramente que o homem que ainda não está ‘inflamado pelo Espírito divino’, que conseqüentemente ainda não abriu seu olho direito para a luz da Gnosis, em realidade é "caolho".
Hermes Trismegisto, Criação, Vida, Unidade.
“Busca, ó alma, adquirir o conhecimento absoluto das coisas aprendendoa conhecer sua forma e sua essência. Mas deixa de lado suas qualidades
e sua quantidade, pois a Vida verdadeira, assim como sua essência, é una e eterna, e não há nada que se interponha entre ela e a alma.”
Por que o mundo é assim?
Por que os homens fazem assim?
Ou, mais diretamente, por que sou assim?
Por que faço o que faço?
Por que existe sofrimento?
Por que existe injustiça?
O que é o amor?
Onde está a harmonia?
Todas estas perguntas, certamente, não são novas. O homem, olhando as estrelas,
sempre procurou compreender o como e o porquê da criação.
Mas, nos dias de hoje, quem chega ao final do processo de individualização, já não se satisfaz com fórmulas prontas e, como já as conhece, sente uma surda inquietação.
Buda disse:
“Mesmo que o mundo fosse tão belo como cantam os poetas ou
como o pintam os artistas, aqui não encontraríamos a paz”.
A resposta para estas indagações não é difícil e nem complicada.
Não se trata de usar a inteligência, como geralmente pensamos, enganosamente.
As funções intelectuais sempre estão relacionadas com o tempo e o espaço.
Depois da morte do corpo, o que resta são os pensamentos e sua expressão, em
formas que não permanecem.
E, se não prestamos nenhuma atenção a eles, eles desaparecem.
Há pensamentos que podem durar mais, mas não são eternos.
As idéias, as reflexões, os gostos, as tendências, os sentimentos, as preferências, acabam-se apagando na poeira dos séculos.
E isto é muito bom, pois muitas especulações, talvez muito interessantes em um dado momento, nada servirão para a eternidade.
Muito acima das atividades mentais, está a fonte da vida.
A vida penetra e engloba toda a criação, mas sem receber dela nenhuma influência.
Da fonte, jorra a força que conduz a criação para seu objetivo.
Esta força não se reduz a uma soma de preceitos: ela não permite o sucesso na vida pessoal; ela não é tangível, nem pode ser captada.
Podemos apenas recebê-la e ela nos permite participar da verdadeira vida.
Ela alimenta a alma, desde que a alma deseje ser alimentada por ela.
É a fonte silenciosa, intangível, na qual a alma pode matar sua sede para encontrar a fé e o consolo, e avançar no caminho até o bom fim.
A primeira condição é que a alma queira matar sua sede na fonte de vida original.
Depois de ter perdido o rumo, ela deve optar pela volta.
É por esta razão que dizemos que o mundo material não passa de uma morada provisória para a alma.
Isto quer dizer que a alma está de passagem, que ela deve ir além, sem “dormir sobre os louros”.
“Na planície do desespero, jazem os ossos dos inúmeros que se sentaram para
descansar. E, enquanto estavam sentados, morreram.”
O homem é empurrado para a frente e sacudido, até conseguir adiantar-se, rumo a sua meta, que é a unidade tríplice: do Espírito divino, da Alma imortal e
do Homem transfigurado.
Buda mostrou a angústia da alma aprisionada, comparando o mundo em que ela vive a uma casa prestes a pegar fogo: é preciso abandonar a casa.
Quem aspira a libertar sua alma é um passageiro neste mundo.
Está aqui, trabalha aqui, faz o melhor de si, mas continua neutro em relação a tudo o que se passa dentro dele e a sua volta.
Sua meta final não está incluída nos limites do espaço e do tempo.
Ele se comporta com inteligência e sabedoria.
Sua conduta testemunha sua paz interior, sua compreensão e sua fé verdadeira.
E, quando ele encontra alguém que está angustiado, o ajuda como o bom samaritano e não como o fariseu.
Como a paz na terra é efêmera, ele não fica procurando aqui embaixo uma
sociedade ideal dotada de uma estrutura em perfeito funcionamento.
Certamente, ele consagra o melhor de suas forças a elevar o mais alto possível o nível da sociedade, mas este não é seu objetivo principal.
Quem vê a solução neste modo de considerar a vida, não deve hesitar em
se submeter, a si mesmo e ao mundo, a um exame aprofundado.
Hermes Trismegisto diz:
“Busca, ó alma, adquirir o conhecimento absoluto das coisas aprendendo a conhecer sua forma e sua essência. Mas deixa de lado suas qualidades e sua quantidade”.
No mundo da multiplicidade, este é um trabalho sem fim: estudar as propriedades
dos inúmeros seres e fenômenos.
Cada resposta suscita uma nova série de perguntas; e também não devemos
buscar a paz interior na multiplicidade das coisas, pois a “paz é leve como o vento”.
Uma paz interior durável nasce justamente quando a alma se eleva para além da multiplicidade, para celebrar a unidade com a Fonte
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
O Evangelho da Verdade
É um dos textos gnósticos dentre os livros apócrifos encontrados nos códices da Biblioteca de Nag Hammadi.
A situação desalentadora do homem antes de ser atingido pela boa nova da Verdade é um estado de separação do “Pai da Verdade”, uma condição de perda do conhecimento acerca do Pai, do qual resultam a caótica situação interior e
exterior da humanidade e a transitoriedade do mundo das aparências.
Este Evangelho destina-se diretamente àquele que reconhece a si mesmo e a sua própria situação nesta descrição, visto que, diz esse Evangelho, é possível uma libertação desse estado de ignorância, libertação que se dá através do conhecimento, da eliminação do erro.
Esse conhecimento, por sua vez, só é possível pelo “poder do Verbo que emana do
Pai para o homem”.
O Evangelho da Verdade é, portanto, a “revelação da esperança” para
todos os que se acham na condição de perda do conhecimento.
Para eles é feita a promessa de serem libertos dessa condição.
Como é possível a libertação pelo conhecimento?
O texto do Evangelho da Verdade gravita em torno dessa pergunta, sempre com novas indicações e imagens.
Sempre é apontada a tensão que existe entre o Universo separado de Deus e Deus mesmo.
O Universo, incluindo o homem, vive numacarência, a carência de Deus e, por isso, é impelido para Deus como num vácuo que deseja ser preenchido, visto que Deus é a plenitude que pode preencher essa carência.
E Deus vem ao encontro do Universo através de seu Filho, que é o poder do Verbo.
Ele preenche a carência, de modo que o Universo e o homem possam entrar novamente em unidade com Deus, no conhecimento do Pai, por meio da Gnosis.
Daí, partimos da concepção de que o homem, desde o nascimento e até mesmo antes, encontra-se em um estado de repressão do verdadeiro ser, de esquecimento de sua missão essencial e de seu destino.
Ele vive fundamentalmente numa forma de autocentralização, esta é, justamente, a maneira como funciona o seu eu, e de separação de seu eu verdadeiro e imortal, que está em unidade com o Pai.
Esta é a causa da morte, que não é outra coisa senão a demolição da forma rígida que o homem construiu para si mesmo a partir do duro núcleo de seu obstinado
orgulho.
Este é o estágio da lagarta em seu casulo: uma condição que, pela carência de conhecimento, ele sustenta com teimosia, enquanto a determinação que o impele para a luz é a de viver como borboleta na luz refulgente.
Quando, porém, seu verdadeiro ser se revela, ele se torna consciente de sua unidade com o Pai, bem como de suas possibilidades e talentos para cooperar com o grande plano de Deus para a salvação do mundo e da humanidade.
A situação desse ser mudará por completo.
Vivendo conscientemente em uníssono com o Pai eterno, “conhecendo-o”, tendo
em si o conhecimento do Pai, ele será imortal, e a morte só terá poder sobre seu
corpo físico, material, e não mais sobre seu novo cerne. Com isso ele será resgatado, liberto de uma forma de existência efêmera, da alternância entre nascimento e morte, morte e nascimento.
Conhecimento, no sentido do Evangelho da Verdade é, portanto, tornar-se consciente do verdadeiro destino do homem, há tanto tempo esquecido, e da ativação de suas forças primordiais que estavam atrofiadas.
É a dissolução do falso ego e o nascimento do verdadeiro ego verdadeiro, com suas forças e atributos, pertence a uma dimensão totalmente diferente do mundo perecível.
Ele está em unidade com o Pai, ele é conhecimento e força criadores.
Entretanto, o homem não pode alcançar esse conhecimento por esforço próprio, pois está completamente envolvido com o mundo perecível e com o erro.
Ele tem em si a possibilidade para o conhecimento, mas não o poder para realizá-lo. Ele necessita de uma provisão de calor e de luz proveniente da dimensão do Pai.
É o Verbo, Jesus, a misericórdiade Deus, a graça que pode se compartilhar por intermédio daqueles homens que entraram novamente em unidade com o Pai
e que, desta forma, estão em condição de levar o poder do Verbo, a mensagem do Filho, aos verdadeiros buscadores da Verdade e do caminho da libertação.
É de uma fonte assim que o Evangelho da Verdade se origina.
Numa seqüência de imagens e comparações sempre diferentes, como sucessivas ondas de transmissão de forças, ele retrata o atual estado de vida do homem neste mundo e o caminho de retorno ao Pai.
Primeiramente nos é relatado como o Universo, por ter perdido o conhecimento, separou- se da unidade com o Pai e como o homem, em seu erro, engendrou criaturas perecíveis como, por exemplo, seu próprio corpo.
No entanto, por serem reflexos da Verdade original, essas criaturas apresentavam
uma beleza sedutora.
Mas, por não estar firmado no princípio eterno, o erro não possuiraízes profundas.
Mais adiante, Jesus, o homem que vive a partir do conhecimento e o exprime em palavras, é comparado ao fruto da Árvore da Vida.
Esse fruto, ao contrário do fruto da Árvore do Bem e do Mal, traz a vida, ou seja, o conhecimento como poder no qual o homem e o Pai se reencontram.
A situação desalentadora do homem antes de ser atingido pela boa nova da Verdade é um estado de separação do “Pai da Verdade”, uma condição de perda do conhecimento acerca do Pai, do qual resultam a caótica situação interior e
exterior da humanidade e a transitoriedade do mundo das aparências.
Este Evangelho destina-se diretamente àquele que reconhece a si mesmo e a sua própria situação nesta descrição, visto que, diz esse Evangelho, é possível uma libertação desse estado de ignorância, libertação que se dá através do conhecimento, da eliminação do erro.
Esse conhecimento, por sua vez, só é possível pelo “poder do Verbo que emana do
Pai para o homem”.
O Evangelho da Verdade é, portanto, a “revelação da esperança” para
todos os que se acham na condição de perda do conhecimento.
Para eles é feita a promessa de serem libertos dessa condição.
Como é possível a libertação pelo conhecimento?
O texto do Evangelho da Verdade gravita em torno dessa pergunta, sempre com novas indicações e imagens.
Sempre é apontada a tensão que existe entre o Universo separado de Deus e Deus mesmo.
O Universo, incluindo o homem, vive numacarência, a carência de Deus e, por isso, é impelido para Deus como num vácuo que deseja ser preenchido, visto que Deus é a plenitude que pode preencher essa carência.
E Deus vem ao encontro do Universo através de seu Filho, que é o poder do Verbo.
Ele preenche a carência, de modo que o Universo e o homem possam entrar novamente em unidade com Deus, no conhecimento do Pai, por meio da Gnosis.
Daí, partimos da concepção de que o homem, desde o nascimento e até mesmo antes, encontra-se em um estado de repressão do verdadeiro ser, de esquecimento de sua missão essencial e de seu destino.
Ele vive fundamentalmente numa forma de autocentralização, esta é, justamente, a maneira como funciona o seu eu, e de separação de seu eu verdadeiro e imortal, que está em unidade com o Pai.
Esta é a causa da morte, que não é outra coisa senão a demolição da forma rígida que o homem construiu para si mesmo a partir do duro núcleo de seu obstinado
orgulho.
Este é o estágio da lagarta em seu casulo: uma condição que, pela carência de conhecimento, ele sustenta com teimosia, enquanto a determinação que o impele para a luz é a de viver como borboleta na luz refulgente.
Quando, porém, seu verdadeiro ser se revela, ele se torna consciente de sua unidade com o Pai, bem como de suas possibilidades e talentos para cooperar com o grande plano de Deus para a salvação do mundo e da humanidade.
A situação desse ser mudará por completo.
Vivendo conscientemente em uníssono com o Pai eterno, “conhecendo-o”, tendo
em si o conhecimento do Pai, ele será imortal, e a morte só terá poder sobre seu
corpo físico, material, e não mais sobre seu novo cerne. Com isso ele será resgatado, liberto de uma forma de existência efêmera, da alternância entre nascimento e morte, morte e nascimento.
Conhecimento, no sentido do Evangelho da Verdade é, portanto, tornar-se consciente do verdadeiro destino do homem, há tanto tempo esquecido, e da ativação de suas forças primordiais que estavam atrofiadas.
É a dissolução do falso ego e o nascimento do verdadeiro ego verdadeiro, com suas forças e atributos, pertence a uma dimensão totalmente diferente do mundo perecível.
Ele está em unidade com o Pai, ele é conhecimento e força criadores.
Entretanto, o homem não pode alcançar esse conhecimento por esforço próprio, pois está completamente envolvido com o mundo perecível e com o erro.
Ele tem em si a possibilidade para o conhecimento, mas não o poder para realizá-lo. Ele necessita de uma provisão de calor e de luz proveniente da dimensão do Pai.
É o Verbo, Jesus, a misericórdiade Deus, a graça que pode se compartilhar por intermédio daqueles homens que entraram novamente em unidade com o Pai
e que, desta forma, estão em condição de levar o poder do Verbo, a mensagem do Filho, aos verdadeiros buscadores da Verdade e do caminho da libertação.
É de uma fonte assim que o Evangelho da Verdade se origina.
Numa seqüência de imagens e comparações sempre diferentes, como sucessivas ondas de transmissão de forças, ele retrata o atual estado de vida do homem neste mundo e o caminho de retorno ao Pai.
Primeiramente nos é relatado como o Universo, por ter perdido o conhecimento, separou- se da unidade com o Pai e como o homem, em seu erro, engendrou criaturas perecíveis como, por exemplo, seu próprio corpo.
No entanto, por serem reflexos da Verdade original, essas criaturas apresentavam
uma beleza sedutora.
Mas, por não estar firmado no princípio eterno, o erro não possuiraízes profundas.
Mais adiante, Jesus, o homem que vive a partir do conhecimento e o exprime em palavras, é comparado ao fruto da Árvore da Vida.
Esse fruto, ao contrário do fruto da Árvore do Bem e do Mal, traz a vida, ou seja, o conhecimento como poder no qual o homem e o Pai se reencontram.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
A Fênix
No longínquo Oriente, onde repousa a abóbada celeste
e os portais da eternidade parecem próximos,
fica uma região venturosa, isolada e solitária.
Não é fustigada pelo verão, nem pelo gelado inverno.
Irradia ali somente o Sol da primavera.
A perder de vista estendem-se planícies,
em nenhum lugar se erguem montes,
nem se abrem precipícios.
No entanto, aquele lugar sublime
sobrepuja em doze côvados
as mais altas de nossas montanhas.
Lá está o bosque do deus Sol,
repleto de magníficas árvores, plantas luxuriantes,
verdejante em perene folhagem.
Os Animais dos Mistérios
Quando o fogo de Faetonte
outrora queimou a abóbada celeste,
do calor das chamas
foi inteiramente poupado aquele lugar;
e quando o dilúvio submergiu nas águas
o globo terrestre, ergueu-se ele totalmente só,
acima do mar de Deucalião.
Doença não se acha ali, nem a ranzinza velhice,
nem a morte cruel, nem o horripilante pavor,
nem o perverso vício, nem a cobiça insensata,
nem a terrível cólera, nem também
a avidez do assassínio.
Ausente dali estão a amarga tristeza
e a pobreza com seus farrapos,
ausente está a imagem da fome
com o tormento da preocupação.
Tempestade não existe ali,
nem a agitação dos ventos,
nem cobre a terra a geada que à noite cai.
Jamais nuvem alguma
envolve a campina coberta de neve,
nem caem do céu copiosas águas turvas.
Mas, há ali uma fonte que se chama Vivente,
abundante em água clara, mansa e transparente.
Uma vez a cada mês, ela transborda
e irriga inteiramente o arvoredo em doze torrentes.
Esguia, com magnífico tronco,
eleva-se ali uma árvore
cujos frutos maduros nunca tocam o chão.
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