
As grandes tradições espirituais de nosso planeta sempre ensinaram que o mundo em que vivemos é uma ilusão, é maya como dizem os hinduístas. Com mais razão ainda, poderíamos dizer que as aparentes diferenças que saltam aos olhos entre o budismo e o cristianismo são também uma ilusão. Na verdade, estas duas grandes tradições do oriente e do ocidente têm muito mais em comum do que suas aparentes diferenças sugerem. Quando estudamos mais a fundo estas tradições verificamos que por trás de suas nomenclaturas díspares e enfoques radicalmente opostos existem mais convergências e semelhanças do que contradições. O primeiro passo, porém, em todo estudo comparativo é deixarmos bem claro o que estamos comparando. Assim, que vertentes, ou escolas destas duas tradições estamos comparando? De um lado o Budismo Mahayana, também conhecido como o Grande Veículo. Da mesma forma que Mestre Jesus, o Cristo transmitiu vários níveis de ensinamentos para diferentes grupos de pessoas, assim também o fez o senhor Buda. Estaremos comparando o Budismo Mahayana com o Cristianismo Primitivo ou Gnosticismo, que foi a continuação natural do Ministério de Jesus. O Cristianismo Primitivo recebeu um grande baque, no início do século quatro, com a transformação do cristianismo em religião oficial do Império Romano. A partir de então os objetivos temporais suplantaram os espirituais e o ensinamento original do Mestre Jesus foi perdendo sua importância relativa à medida em que a hierarquia clerical dominante foi tomando mais força do que a assembléia dos praticantes, a verdadeira igreja. A nova Igreja passou a enfatizar dogmas, credos e rituais externos, estabelecidos com o propósito de consolidar seus objetivos temporais, criando com isto toda uma série de distorções na doutrina e prática legadas por Mestre Jesus, o Cristo. O budismo, por sua vez, também não escapou incólume das influências do clero e de outros fatores externos. Com as distorções separativistas e materializantes introduzidas ao longo dos séculos na religião budista e mais ainda na cristã, uma comparação entre as versões populares destas duas religiões atuais indicaria mais diferenças do que semelhanças.
Lembramos, também que, para a Igreja, o cristianismo não pode ser comparado com o budismo ou qualquer outra religião, porque o cristianismo seria o resultado de uma revelação divina, a única revelação fiel e verdadeira. Portanto, sendo a única religião verdadeira não poderia ser comparada com qualquer outra.
"Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós vestidos como ovelhas, mas que por dentro são lobos vorazes."
Existem, portanto, aqueles, na tradição cristã que se dizem mestres, instrutores ou gurus. Mas, quando examinamos com atenção suas ações, vemos que são pessoas egoístas, voltadas para si, fazendo um grande esforço para arrebanhar um grupo de seguidores que venha bancar suas pretensões. Esses são os falsos profetas. Buda também fez uma alusão, não aos falsos profetas mas aos falsos ascetas. Aqueles que se entregam a práticas ascéticas para purificação, mas que, na verdade, estão movidos pelo orgulho de se apresentar como mais desprendido e mais santo que os outros. Esses dizem em seu íntimo: "não só sou um renunciante mas sou mais renunciante que os outros." Obviamente esta é uma atitude de orgulho que não reflete o verdadeiro sentido da espiritualidade. E Buda, com sua linguagem incisiva diz: "Por que esse cabelo trançado?" Porque eles trançavam de tal maneira a causar dor ao couro cabeludo. Por que essa roupa de pele de animal?" Com isso o Senhor Buda procurava nos alertar que não é preciso sinais exteriores de ascetismo porque todo o ascetismo é voltado para a purificação. E a purificação que conta não é a purificação do corpo. É a purificação da mente. Os ensinamentos sobre a ética são dirigidos a todas as pessoas. Ambas tradições dão muita atenção ao amor e à compaixão, ensinando que a compaixão é a pedra fundamental para a vida superior. Apesar desses ensinamentos serem mencionados nos textos básicos das duas tradições, sabemos que a verdadeira compaixão é um ideal elevado que normalmente só é alcançado por discípulos mais avançados. São realmente esses discípulos, aqueles que se voltaram inteiramente para a vida espiritual, que têm sua vida e conduta caracterizadas pelo amor puro. Num patamar ainda mais elevado estão os grandes Mestres, como Gautama e Jesus. Ambos foram impelidos a estabelecer seus ministérios redentores pela Divina Compaixão. Renunciaram a tudo e devotaram sua vida totalmente a ajudar a combalida família humana. Vale lembrar que agiram com divina sabedoria para alcançar os objetivos da divina compaixão. Estando em perfeita sintonia com o Plano Divino procuraram ensinar os homens a tornarem-se responsáveis por si mesmos. Como o fundamento da vida humana é o livre arbítrio, a salvação não pode ser forçada aos homens. Ela só pode ser indicada. Cada ser humano terá que trilhar cada passo, de livre e espontânea vontade, a longa Senda que leva à libertação. A grande contribuição de nossos salvadores foi a revelação do Caminho, por meio de ensinamentos e de seu exemplo. Portanto, a missão dos grandes Mestres, os Salvadores da humanidade, é colocar à nossa disposição os instrumentos para nossa libertação, na forma de ensinamentos capazes de promover nossa progressiva transformação interior. Com o tempo, essa transformação, equivalente à purificação de nossos veículos inferiores, cria as condições necessárias para alcançarmos finalmente a iluminação, ou seja, o portal para a libertação ou salvação.
"Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos!"
Com isto Mestre Jesus estava prometendo que, apesar de ter sido alçado a um plano diametralmente oposto das vibrações pesadas da Terra, não iria se afastar da família humana com todas suas misérias e sofrimentos, até que todos tivessem sido salvos, que é o significado da expressão "até a consumação dos séculos, ou até o fim dos tempos", como é apresentada em outras versões da Bíblia. Vejamos agora paralelos entre gnosis e sabedoria. As duas tradições insistem que a salvação só ocorre através da gnosis, como era chamada entre os gnósticos, ou da sabedoria, jnana como é referida pelos budistas. O primeiro passo nessa comparação deve ser o entendimento dos conceitos expressos nas duas tradições. Gnosis é uma palavra grega que significa conhecimento. Isto não significa que decorando uma enciclopédia, ou mesmo todos os livros de uma biblioteca, estaríamos adquirindo o "conhecimento" libertador. A gnosis tão desejada pelos cristãos primitivos era um conhecimento interior. Não um conhecimento intelectivo dependente da mente concreta e da memória, mas sim de condições muito especiais, tais como a meditação profunda ou mesmo certos rituais que propiciavam a expansão de consciência e a apreensão direta da verdade. Em suma, a gnosis poderia ser considerada como uma revelação interior. Quando Mestre Jesus, o Cristo dizia:
"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"
Ele estava certamente referindo-se à gnosis.
A sabedoria, de acordo com os budista, não é erudição. Não significa conhecer todas as escrituras budistas e poder declamá-las de cor. Sabemos que na época do senhor Buda eram poucos os que sabiam ler e escrever. E eram pouquíssimos os documentos existentes com as escrituras. Então os discípulos, muitas vezes referidos como ouvintes, aprendiam os ensinamentos ouvindo e guardando-os na memória. Este processo de aprendizado era facilitado pelo fato de não terem a mente atulhada de lixo, como temos em nossa civilização atual, bombardeada com todo tipo de informação da televisão, jornais, revistas e agora da internet. Os discípulos de então ouviam os ensinamentos e os gravavam na mente. Eles carregavam sua biblioteca na cabeça. Apesar dos budistas prezarem o conhecimento de suas escrituras, deixam claro que esta erudição não é sabedoria, mas sim um instrumento facilitador para alcançá-la. A sabedoria, a última das virtudes é a percepção do vazio de todas as coisas, a natureza essencial da mente, o substrato de toda a manifestação. Porém, como vimos anteriormente, o vazio ou ausência da natureza inerente equivale à unidade de todas as coisas. Portanto, a sabedoria para os budistas é o mesmo que gnosis para os cristãos primitivos. Outro ponto de convergência das duas tradições é a importância da "Lei". O Dharma, ou lei é a fundamentação do budismo. Eles são conhecidos como os praticantes da lei. Mas o que é a lei para os budistas? E o que é esta grande Lei? É a Lei Divina. É a Lei que rege toda a manifestação. Em virtude do princípio hermético das correspondências (aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo, o que está dentro é semelhante ao que está fora, o pequeno é semelhante ao grande), a grande Lei Universal está refletida na lei que é transmitida aos seres humanos em suas escrituras sagradas, na tradição judaico-cristã a Torá e na tradição budista o Dharma. A LEI E A PURIFICAÇÃO Encontramos na tradição cristã primitiva a passagem em Excertos de Teódoto: "Somente o batismo não liberta mas sim, a gnosis, o conhecimento interior de quem somos, o que nos tornamos, onde estamos, para onde vamos. O que é nascimento, o que é renascimento".
Outra passagem bastante conhecida, desta vez da Bíblia, reflete também a tradição gnóstica: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Conhecimento ou gnosis, portanto, é o portal da liberdade. É dito no budismo que para se alcançar a sabedoria, a jnâna, torna-se necessário a purificação da mente de seus fatores mentais obscurecedores. Os budistas ensinam que para se alcançar a sabedoria ou o vazio, que é a pura percepção da clara luz da mente, temos que retirar primeiramente tudo aquilo que obscurece a mente. O entulho mental é em grande parte conseqüência de nossos condicionamentos na vida terrena, chamados pelos budistas de skhandas. Existe na literatura budista um grande número de referências sobre a purificação da mente. Estes ensinamentos foram, mas tarde codificados e aprofundados pelo grande mestre budista Asangha, que viveu no século IV de nossa era. A questão do conhecimento e da purificação da mente é tão importante para os budistas que eles desenvolveram uma linha de estudos que chamam de lojong para tratar exclusivamente do treinamento da mente. Na literatura cristã, ainda que sua natureza seja inteiramente diferente da budista, algumas referências são feitas ao treinamento da mente, principalmente nas epístolas de Paulo. Porém, a verdadeira importância da purificação da mente para o cristianismo primitivo ficou mascarada pela tradução errônea do termo grego"metanóia" no original grego da Bíblia como "arrependimento".
Por exemplo, numa das primeiras passagens dos evangelhos, João Batista é apresentado pregando: "Arrependei-vos, é chegado o tempo".Porém, no original em grego, a expressão era derivada de metanóia que tem um significado muito mais amplo do que arrependimento. Significa: modificar os conteúdos mentais para que se possa perceber a verdade; proceder a uma transformação da mente, uma transformação interior. Esse é o verdadeiro sentido de metanóia que foi traduzido na Bíblia como arrependimento. Como conseqüência dessa distorção bíblica, o cristão ortodoxo tradicional desenvolveu uma atitude de passividade face à vida espiritual, eu preciso me arrepender de meus pecados.
Mais tarde os teólogos reforçaram esta atitude com a instituição do sacramento da penitência, melhor conhecido como confissão, que previa o perdão dos pecados para aqueles que os confessassem aos prelados da Igreja. É bem verdade que nem todas as correntes do cristianismo aceitaram a instituição da confissão. Mas a corrente dominante venceu e com isto, na opinião de alguns observadores, criou-se um incentivo à hipocrisia, pois o fiel sabia que depois de pecar bastava correr para a Igreja, confessar-se e assim ter assegurada a sua 'pureza'. Podemos estar certos que este não era o objetivo de nosso sábio e compassivo Mestre. O que Mestre Jesus pregava, e que constituía o cerne dos ensinamentos do cristianismo primitivo, é a modificação interior. É somente quando nós nos transformamos interiormente que podemos alcançar aquele estado de plenitude que é o estado da salvação.
Felizmente, foi preservada na Bíblia uma frase lapidar do grande apóstolo Paulo, que parece uma citação de um tratado budista: "E não vos conformeis com esse mundo, mas transformai-vos renovando a vossa mente". Renovar a mente. É isto que Paulo e Mestre Jesus nos ensinaram.
Só duas velhinha muito doentes levantaram a mão timidamente. Por que essa incongruência entre ideal e prática? A razão dos fieis preferirem sempre postergar para o último momento a suposta ida ao céu deve-se à imagem errônea de que o céu é um lugar que só está ao alcance dos mortos.
Obviamente esta é uma concepção totalmente errônea porque o céu não é um lugar. O céu é um estado de consciência. É o estado de consciência da unidade com a fonte da vida e com todas as outras expressões desta vida. Este estado de consciência já foi atingido por milhares de místicos e iogues de diferentes tradições ao longo dos séculos. Apesar de existirem diferentes níveis para este estado de transcendência, todos eles podem ser alcançados durante a vida terrena.
Os gnósticos e os cristãos primitivos, conhecendo os 'mistérios do reino', estavam cientes de que a "salvação" era alcançada neste mundo, sendo nossas conquistas obtidas enquanto no corpo físico estendidas para os estados fora do corpo. Os budistas, porém, sempre souberam que viver num corpo físico é indispensável para se alcançar a iluminação. O corpo deve ser considerado como um veículo a ser usado para nossa jornada rumo ao Nirvana e, portanto, deve ser devidamente cuidado. Para isto o Buda recomendou a ascese, ou seja, práticas espirituais visando a purificação. Só que, não com aquele extremo rigor de virtual tortura do corpo que os antigos ascetas da tradição hindu faziam. Chegavam até enfiar pregos na mão e em outras partes do corpo, dormir como os faquires em camas de pregos e outras práticas chocantes para nossa cultura ocidental. O Buda disse que nada disso é necessário, sendo mesmo contraproducente. Devemos cuidar do corpo com esmero e atenção mas sem ir para o outro extremo. Daí Buda falar no caminho do meio. Nem a licenciosidade de uma vida de prazeres mundanos, nem tampouco um ascetismo exacerbado que prejudica o corpo. Devemos tratar o corpo como se ele fosse nosso animal de serviço. Devemos alimentá-lo bem mas não a ponto dele ficar muito gordo e não poder trabalhar direito. Por outro lado não podemos deixar de alimentá-lo o suficiente a ponto de emagrecer e não ter mais força para trabalhar. Então a alimentação e todo o cuidado do corpo deve ser efetuado com o objetivo de prestar serviço para o verdadeiro senhor do corpo que é a alma, ou o continuum mental na concepção budista. Parte da atitude de medo e rejeição da morte entre os cristãos deve-se ao mal entendimento de algumas passagens da Bíblia, como por exemplo: "Quem ama a sua vida a perde. E quem odeia a sua vida nesse mundo, guarda-la-á para a vida eterna". "Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só. Mas se morrer produzirá muito fruto". Numa primeira leitura, uma leitura literal que não nos leva muito longe no entendimento da mensagem bíblica, poderíamos pensar, "não gosto disto; está dizendo que temos que morrer, temos que cair na terra e morrer para dar fruto". Mas esta não é em absoluto a mensagem que o Salvador nos legou. A renúncia é que está sendo expressa através dessas passagens. Devemos renunciar ao mundo e não continuar a viver como se este mundo e seu prazeres fossem o objetivo último de nossa vida.
Mas a preocupação central destes dois grandes seres era com a realidade da vida humana e a libertação do sofrimento. Ambos pregavam que o ser humano deve se dedicar ao supremo bem, sempre imutável e confiável. Mestre Jesus chamava esse Bem Supremo de Deus-Pai. E Buda chamava esse bem supremo de Dharma. Vimos anteriormente que o budismo é uma religião não-teísta, mas que os ensinamentos do senhor Buda, o Dharma - que significa Lei - é um reflexo da Lei Maior.
Essa Lei Maior, a Lei que rege o universo e toda a manifestação, é uma expressão de Deus. Se meditarmos com atenção, vamos concluir que Deus sendo absolutamente transcendente, uma das poucas maneiras que podemos tentar conhecer a Deus, é conhecer as Leis que regem o nosso universo. Ainda que sem fazer referências a Deus, os mestres budistas procuram fazer exatamente isso. Agora, uma diferença. Os autores gnósticos usavam mitos cosmogônicos e cosmológicos como instrumentos para suas instruções. A cosmologia tem como objetivo apresentar o processo da criação desde o nível mais sutil, Deus transcendente, até o mais denso, o nosso mundo material, passando por todos os estágios intermediários. A razão para o uso deste método é a instrução sobre a lei dos ciclos, que rege tanto o macrocosmo (o universo) como o microcosmo (o homem). O processo de surgimento, ou emanação, oferece para o buscador da verdade as indicações do caminho de retorno à Fonte, que é o objetivo último de todos os seres. No entanto, como o budismo é uma religião não-teísta, eles não podiam servir-se de cosmogonias como os cristãos.
Todo o ensinamento dos Mestres é voltado para fazer com que Buda, ou Cristo, em nosso interior, possa manifestar-se em toda sua plenitude. Por isto o apóstolo Paulo disse: "Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1 Co 3:16), e nos urgia a desabrocharmos nossa natureza interior: "Cristo em vós, esperança de glória." (Cl 1:27). A natureza de Buda se encontra na mente de cada um. É a pura luz de Rigpa, a natureza essencial da mente. O conhecimento de nossas inúmeras fraquezas dificulta a aceitação da premissa básica de nossa natureza divina. No entanto, podemos valer-nos da imagem do lótus que tem suas raízes no lodo, portanto, na matéria, tem seu caule estendendo-se através da água, portanto, do mundo das emoções, de vibrações geralmente pesadas, mas que abre a sua flor ao sol, no mundo superior do ar, da mente, onde exala o seu perfume. O lótus também tem outra característica muito pertinente para o ser humano. Em cada semente de lótus encontra-se uma miniatura da planta adulta. Nossa vida assemelha-se ao lótus, assentada no lodo da materialidade mas almejando alcançar o alto. Como o lótus, temos também dentro de nós a semente das características divinas que vamos manifestar quando desabrocharmos e alcançarmos nossa plenitude. Na tradição cristã a imagem da semente é utilizada na parábola do grão de mostarda, a menor de todas as semente, que quando cresce torna-se a maior de todas hortaliças dando sombra e abrigo às aves do céu.
Outras semelhanças importantes são as imagens da porta e do caminho. Ambos, Cristo e Buda são descritos como a porta e o caminho. Buda mostra o caminho para a libertação. A tradição budista, porém, afirma que existem oitenta e quatro mil portas. Essas seriam as portas do dharma, constituindo o corpo Dharmakaya. Mestre Jesus, o Cristo, por sua vez disse: "Eu Sou a Porta das ovelhas", "Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim".
Vários indícios históricos me levam a crer que esse processo realmente ocorreu. Algumas fontes esotéricas indicam que um monge budista avançado teria sido enviado à Palestina nos tempos de Jesus, com a missão específica de contatar a comunidade de Qumram. Esse monge teria levado vários textos budistas para a Palestina, da forma usual naqueles tempos, ou seja, de memória.
Esse monge tornou-se um discípulo de Jesus sendo conhecido pelo nome de Tomé. É por essa razão que a tradição cristã indica que um dos discípulos de Jesus, depois da morte do Mestre, foi para a Índia onde converteu muitas pessoas e estabeleceu no sul da Índia, em Madras, uma comunidade do cristianismo primitivo. Cerca de dezesseis séculos mais tarde, quando os missionários católicos e protestantes chegaram à Índia, encontraram essa comunidade cristã firmemente constituída. Temos, então, várias teorias para explicar os paralelos identificados entre as duas tradições. Estamos certos, porém, que alguns estudiosos vão descartar todas estas teorias argumentando que, mais que teorias elas são fantasias, pois não existem provas concretas para fundamentar nenhuma delas. Mesmo neste caso poderíamos sugerir ainda outra maneira para explicar os paralelos entre as tradições budista e cristã. O argumento seria de que as semelhanças são naturais porque todas as tradições originam-se de uma única fonte. Essa é a religião-sabedoria. "Não há religião superior a verdade," reflete esta realidade milenar, pois a verdade subjaz a tudo o que é ensinado pelos grandes seres, os instrutores da humanidade. E essa verdade só pode ser uma só. Ela é apresentada com diferentes roupagens para diferentes culturas ao longo do tempo. Porém, à medida que mergulhamos na essência do ensinamento de cada religião, deixando de lado as idiossincrasias separatistas enganosas, percebemos a beleza do ensinamento que une toda a família humana. Assim, não deve ser nenhuma surpresa para nós, verificarmos que existem muito mais convergências entre budismo e cristianismo do que pontos de divergências. Para encerrar esta apresentação sintética e parcial dos paralelos entre as tradições budista e cristã, gostaria de chamar a atenção para outra convergência que está mascarada por uma aparente divergência gritante entre budismo e cristianismo.
Trata-se da aparente oposição entre prática ativa e fé passiva. Para os budistas, a prática dos ensinamentos é tão fundamental que eles gostam de chamar a si mesmos de praticantes, mais especificamente, de praticantes do dharma. Os cristãos, por sua vez, orgulham-se de ser conhecidos como crentes ou fiéis. Sua característica religiosa fundamental seria a crença em Jesus, que veio ao mundo para morrer na cruz para remir os pecados do mundo. Se observarmos a realidade da vida do cristão comum, chegamos à conclusão de que o cristianismo não dá muita importância às práticas espirituais. A transformação interior, baseada nos ensinamentos e no exemplo de vida do Mestre Jesus, não constitui o objeto central da religiosidade cristã, mas sim a atitude de crença nos dogmas e participação nos rituais externos da Igreja, como a ida a missa ou ao templo. Reiteramos, no entanto, que nossa comparação é com o cristianismo primitivo e não com o cristianismo posterior ao Concílio de Nicéia, no início do quarto século. A atitude das primeiras comunidades cristãs, mais tarde conhecidas como gnósticos, era inteiramente diferente no que diz respeito às práticas espirituais. Vale lembrar que nas primeiras décadas após a morte do Salvador, os discípulos do Mestre eram conhecidos como "seguidores de Jesus" porque procuravam emular o exemplo de vida de Jesus. Portanto, a prática espiritual estava no centro da vida daquelas comunidades, conhecidas pelo termo grego original de eklesia, ou seja, a assembléia dos praticantes. Isto pode ser confirmado por uma passagem que escapou da tesoura dos censores posteriores, numa epístola de Tiago: "Tornai-vos praticantes da Palavra", ou seja, dos ensinamentos do Mestre Jesus,"e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos."
Se tivermos a atitude passiva de ler os evangelhos do sem colocamos em prática em nossa vida diária os ensinamentos neles contidos, não iremos muito longe na vida espiritual. Uma análise mais aprofundada da Bíblia e dos Evangelhos Gnósticos revela outras passagens em que Mestre Jesus ensinava a importância da prática espiritual. Por exemplo:
"Pedi e vos será dado. Buscai e achareis. Batei à porta e ela vos será aberta".
Alguns "fieis e crentes" julgam que esta passagem é uma licença do Mestre para pedirmos, no atacado e no varejo, todas as benesses que queremos que Deus nos dê de graça. As comunidades monásticas, para não dizer os místicos e perfeitos, sempre souberam a verdade, ou seja, que a prática espiritual é a essência da verdadeira religiosidade cristã. Ora, como Deus é Espírito temos que pedir, buscar e bater à porta de uma forma espiritual. Como é que nos comunicamos com Deus? Como mostramos nosso amor a Deus? Como nos sintonizamos com Deus?
A resposta óbvia é: cumprindo a vontade de Deus, ou seja, agindo como Deus nos ensina através dos seus grandes mensageiros, e de seu filho unigenito.
E o objetivo dos ensinamentos de todo grande Mestre é sempre a mudança de vida do ser humano, da vida mundana para a vida responsável voltada para o Alto em busca da perfeição, que é a estatura da plenitude de Cristo.








