sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mestre Jesus, o Cristo e Buda



Em que eles concordam? Em que eles divergem?


As grandes tradições espirituais de nosso planeta sempre ensinaram que o mundo em que vivemos é uma ilusão, é maya como dizem os hinduístas. Com mais razão ainda, poderíamos dizer que as aparentes diferenças que saltam aos olhos entre o budismo e o cristianismo são também uma ilusão. Na verdade, estas duas grandes tradições do oriente e do ocidente têm muito mais em comum do que suas aparentes diferenças sugerem. Quando estudamos mais a fundo estas tradições verificamos que por trás de suas nomenclaturas díspares e enfoques radicalmente opostos existem mais convergências e semelhanças do que contradições. O primeiro passo, porém, em todo estudo comparativo é deixarmos bem claro o que estamos comparando. Assim, que vertentes, ou escolas destas duas tradições estamos comparando? De um lado o Budismo Mahayana, também conhecido como o Grande Veículo. Da mesma forma que Mestre Jesus, o Cristo transmitiu vários níveis de ensinamentos para diferentes grupos de pessoas, assim também o fez o senhor Buda. Estaremos comparando o Budismo Mahayana com o Cristianismo Primitivo ou Gnosticismo, que foi a continuação natural do Ministério de Jesus. O Cristianismo Primitivo recebeu um grande baque, no início do século quatro, com a transformação do cristianismo em religião oficial do Império Romano. A partir de então os objetivos temporais suplantaram os espirituais e o ensinamento original do Mestre Jesus foi perdendo sua importância relativa à medida em que a hierarquia clerical dominante foi tomando mais força do que a assembléia dos praticantes, a verdadeira igreja. A nova Igreja passou a enfatizar dogmas, credos e rituais externos, estabelecidos com o propósito de consolidar seus objetivos temporais, criando com isto toda uma série de distorções na doutrina e prática legadas por Mestre Jesus, o Cristo. O budismo, por sua vez, também não escapou incólume das influências do clero e de outros fatores externos. Com as distorções separativistas e materializantes introduzidas ao longo dos séculos na religião budista e mais ainda na cristã, uma comparação entre as versões populares destas duas religiões atuais indicaria mais diferenças do que semelhanças.
Lembramos, também que, para a Igreja, o cristianismo não pode ser comparado com o budismo ou qualquer outra religião, porque o cristianismo seria o resultado de uma revelação divina, a única revelação fiel e verdadeira. Portanto, sendo a única religião verdadeira não poderia ser comparada com qualquer outra.


DEUS E O VAZIO


Procuremos ter sempre em mente que estaremos comparando o Cristianismo Primitivo com o Budismo Mahayana. Vejamos os métodos e premissas dessas duas tradições, para que possamos levar adiante essa comparação. O cristianismo é uma religião teísta, ou seja, que se baseia na existência de um Deus. A Deidade é considerada como a criadora de todos os mundos. Por esta razão, o método utilizado no cristianismo, como em todas as religiões teístas, é um método dedutivo. Todas as concepções originam-se necessariamente da Fonte Una e todas as deduções são feitas de cima para baixo, até alcançar o mundo físico e a humanidade. O budismo, ao contrário, é uma religião não-teísta . Neste ponto poderíamos nos perguntar: mas como o budismo pode ser uma religião se não admite a existência de Deus, já que a palavra religião origina-se do termo latino "religare", que significa ligar o homem de volta à sua Fonte? A questão é complexa e procuraremos abordá-la sob diferentes ângulos nesta apresentação. Podemos adiantar, porém, que o senhor Buda, com sua imensa sabedoria, teve boas razões para estabelecer toda sua doutrina com um enfoque inteiramente diferente das religiões tradicionais. Em vez de iniciar seu sistema com uma concepção filosófica sobre a origem de toda a manifestação, ou seja, Deus, o senhor Buda usou como premissa básica a observação da realidade da vida dos homens, ou seja, a existência do sofrimento. Com base nessa constatação ele estabeleceu seus ensinamentos, indutivamente, de baixo para cima. Poderíamos nos perguntar também: se essas duas tradições são convergentes, como se explica que o objetivo último das práticas budistas é alcançar o vazio enquanto do cristianismo primitivo e do gnosticismo, era de alcançar a plenitude. Aparentemente são pólos opostos: vazio x plenitude. Vejamos porém, o que está por trás destas palavras. O budismo prega que as práticas meditativas permitem uma progressiva purificação e controle da mente, até o ponto em que o praticante alcançará a realidade última, que é a contemplação ou vivência do vazio. Se nos deixarmos levar pelo sentido literal das palavras, o vazio é a ausência de tudo. Num certo sentido, este é o significado do vazio. Os budistas explicam, porém, que vazio é a ausência de realidade inerente das coisas. Isto significa que nenhum ser ou objeto tem uma existência inerente por si só. Se nada tem existência inerente por si só, a conclusão é que a existência de qualquer ser ou objeto depende do inter-relacionamento de todas as coisas. Os gnósticos, ou cristãos primitivos diziam, por sua vez, que o objetivo último de toda prática religiosa é alcançar a plenitude. 'Pleroma', ou plenitude é o estado de consciência da totalidade, em que o gnóstico percebe que ele é uno com todos os seres, que faz parte da plenitude do todo. Portanto, a plenitude do todo e o vazio da existência inerente das unidades separadas, nos permite entender que estamos falando da mesma coisa com linguagens diferentes. As duas tradições enfocam a realidade última a partir de pólos opostos. Por trás da terminologia aparentemente contraditória as duas tradições concordam que, em sua essência, o vazio é plenitude. Uma vez esclarecido o paradoxo, podemos entender porque um grande místico cristão do século passado, Thomas Merton, sugeriu que nenhum homem é uma ilha. Ele valia-se da imagem de que a ilha é um pedaço de terra isolado. Portanto, nenhum homem é isolado em si mesmo. Todo homem faz parte do continente. E qual é a imagem do continente? No continente todos os pedaços de terra se encontram ligados e são interdependentes. Então, no continente existe a totalidade. Explica-se dessa maneira porque vazio e plenitude são, em sua natureza última, a mesma coisa.


CRISTO, KRISHNA E BUDA


Vários estudos comparativos foram feitos sobre as vidas de Gauthama e de Jesus (bem como a de Krishna e de outros). Um fato recorrente nestes estudos são os paralelos encontrados nas vidas destes salvadores da humanidade. Quando observamos atentamente esses paralelos, não podemos deixar de concluir que as inúmeras coincidências verificadas não podem ser obra do acaso. Por exemplo, na obra Isis sem Véu de H.P. Blavatsky, é dito que Gautama é filho de um rei e Jesus descende da família real de Davi. Gauthama, é uma encarnação de Vishnu e Jesus, uma encarnação do Espírito Santo. Portanto, os dois são expressões do Divino. Tanto a mãe de Gauthama, Maya, como a de Jesus, Maria, conceberam de maneira especial. Até mesmo os nomes: Maya e Maria, parecem indicar uma raiz comum que remonta a um passado tão distante que o registro humano não consegue alcançar. Alguns estudiosos, após investigarem as mais diversas tradições religiosas registradas, verificaram que existem pelo menos dezesseis tradições em que o seu salvador morre crucificado. E nessas dezesseis tradições existem quase todos os paralelos que estamos apresentando aqui. Essa é uma clara indicação de que os paralelos entre as vidas de Jesus, de Gautama e de outros salvadores da humanidade não são coincidências únicas na história. Ao contrário, todas as grandes tradições religiosas oferecem, por meio histórias estilizadas da vida de seu fundador, marcos simbólicos indicativos da Senda espiritual que deve ser trilhada pelos discípulos avançados para que possam tornar-se, eles também, salvadores da humanidade. Tanto Gautama como Jesus eram dotados do poder de realizar prodígios e efetuar curas milagrosas. A Igreja, mais tarde, durante o período mais negro de sua história na Idade Média, verificando que essas semelhanças não podiam ser negadas, deu mais uma prova de sua miopia e arrogância explicando que as semelhanças eram obra do diabo. O argumento apresentado foi que o diabo, sendo um poderoso arcanjo, tinha visto o que iria acontecer com Jesus mais tarde, e então, para confundir os fiéis, copiou com antecedência todos esses registros históricos de fenômenos excepcionais na vida destes grandes seres. Explicações diabólicas à parte, o fato, porém, é que existem inúmeros paralelos na vida destes dois grandes seres.


RASGANDO OS VÉUS DOS TEMPLOS


Gautama abole a idolatria e entra em conflito com os brâmanes que detinham o monopólio do ensinamento religioso da tradição hinduísta. Ele divulga os mistérios da unidade e do nirvana, e oferece um método prático e seguro, ao alcance de todas as castas, para se alcançar a libertação. Mestre Jesus revela-se contrário à tirania religiosa dos escribas, fariseus e da sinagoga, e revela os mistérios do reino de Deus. As convergências são cada vez mais gritantes. E, finalmente, após a morte, Buda sobe ao Nirvana e Jesus é elevado ao Céu. Vejamos agora, sob outro prisma, os diferentes níveis de ensinamento. As duas tradições reconhecem três níveis de realização. No nível mais elevado estão aqueles que eram chamados eleitos, ainda que sem um sentido elitista de exclusão. Entre os gnósticos, eles eram conhecidos como pneumáticos, que significa espirituais e, entre os budistas, como árias, ou sejam, os seres sagrados, os seres elevados ou avançados. O grupo seguinte, os intermediários, eram conhecidos entre os gnósticos como os psíquicos ou religiosos e entre os budistas como os aniatas. E, finalmente, o grupo dos homens comuns, os muitos, na linguagem de Jesus, eram chamados pelos gnósticos, de ílicos ou materiais, e entre os budistas, as pessoas tolas, denominação apropriada, pois aqueles que só estão voltados para os prazeres da vida material imediata, sem nenhum interesse pelo objetivo último da vida, são, certamente, pessoas tolas. Assim, o ensinamento dos grandes mestres foi estruturado para atender as necessidades desses três grupos de pessoas. Para o povo em geral, para aqueles que estão voltados exclusivamente para a vida neste mundo, a ênfase eram os ensinamentos sobre a ética e a vida diária. Para os homens intermediários, que os gnósticos chamavam de religiosos, eram ensinamentos mais abrangentes sobre a vida e a prática espiritual, sendo esses ensinamentos encontrados nos sutras budistas e nas escrituras cristãs. E é interessante lembrar que esse grupo intermediário, tanto para os budistas como para os cristãos primitivos, eram aqueles que nesta vida, em função de suas decisões, determinações e postura de vida poderiam cair no grupo dos muitos, os materialistas, ou então, elevarem-se e entrar no grupo dos eleitos, daqueles que poderiam vir a ser salvos ou libertos. E, finalmente, para o grupo dos assim chamados espirituais, os poucos, as duas tradições oferecem ensinamentos sobre o caminho acelerado. O caminho acelerado, com suas naturais exigências de purificação e dedicação, só está aberto a muito poucos. Por exemplo, nos mosteiros budistas, dentre os monges que terminam seu período de formação, cuja extensão depende da escola, são muito poucos aqueles que são convidados a seguir adiante com os estudos e práticas, agora não mais dos sutras, mas dos tantras, no caminho acelerado budista. E, no caso dos gnósticos, as práticas avançadas incluíam os sacramentos. Esses sacramentos originais ministrados por Jesus e mais tarde por seus discípulos eram cinco e não os sete sacramentos atuais da Igreja. Os sacramentos originais eram realmente transformadores, pois equivaliam a iniciações.


ÉTICAS CRISTÃ E BUDISTA


Vejamos agora os ensinamentos voltados para o homem comum nas duas tradições. Eles tratavam principalmente de questões relacionadas com a ética. Aqui também vemos grandes convergências, grandes paralelos entre as duas tradições. É interessante notar que a maior parte dos ensinamentos do Mestre Jesus sobre a ética, foram coletados na parte do Evangelho que veio a ser chamada de Sermão da Montanha. É possível e até mesmo provável que aqueles ensinamentos tenham sido ministrados em diferentes ocasiões sendo mais tarde apresentados de forma orgânica naquele maravilhoso texto. Um fato curioso é que alguns estudiosos, tendo levado a Bíblia para uma comunidade budista, resolveram testar os mestres dessa comunidade. Leram, então, o Sermão da Montanha, sem dizer a fonte, indicando somente que era o ensinamento de um grande mestre. Os monges budistas, após ouvirem com atenção os três capítulos de Mateus (5, 6 e 7) que compõem a versão mais extensa do Sermão da Montanha, concluíram que o autor era um mestre budista, desconhecido deles, mas certamente um budista. Existe, portanto, uma total afinidade dos budistas para com a ética como foi apresentada no Sermão da Montanha. Entre os budistas, os ensinamentos sobre ética encontram-se em diferentes escrituras, mas talvez no Dhamapada encontra-se a coletânea mais sintética desses ensinamentos. A questão da ética, sendo básica para todas as religiões, é uma das que oferece um dos maiores escopos para explorarmos os paralelos entre as duas tradições. Só este tema seria suficiente para um artigo ou mesmo um livro, sem contudo esgotar o assunto. Existem quatro passagens do Sermão da Montanha que tratam de homicídio, adultério, falso testemunho e retribuição. Essas passagens correspondem aos preceitos do Buda de não matar, não se apropriar do que não lhe pertença, não ter relações sexuais indevidas, não dizer mentiras e não usar álcool ou drogas. Como parte de seus ensinamentos sobre a ética, tanto Buda como Jesus, alertaram para o fato de que viriam outros mensageiros com falsos ensinamentos. Por isso, Mestre Jesus disse:
"Guardai-vos dos falsos profetas que vêm a vós vestidos como ovelhas, mas que por dentro são lobos vorazes."
Existem, portanto, aqueles, na tradição cristã que se dizem mestres, instrutores ou gurus. Mas, quando examinamos com atenção suas ações, vemos que são pessoas egoístas, voltadas para si, fazendo um grande esforço para arrebanhar um grupo de seguidores que venha bancar suas pretensões. Esses são os falsos profetas. Buda também fez uma alusão, não aos falsos profetas mas aos falsos ascetas. Aqueles que se entregam a práticas ascéticas para purificação, mas que, na verdade, estão movidos pelo orgulho de se apresentar como mais desprendido e mais santo que os outros. Esses dizem em seu íntimo: "não só sou um renunciante mas sou mais renunciante que os outros." Obviamente esta é uma atitude de orgulho que não reflete o verdadeiro sentido da espiritualidade. E Buda, com sua linguagem incisiva diz: "Por que esse cabelo trançado?" Porque eles trançavam de tal maneira a causar dor ao couro cabeludo. Por que essa roupa de pele de animal?" Com isso o Senhor Buda procurava nos alertar que não é preciso sinais exteriores de ascetismo porque todo o ascetismo é voltado para a purificação. E a purificação que conta não é a purificação do corpo. É a purificação da mente. Os ensinamentos sobre a ética são dirigidos a todas as pessoas. Ambas tradições dão muita atenção ao amor e à compaixão, ensinando que a compaixão é a pedra fundamental para a vida superior. Apesar desses ensinamentos serem mencionados nos textos básicos das duas tradições, sabemos que a verdadeira compaixão é um ideal elevado que normalmente só é alcançado por discípulos mais avançados. São realmente esses discípulos, aqueles que se voltaram inteiramente para a vida espiritual, que têm sua vida e conduta caracterizadas pelo amor puro. Num patamar ainda mais elevado estão os grandes Mestres, como Gautama e Jesus. Ambos foram impelidos a estabelecer seus ministérios redentores pela Divina Compaixão. Renunciaram a tudo e devotaram sua vida totalmente a ajudar a combalida família humana. Vale lembrar que agiram com divina sabedoria para alcançar os objetivos da divina compaixão. Estando em perfeita sintonia com o Plano Divino procuraram ensinar os homens a tornarem-se responsáveis por si mesmos. Como o fundamento da vida humana é o livre arbítrio, a salvação não pode ser forçada aos homens. Ela só pode ser indicada. Cada ser humano terá que trilhar cada passo, de livre e espontânea vontade, a longa Senda que leva à libertação. A grande contribuição de nossos salvadores foi a revelação do Caminho, por meio de ensinamentos e de seu exemplo. Portanto, a missão dos grandes Mestres, os Salvadores da humanidade, é colocar à nossa disposição os instrumentos para nossa libertação, na forma de ensinamentos capazes de promover nossa progressiva transformação interior. Com o tempo, essa transformação, equivalente à purificação de nossos veículos inferiores, cria as condições necessárias para alcançarmos finalmente a iluminação, ou seja, o portal para a libertação ou salvação.


AMOR E COMPAIXÃO


Vale a pena lembrar que, para os budistas da tradição mahayana, o voto de bodhichitta constitui o ponto de partida de sua tradição. Esse voto nem sempre é bem entendido pelos não-budistas. Fundamenta-se na compaixão, ou seja, na profunda convicção de que todos os membros da família humana são prisioneiros deste mundo. Encontramos também na Bíblia indicações de que Mestre Jesus era movido pela mesma motivação compassiva. Talvez esta motivação esteja refletida mais claramente na passagem ao final de seu ministério ao retornar dos mortos para terminar a preparação de seus discípulos. Nos últimos momentos de sua vida na Terra, antes de ascender ao Céu, Mestre Jesus demonstrou a mesma atitude de compaixão dos lamas budistas avançados, numa expressão equivalente ao voto de bodhichitta dizendo:
"Eis que estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos!"
Com isto Mestre Jesus estava prometendo que, apesar de ter sido alçado a um plano diametralmente oposto das vibrações pesadas da Terra, não iria se afastar da família humana com todas suas misérias e sofrimentos, até que todos tivessem sido salvos, que é o significado da expressão "até a consumação dos séculos, ou até o fim dos tempos", como é apresentada em outras versões da Bíblia. Vejamos agora paralelos entre gnosis e sabedoria. As duas tradições insistem que a salvação só ocorre através da gnosis, como era chamada entre os gnósticos, ou da sabedoria, jnana como é referida pelos budistas. O primeiro passo nessa comparação deve ser o entendimento dos conceitos expressos nas duas tradições. Gnosis é uma palavra grega que significa conhecimento. Isto não significa que decorando uma enciclopédia, ou mesmo todos os livros de uma biblioteca, estaríamos adquirindo o "conhecimento" libertador. A gnosis tão desejada pelos cristãos primitivos era um conhecimento interior. Não um conhecimento intelectivo dependente da mente concreta e da memória, mas sim de condições muito especiais, tais como a meditação profunda ou mesmo certos rituais que propiciavam a expansão de consciência e a apreensão direta da verdade. Em suma, a gnosis poderia ser considerada como uma revelação interior. Quando Mestre Jesus, o Cristo dizia:
"Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará"
Ele estava certamente referindo-se à gnosis.


A VERDADE E A LIBERTAÇÃO


Mas que verdade ou conhecimento é este? Os místicos e sábios de todas as tradições são unânimes em afirmar que a verdade salvadora é o conhecimento interior, ou melhor dito, a vivência interior, de que o homem e Deus são um e o mesmo Ser. A unidade da vida, uma vez experimentada no interior da alma e fixada na consciência do homem, produz uma transformação radical no ser humano. A partir de então ele "sabe" por experiência própria que é imortal e, percebendo a si mesmo como um aspecto inalienável da grandeza infinita de Deus sabe, conseqüentemente, que está salvo. A essência dos argumentos acima são válidos também para os budistas. O papel central da sabedoria nos ensinamentos de Buda está particularmente explicitado nas paramitas, ou virtudes. Das seis virtudes a última é Jnâna, traduzida normalmente como sabedoria, mas que também significa gnosis, o conhecimento interior.
A sabedoria, de acordo com os budista, não é erudição. Não significa conhecer todas as escrituras budistas e poder declamá-las de cor. Sabemos que na época do senhor Buda eram poucos os que sabiam ler e escrever. E eram pouquíssimos os documentos existentes com as escrituras. Então os discípulos, muitas vezes referidos como ouvintes, aprendiam os ensinamentos ouvindo e guardando-os na memória. Este processo de aprendizado era facilitado pelo fato de não terem a mente atulhada de lixo, como temos em nossa civilização atual, bombardeada com todo tipo de informação da televisão, jornais, revistas e agora da internet. Os discípulos de então ouviam os ensinamentos e os gravavam na mente. Eles carregavam sua biblioteca na cabeça. Apesar dos budistas prezarem o conhecimento de suas escrituras, deixam claro que esta erudição não é sabedoria, mas sim um instrumento facilitador para alcançá-la. A sabedoria, a última das virtudes é a percepção do vazio de todas as coisas, a natureza essencial da mente, o substrato de toda a manifestação. Porém, como vimos anteriormente, o vazio ou ausência da natureza inerente equivale à unidade de todas as coisas. Portanto, a sabedoria para os budistas é o mesmo que gnosis para os cristãos primitivos. Outro ponto de convergência das duas tradições é a importância da "Lei". O Dharma, ou lei é a fundamentação do budismo. Eles são conhecidos como os praticantes da lei. Mas o que é a lei para os budistas? E o que é esta grande Lei? É a Lei Divina. É a Lei que rege toda a manifestação. Em virtude do princípio hermético das correspondências (aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo, o que está dentro é semelhante ao que está fora, o pequeno é semelhante ao grande), a grande Lei Universal está refletida na lei que é transmitida aos seres humanos em suas escrituras sagradas, na tradição judaico-cristã a Torá e na tradição budista o Dharma. A LEI E A PURIFICAÇÃO Encontramos na tradição cristã primitiva a passagem em Excertos de Teódoto: "Somente o batismo não liberta mas sim, a gnosis, o conhecimento interior de quem somos, o que nos tornamos, onde estamos, para onde vamos. O que é nascimento, o que é renascimento".
Outra passagem bastante conhecida, desta vez da Bíblia, reflete também a tradição gnóstica: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Conhecimento ou gnosis, portanto, é o portal da liberdade. É dito no budismo que para se alcançar a sabedoria, a jnâna, torna-se necessário a purificação da mente de seus fatores mentais obscurecedores. Os budistas ensinam que para se alcançar a sabedoria ou o vazio, que é a pura percepção da clara luz da mente, temos que retirar primeiramente tudo aquilo que obscurece a mente. O entulho mental é em grande parte conseqüência de nossos condicionamentos na vida terrena, chamados pelos budistas de skhandas. Existe na literatura budista um grande número de referências sobre a purificação da mente. Estes ensinamentos foram, mas tarde codificados e aprofundados pelo grande mestre budista Asangha, que viveu no século IV de nossa era. A questão do conhecimento e da purificação da mente é tão importante para os budistas que eles desenvolveram uma linha de estudos que chamam de lojong para tratar exclusivamente do treinamento da mente. Na literatura cristã, ainda que sua natureza seja inteiramente diferente da budista, algumas referências são feitas ao treinamento da mente, principalmente nas epístolas de Paulo. Porém, a verdadeira importância da purificação da mente para o cristianismo primitivo ficou mascarada pela tradução errônea do termo grego"metanóia" no original grego da Bíblia como "arrependimento".
Por exemplo, numa das primeiras passagens dos evangelhos, João Batista é apresentado pregando: "Arrependei-vos, é chegado o tempo".Porém, no original em grego, a expressão era derivada de metanóia que tem um significado muito mais amplo do que arrependimento. Significa: modificar os conteúdos mentais para que se possa perceber a verdade; proceder a uma transformação da mente, uma transformação interior. Esse é o verdadeiro sentido de metanóia que foi traduzido na Bíblia como arrependimento. Como conseqüência dessa distorção bíblica, o cristão ortodoxo tradicional desenvolveu uma atitude de passividade face à vida espiritual, eu preciso me arrepender de meus pecados.
Mais tarde os teólogos reforçaram esta atitude com a instituição do sacramento da penitência, melhor conhecido como confissão, que previa o perdão dos pecados para aqueles que os confessassem aos prelados da Igreja. É bem verdade que nem todas as correntes do cristianismo aceitaram a instituição da confissão. Mas a corrente dominante venceu e com isto, na opinião de alguns observadores, criou-se um incentivo à hipocrisia, pois o fiel sabia que depois de pecar bastava correr para a Igreja, confessar-se e assim ter assegurada a sua 'pureza'. Podemos estar certos que este não era o objetivo de nosso sábio e compassivo Mestre. O que Mestre Jesus pregava, e que constituía o cerne dos ensinamentos do cristianismo primitivo, é a modificação interior. É somente quando nós nos transformamos interiormente que podemos alcançar aquele estado de plenitude que é o estado da salvação.
Felizmente, foi preservada na Bíblia uma frase lapidar do grande apóstolo Paulo, que parece uma citação de um tratado budista: "E não vos conformeis com esse mundo, mas transformai-vos renovando a vossa mente". Renovar a mente. É isto que Paulo e Mestre Jesus nos ensinaram.


VIDA E MORTE


Outro ponto de aparente desencontro, mas de convergência em sua essência, é a questão da vida e da morte nas duas tradições. É necessário viver ou morrer para alcançar a meta, o céu ou nirvana? Para os cristãos ortodoxos de diferentes denominações, o conceito dominante é que só podemos alcançar o céu depois da morte. Por isso muitos padres e pastores gostam de contar uma historia que em suas linhas gerais seria: um ministro de Deus estava pregando na igreja, ou no templo, e aí voltou-se para sua congregação: "Nós todos amamos Jesus, não amamos? - Amamos! Responderam em uníssono.- Então, quem quer ir para o céu? Eu! Eu! Todos levantaram a mão. E quem é que quer ir para o céu, agora? " Constrangimento total.”
Só duas velhinha muito doentes levantaram a mão timidamente. Por que essa incongruência entre ideal e prática? A razão dos fieis preferirem sempre postergar para o último momento a suposta ida ao céu deve-se à imagem errônea de que o céu é um lugar que só está ao alcance dos mortos.
Obviamente esta é uma concepção totalmente errônea porque o céu não é um lugar. O céu é um estado de consciência. É o estado de consciência da unidade com a fonte da vida e com todas as outras expressões desta vida. Este estado de consciência já foi atingido por milhares de místicos e iogues de diferentes tradições ao longo dos séculos. Apesar de existirem diferentes níveis para este estado de transcendência, todos eles podem ser alcançados durante a vida terrena.
Os gnósticos e os cristãos primitivos, conhecendo os 'mistérios do reino', estavam cientes de que a "salvação" era alcançada neste mundo, sendo nossas conquistas obtidas enquanto no corpo físico estendidas para os estados fora do corpo. Os budistas, porém, sempre souberam que viver num corpo físico é indispensável para se alcançar a iluminação. O corpo deve ser considerado como um veículo a ser usado para nossa jornada rumo ao Nirvana e, portanto, deve ser devidamente cuidado. Para isto o Buda recomendou a ascese, ou seja, práticas espirituais visando a purificação. Só que, não com aquele extremo rigor de virtual tortura do corpo que os antigos ascetas da tradição hindu faziam. Chegavam até enfiar pregos na mão e em outras partes do corpo, dormir como os faquires em camas de pregos e outras práticas chocantes para nossa cultura ocidental. O Buda disse que nada disso é necessário, sendo mesmo contraproducente. Devemos cuidar do corpo com esmero e atenção mas sem ir para o outro extremo. Daí Buda falar no caminho do meio. Nem a licenciosidade de uma vida de prazeres mundanos, nem tampouco um ascetismo exacerbado que prejudica o corpo. Devemos tratar o corpo como se ele fosse nosso animal de serviço. Devemos alimentá-lo bem mas não a ponto dele ficar muito gordo e não poder trabalhar direito. Por outro lado não podemos deixar de alimentá-lo o suficiente a ponto de emagrecer e não ter mais força para trabalhar. Então a alimentação e todo o cuidado do corpo deve ser efetuado com o objetivo de prestar serviço para o verdadeiro senhor do corpo que é a alma, ou o continuum mental na concepção budista. Parte da atitude de medo e rejeição da morte entre os cristãos deve-se ao mal entendimento de algumas passagens da Bíblia, como por exemplo: "Quem ama a sua vida a perde. E quem odeia a sua vida nesse mundo, guarda-la-á para a vida eterna". "Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só. Mas se morrer produzirá muito fruto". Numa primeira leitura, uma leitura literal que não nos leva muito longe no entendimento da mensagem bíblica, poderíamos pensar, "não gosto disto; está dizendo que temos que morrer, temos que cair na terra e morrer para dar fruto". Mas esta não é em absoluto a mensagem que o Salvador nos legou. A renúncia é que está sendo expressa através dessas passagens. Devemos renunciar ao mundo e não continuar a viver como se este mundo e seu prazeres fossem o objetivo último de nossa vida.


JESUS, BUDA E OS DOGMAS


Outra área de semelhanças entre as duas tradições é a organização e atuação das Ordens Monásticas. Os monges budistas e os discípulos de Jesus foram instruídos para atuar como pregadores itinerantes, mendicantes, vivendo para servir os outros, aceitando o que lhes era oferecido. Mestre Jesus inclusive disse para os seus discípulos que eles deveriam visitar todos os lugares para pregar o evangelho. Lembremos que 'evangelho' significa "Boa Nova". Assim, deviam pregar a Boa Nova sem levar dinheiro, roupas e provisões. A razão para isto é que eles deviam se integrar nas comunidades onde fossem pregar e aceitar o óbulo ou hospitalidade que lhes fosse oferecido. Com o passar dos séculos o rigor destas regras foi sendo diminuído. Atualmente, a Ordem dos Franciscanos e dos Trapistas, são as que mais se aproximam das ordens budistas. É curioso observar que nas ordens budistas e nas cristãs os monges devem fazer três votos: de pobreza, castidade e obediência. Só que entre os cristãos, o voto de obediência era para com o chefe da Ordem. Entre os budistas, no entanto, o voto é sempre voltado para o Dharma, isto é, obediência aos ensinamentos do Mestre. Os monges budistas, como seus irmãos cristãos, comprometem-se a divulgar a doutrina libertadora. Porém, eles são extremamente respeitosos para com as pessoas. Ao contrário de seus irmãos cristãos, não tentam converter os outros contra sua vontade. Na verdade, é uma prática budista que quando um monge chega num determinado lugar, ele só fará uma pregação sobre um determinado assunto se for solicitado. O papel da teologia é outra área de paralelos. Tanto Buda quanto Mestre Jesus não estavam preocupados com teologia e dogmas, ao contrário do que parece ser a preocupação daqueles que se dizem herdeiros dessas duas tradições.
Mas a preocupação central destes dois grandes seres era com a realidade da vida humana e a libertação do sofrimento. Ambos pregavam que o ser humano deve se dedicar ao supremo bem, sempre imutável e confiável. Mestre Jesus chamava esse Bem Supremo de Deus-Pai. E Buda chamava esse bem supremo de Dharma. Vimos anteriormente que o budismo é uma religião não-teísta, mas que os ensinamentos do senhor Buda, o Dharma - que significa Lei - é um reflexo da Lei Maior.
Essa Lei Maior, a Lei que rege o universo e toda a manifestação, é uma expressão de Deus. Se meditarmos com atenção, vamos concluir que Deus sendo absolutamente transcendente, uma das poucas maneiras que podemos tentar conhecer a Deus, é conhecer as Leis que regem o nosso universo. Ainda que sem fazer referências a Deus, os mestres budistas procuram fazer exatamente isso. Agora, uma diferença. Os autores gnósticos usavam mitos cosmogônicos e cosmológicos como instrumentos para suas instruções. A cosmologia tem como objetivo apresentar o processo da criação desde o nível mais sutil, Deus transcendente, até o mais denso, o nosso mundo material, passando por todos os estágios intermediários. A razão para o uso deste método é a instrução sobre a lei dos ciclos, que rege tanto o macrocosmo (o universo) como o microcosmo (o homem). O processo de surgimento, ou emanação, oferece para o buscador da verdade as indicações do caminho de retorno à Fonte, que é o objetivo último de todos os seres. No entanto, como o budismo é uma religião não-teísta, eles não podiam servir-se de cosmogonias como os cristãos.


A NATUREZA LUMINOSA


A natureza do homem é outro paralelo. Tanto os budistas como os cristãos verdadeiros dizem que somos todos Budas, somos todos Cristos. Só que ainda não nos tornamos conscientes de nossa realidade última e, por isso, ainda não alcançamos o estágio da perfeição, a estatura da plenitude do Cristo em nós. Ainda somos Budas, ou Cristos, em estado de semente. Cristo, ou Buda, encontra-se em nosso interior em forma latente.
Todo o ensinamento dos Mestres é voltado para fazer com que Buda, ou Cristo, em nosso interior, possa manifestar-se em toda sua plenitude. Por isto o apóstolo Paulo disse: "Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" (1 Co 3:16), e nos urgia a desabrocharmos nossa natureza interior: "Cristo em vós, esperança de glória." (Cl 1:27). A natureza de Buda se encontra na mente de cada um. É a pura luz de Rigpa, a natureza essencial da mente. O conhecimento de nossas inúmeras fraquezas dificulta a aceitação da premissa básica de nossa natureza divina. No entanto, podemos valer-nos da imagem do lótus que tem suas raízes no lodo, portanto, na matéria, tem seu caule estendendo-se através da água, portanto, do mundo das emoções, de vibrações geralmente pesadas, mas que abre a sua flor ao sol, no mundo superior do ar, da mente, onde exala o seu perfume. O lótus também tem outra característica muito pertinente para o ser humano. Em cada semente de lótus encontra-se uma miniatura da planta adulta. Nossa vida assemelha-se ao lótus, assentada no lodo da materialidade mas almejando alcançar o alto. Como o lótus, temos também dentro de nós a semente das características divinas que vamos manifestar quando desabrocharmos e alcançarmos nossa plenitude. Na tradição cristã a imagem da semente é utilizada na parábola do grão de mostarda, a menor de todas as semente, que quando cresce torna-se a maior de todas hortaliças dando sombra e abrigo às aves do céu.
Outras semelhanças importantes são as imagens da porta e do caminho. Ambos, Cristo e Buda são descritos como a porta e o caminho. Buda mostra o caminho para a libertação. A tradição budista, porém, afirma que existem oitenta e quatro mil portas. Essas seriam as portas do dharma, constituindo o corpo Dharmakaya. Mestre Jesus, o Cristo, por sua vez disse: "Eu Sou a Porta das ovelhas", "Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim".


BUDISMO NA JUDÉIA?


Como explicar tanta semelhança entre as duas tradições? Existem várias teorias para isso. Uma é que Mestre Jesus teria vivido na Índia dos doze aos trinta anos, onde teria recebido instruções budistas. Pessoalmente não creio que Mestre Jesus tenha vivido na Índia. Quem teria vivido na Índia no século I dC. foi Mestre Apolônio de Tiana e as estreitas semelhanças entre estes dois personagens históricos têm induzido muitos estudiosos a erro. Por isto muitos acreditam que Mestre Jesus viveu na Índia e, tendo recebido ensinamentos budistas, esta seria a explicação para os paralelos entre as duas tradições. Uma outra é que os monges budistas enviados pelo rei Ashoka a várias comunidades do Oriente Médio, tiveram contato com as comunidades essênias para as quais transmitiram o dharma. Mais tarde, Jesus e seus discípulos teriam aprendido a essência dos ensinamentos budistas na comunidade essênia de Qumram.
Vários indícios históricos me levam a crer que esse processo realmente ocorreu. Algumas fontes esotéricas indicam que um monge budista avançado teria sido enviado à Palestina nos tempos de Jesus, com a missão específica de contatar a comunidade de Qumram. Esse monge teria levado vários textos budistas para a Palestina, da forma usual naqueles tempos, ou seja, de memória.
Esse monge tornou-se um discípulo de Jesus sendo conhecido pelo nome de Tomé. É por essa razão que a tradição cristã indica que um dos discípulos de Jesus, depois da morte do Mestre, foi para a Índia onde converteu muitas pessoas e estabeleceu no sul da Índia, em Madras, uma comunidade do cristianismo primitivo. Cerca de dezesseis séculos mais tarde, quando os missionários católicos e protestantes chegaram à Índia, encontraram essa comunidade cristã firmemente constituída. Temos, então, várias teorias para explicar os paralelos identificados entre as duas tradições. Estamos certos, porém, que alguns estudiosos vão descartar todas estas teorias argumentando que, mais que teorias elas são fantasias, pois não existem provas concretas para fundamentar nenhuma delas. Mesmo neste caso poderíamos sugerir ainda outra maneira para explicar os paralelos entre as tradições budista e cristã. O argumento seria de que as semelhanças são naturais porque todas as tradições originam-se de uma única fonte. Essa é a religião-sabedoria. "Não há religião superior a verdade," reflete esta realidade milenar, pois a verdade subjaz a tudo o que é ensinado pelos grandes seres, os instrutores da humanidade. E essa verdade só pode ser uma só. Ela é apresentada com diferentes roupagens para diferentes culturas ao longo do tempo. Porém, à medida que mergulhamos na essência do ensinamento de cada religião, deixando de lado as idiossincrasias separatistas enganosas, percebemos a beleza do ensinamento que une toda a família humana. Assim, não deve ser nenhuma surpresa para nós, verificarmos que existem muito mais convergências entre budismo e cristianismo do que pontos de divergências. Para encerrar esta apresentação sintética e parcial dos paralelos entre as tradições budista e cristã, gostaria de chamar a atenção para outra convergência que está mascarada por uma aparente divergência gritante entre budismo e cristianismo.
Trata-se da aparente oposição entre prática ativa e fé passiva. Para os budistas, a prática dos ensinamentos é tão fundamental que eles gostam de chamar a si mesmos de praticantes, mais especificamente, de praticantes do dharma. Os cristãos, por sua vez, orgulham-se de ser conhecidos como crentes ou fiéis. Sua característica religiosa fundamental seria a crença em Jesus, que veio ao mundo para morrer na cruz para remir os pecados do mundo. Se observarmos a realidade da vida do cristão comum, chegamos à conclusão de que o cristianismo não dá muita importância às práticas espirituais. A transformação interior, baseada nos ensinamentos e no exemplo de vida do Mestre Jesus, não constitui o objeto central da religiosidade cristã, mas sim a atitude de crença nos dogmas e participação nos rituais externos da Igreja, como a ida a missa ou ao templo. Reiteramos, no entanto, que nossa comparação é com o cristianismo primitivo e não com o cristianismo posterior ao Concílio de Nicéia, no início do quarto século. A atitude das primeiras comunidades cristãs, mais tarde conhecidas como gnósticos, era inteiramente diferente no que diz respeito às práticas espirituais. Vale lembrar que nas primeiras décadas após a morte do Salvador, os discípulos do Mestre eram conhecidos como "seguidores de Jesus" porque procuravam emular o exemplo de vida de Jesus. Portanto, a prática espiritual estava no centro da vida daquelas comunidades, conhecidas pelo termo grego original de eklesia, ou seja, a assembléia dos praticantes. Isto pode ser confirmado por uma passagem que escapou da tesoura dos censores posteriores, numa epístola de Tiago: "Tornai-vos praticantes da Palavra", ou seja, dos ensinamentos do Mestre Jesus,"e não simples ouvintes, enganando-vos a vós mesmos."
Se tivermos a atitude passiva de ler os evangelhos do sem colocamos em prática em nossa vida diária os ensinamentos neles contidos, não iremos muito longe na vida espiritual. Uma análise mais aprofundada da Bíblia e dos Evangelhos Gnósticos revela outras passagens em que Mestre Jesus ensinava a importância da prática espiritual. Por exemplo:
"Pedi e vos será dado. Buscai e achareis. Batei à porta e ela vos será aberta".
Alguns "fieis e crentes" julgam que esta passagem é uma licença do Mestre para pedirmos, no atacado e no varejo, todas as benesses que queremos que Deus nos dê de graça. As comunidades monásticas, para não dizer os místicos e perfeitos, sempre souberam a verdade, ou seja, que a prática espiritual é a essência da verdadeira religiosidade cristã. Ora, como Deus é Espírito temos que pedir, buscar e bater à porta de uma forma espiritual. Como é que nos comunicamos com Deus? Como mostramos nosso amor a Deus? Como nos sintonizamos com Deus?
A resposta óbvia é: cumprindo a vontade de Deus, ou seja, agindo como Deus nos ensina através dos seus grandes mensageiros, e de seu filho unigenito.
E o objetivo dos ensinamentos de todo grande Mestre é sempre a mudança de vida do ser humano, da vida mundana para a vida responsável voltada para o Alto em busca da perfeição, que é a estatura da plenitude de Cristo.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Realização no Amor



A vida, enraizada no Espírito, é eterna em si mesma. Na matéria, contudo, depende da colaboração dos amantes, a fim de criar formas que abrigam as consciências em evolução.
O amor não é eterno enquanto dura, mas dura enquanto é terno”, fazendo alusão a um dos mais decantados sonetos de Vinícius de Morais. Pela ânsia de união dos que se amam, a natureza realiza os seus fins, mas quase nunca o dos amantes. Provadas as primícias de suas relações, hoje cada vez mais cedo, os corações ainda embalados nas descobertas da puberdade, o que lhes fica depois? O mesmo de antes, ou seja, a sensação de “incompletude” e a necessidade de continuar buscando o “pedaço que lhes falta”.

Por que o sexo não preenche isso? Ou melhor, por que preenche apenas no exato instante em que os corpos se encontram na sensação orgástica, considerada o maior prazer humano?
O sexo não preenche porque nas relações centradas no prazer, sem dúvida em maioria o que se toca não são as nossas almas, mas apenas o físico. E aí o que predomina é a natureza da matéria, cuja “especialidade” é justamente “separar”, dando inclusive invólucro ao Espírito Individual, nossa própria consciência, quando esta emana do Absoluto.

Ora, sendo da natureza da matéria mais separar do que unir, ela será sempre um obstáculo à união ansiada pelos amantes. A frenética busca sexual, em lugar de uni-los, ainda mais os separa.

O que eles sonham é uma “união eterna”, mas a que praticam é baseada na posse, que pressupõe sujeito e objeto, possuído e possuidor, ou seja, coisas eternamente separadas em si mesmas.

Em nosso ponto de vista, o processo da compreensão é uma resposta para o enigma.
Em geral, tomamos a “compreensão” por “entendimento”. Porém, enquanto este é algo intelectual, a compreensão é abarcante. Envolvendo forças ligadas ao coração de fundo intuitivo ela traz para dentro do Ser o próprio objeto da compreensão, tornando o “dois” em “um” e possibilitando a efetiva realização dos atos de amor, como espelhado na vida dos Santos Seres.

Na presença do desejo, a mesma força que aproxima os amantes também os separa, pois só podem desejar algo externo a si mesmos. O que pode vir em seu socorro? Afinidade, a vibração atrativa da matéria. Quando a relação dos amantes se baseia em elevada afinidade emocional e mental, apóiam-se desinteressadamente em seus fins. Então, os desgastes entre eles são mínimos, manifestando-se o respeito, a compreensão e a própria ternura.
Se, ademais, tiverem eles objetivos espirituais comuns, determinando-se a eliminar as exigências separatistas do “eu” material, dentro e fora da relação, esta há de ser aos poucos mais profícua e mais bela, pelo sentimento de unidade que nos liga a todos os seres.

Posse aí é uma heresia, pois o espírito tem a natureza de irradiar ao invés de concentrar, de doar ao invés de reter. Só então será possível a eterna união buscada pelos amantes. Mas que união? Onde estará o “outro”, “o meu amado”, “a minha amada”? Ocorrerá então estranha fatalidade, evocando de longe o filme “Áquila”. Nele, os amantes - por força de magia - estavam condenados a todo dia se transformar, a mulher virando águia no nascer do sol, e o homem lobo no escurecer, assim jamais se encontrando. Destino bem melhor que esse, garantem os Mestres, nos é reservado pelo Eterno.

Ao finalmente chegarmos, pela compreensão e desapego, à união tão buscada, esse anseio já estará, no entanto, ligado ao infinito. O “outro” e a idéia de separatividade não mais existirão, diluídos na extraordinária felicidade, sem dor e sem dependência do amor a tudo e a todos. Tal é a promessa de delícias do verdadeiro amor (algo talvez muito longe de nossas atuais expectativas).

Tenha sempre bons pensamentos, porque os seus pensamentos se transformam em suas palavras. Tenha boas palavras,porque as suas palavras se transformam em suas ações. Tenha boas ações porque as suas ações se transformam em seus hábitos. Tenha bons hábitos porque os seus hábitos se transformam em seus valores. Tenha bons valores porque os seus valores se transformam no seu próprio destino."

segunda-feira, 27 de julho de 2009




NOSCE TE IPSUM - γνῶθι σεαυτόν


O pensar correto não é para ser descoberto através dos livros, através do assistir a umas poucas palestras, ou por escutar meramente algumas idéias de pessoas sobre o que é o pensar correto. O pensar correto é para ser descoberto por nós mesmos através de nós mesmos. O pensar correto vem com o autoconhecimento. Sem autoconhecimento não existe pensar correto.
Sem conhecer-se a si mesmo, o que você pensa e o que sente não pode ser verdadeiro. A raiz de todo entendimento encontra-se no entendimento de si mesmo. Se você pode descobrir quais são as causas de seu pensamento-sentimento, e a partir desta descoberta, saber como pensar-sentir, então existe o começo do entendimento. Sem conhecer-se a si mesmo, a acumulação de idéias, a aceitação de crenças e teorias não têm base.
Sem conhecer-se a si mesmo, você sempre será pego na incerteza, dependendo do humor, das circunstâncias.
Sem entender-se a si mesmo completamente, você não pode pensar corretamente. Com certeza isto é óbvio. Se eu não sei quais são os meus motivos, minhas intenções, meus pensamentos-sentimentos particulares, como é que posso concordar ou discordar de outra pessoa? Como posso avaliar ou estabelecer minha relação com outra pessoa? Como posso descobrir qualquer coisa da vida se não conheço a mim mesmo? E conhecer a mim mesmo é uma tarefa enorme, que requer observação constante, uma vigilância meditativa.
Esta é nossa primeira tarefa, mesmo antes do problema da guerra e da paz, dos conflitos econômicos e sociais, da morte e da imortalidade.
Estas questões vão surgir, elas hão de surgir, mas na descoberta de nós mesmos, no entendimento de nós mesmos, estas questões serão respondidas corretamente.
Assim, aqueles que são realmente sérios nestas questões devem começar por eles mesmos, a fim de entender o mundo do qual são uma parte. Sem entender-se a si mesmo você não pode entender o todo.
O autoconhecimento é o começo da sabedoria. É cultivado pela busca individual de si mesmo. Não estou colocando o indivíduo em oposição à massa (ao coletivo). Eles não são antíteses. Você, o indivíduo, é a massa, é o resultado da massa. Se entrar dentro disto profundamente, você irá descobrir por si mesmo. que você é tanto o coletivo quanto o individual. É como um córrego que está constantemente fluindo, deixando pequenos redemoinhos, e a estes redemoinhos chamamos de individualidade, mas eles são o resultado desse constante fluxo de água. Seus pensamentos-sentimentos, aquelas atividades mentais-emocionais, não são o resultado do passado, do que chamamos a multiplicidade?
Você não tem pensamentos-sentimentos similares aos do seu vizinho? Assim, quando falo de indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa, ao coletivo. Ao contrário, quero remover este antagonismo. Este antagonismo que coloca em oposição a massa e você, indivíduo, cria confusão e conflito, crueldade e miséria.
Mas se pudermos entender como o indivíduo, você, é parte do todo, não apenas misticamente, mas realmente, então nos libertaremos de modo feliz e espontâneo, da maior parte do desejo de competir, de ter sucesso, de iludir, de oprimir, de ser cruel, ou de se tomar um seguidor ou um líder. Então veremos o problema da existência de modo diferente.
E é importante entender isto profundamente.
Enquanto nos virmos como indivíduos, separados do todo, competindo, obstruindo, em oposição, sacrificando o coletivo pelo particular, ou sacrificando o particular pelo coletivo, todos aqueles problemas que surgem deste conflitante antagonismo não terão solução feliz e duradoura, pois são o resultado do pensar-sentir incorreto. Agora, quando falo sobre o indivíduo, não o estou colocando em oposição à massa. O que eu sou? Sou um resultado, sou o resultado do passado, de inúmeras camadas do passado, de uma série de causas efeitos. E como posso estar em oposição ao todo, ao passado, quando sou o resultado daquilo tudo? Se eu, que sou a massa (o coletivo), se não entender a mim mesmo, não apenas entender o que está fora da minha pele, objetivamente, mas subjetivamente, dentro da pele, como posso entender outra pessoa, o mundo? Entender a si mesmo requer desapego amável e tolerante.
Se você não entender a si mesmo, não entenderá nada mais. Pode ter grandes ideais, crenças e fórmulas, mas elas não terão realidade. Serão enganos. Assim, você deve conhecer-se a si mesmo para entender o presente e através do presente, o passado. Do presente conhecido, as camadas escondidas do passado são descobertas, e esta descoberta é libertadora e criativa.
O autoconhecimento requer um estudo objetivo, amável, desapaixonado de nós próprios nós próprios sendo o organismo como um todo, nosso corpo, nossos sentimentos, nossos pensamentos. Eles não estão separados, mas interligados. É somente quando entendemos o organismo como um todo que podemos ir além e podemos descobrir coisas mais adiante, maiores, mais vastas.
Mas sem este entendimento primário, sem colocar o alicerce correto para o pensar correto, não podemos prosseguir para alturas maiores. Torna-se essencial produzir em cada um de nós a capacidade de descobrir o que é verdadeiro, pois o que é descoberto é libertador, criativo.
Pois o que é descoberto é verdadeiro. Ou seja, se meramente nos conformarmos a um padrão do que deveríamos ser, ou cedermos a um anseio, produziremos certos resultados conflitantes, confusos. Mas no processo do nosso estudo de nós mesmos, estamos numa viagem de autodescoberta, o que traz alegria.
Existe uma certeza no pensar-sentir negativo em vez do pensar-sentir positivo. De uma maneira positiva supomos o que somos, ou cultivamos positivamente nossas idéias em relação a outras pessoas, ou em relação a nossas próprias formulações. E, portanto, dependemos de autoridade, de circunstâncias, esperando com isto estabelecer uma série de idéias e ações positivas. Ao passo que se você examina, verá que existe concordância na negação; existe certeza no pensar negativo, que é a mais alta forma de pensar. Quando você descobrir a negação verdadeira e a concordância na negação, então poderá construir mais adiante no positivo. A descoberta que reside no autoconhecimento é árdua, pois o começo e o fim estão em nós.
Buscar felicidade, amor, esperança fora de nós, leva-nos à ilusão, ao sofrimento; encontrar felicidade, paz, alegria dentro de nós requer autoconhecimento. Somos escravos das pressões imediatas e exigências do mundo, e somos desviados por tudo isso e dissipamos nossas energias em tudo isso, e assim temos pouco tempo para estudar a nós mesmos.
Estarmos profundamente cientes de nossos motivos, de nossos desejos de alcançar, de vir-a-ser, exige constante atenção interna. Sem o entendimento de nós mesmos, mecanismos superficiais de reforma social e econômica, mesmo que necessários e benéficos, não irão produzir unidade no mundo, mas somente maior confusão e miséria.
Muitos de nós pensamos que a reforma econômica de uma ou outra forma vai trazer paz ao mundo; ou que a reforma social, ou uma religião especializada conquistando todas as outras vai trazer felicidade ao homem.
Acredito que haja algo como oitocentas ou mais seitas religiosas, cada uma competindo, fazendo proselitismo. Vocês pensam que uma religião competitiva vai trazer paz, unidade e felicidade à humanidade? Pensam que qualquer religião especializada seja o Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo, ou o Budismo , vai trazer paz? Ou devemos colocar de lado todas as religiões especializadas e descobrir a realidade por nós mesmos?
Quando vemos o mundo explodido por bombas e sentimos os horrores que estão acontecendo nele; quando o mundo está fragmentado por religiões, nacionalidades, raças e ideologias separadas, qual é a resposta a tudo isso? Não podemos apenas continuar vivendo uma vida curta e morrendo, e esperar que algum bem, advenha disso.
Nós não podemos deixar isso para os outros, trazer felicidade e paz à humanidade, pois a humanidade é nós mesmos, cada um de nós. Aonde se encontra a solução, senão em nós mesmos? Descobrir a resposta real requer profundo pensamento sentimento e poucos de nós estão dispostos a resolver essa miséria.
Se cada um de nós considerar esse problema como jorrando de dentro e não ser meramente conduzido nessa confusão e miséria pavorosa, então iremos encontrar uma resposta simples e direta. No estudo e, assim, no entendimento de nós mesmos, virá claridade e ordem. E só pode haver claridade no autoconhecimento, que nutre o pensar correto.
O pensar correto vem antes da ação correta. Se nos tornarmos conscientes de nós mesmos e assim cultivarmos o autoconhecimento de onde jorra o pensar correto, então criaremos um espelho em nós que refletirá, sem distorções, todos os nossos pensamentos sentimentos. Estar assim autoconscientes é extremamente difícil, já que nossas mente estão acostumadas a divagar e a estar distraídas.Suas divagações, suas distorções são de seu próprio interesse, suas próprias criações. No entendimento disto, e não meramente colocando isto de lado vem o autoconhecimento e o pensar correto. É apenas por inclusão e não por exclusão, não por aprovação ou condenação ou comparação, que vem o entendimento.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O gênesis e adão e eva na visão gnostica.




De Sophia, a mãe celestial de todas as coisas vivas, nasceu aquele que tornaria o formador e regente do sistema de criação.Ela sentiu grande tristeza e angustia quando o gerou, pois estava sozinha em um abismo de trevas e sua luz tinha diminuído.Sophia viu que seu descendente era capaz de mudar de forma. Ela se arrependeu de ter gerado um ser em sua solidão e o chamou Yaldabaoth, a “Ignorância-cega”.Yaldabaoth foi para o caos e elaborou um sistema de criação que era de seu agrado, e dentro dele colocou doze autoridades, sete regentes do firmamento e cinco regentes do abismo. O criador (Yaldabaoth) e sua hoste (os regentes) mesclaram, então, luz e trevas, para que as trevas parecessem radiantes e, assim, iludissem os olhos. Essa mescla de trevas e luz resultou num mundo imperfeito e fraco, pois as trevas impediram-no de desenvolver um exército de luz, que poderia protege-lo.Assim, Yaldabaoth permaneceu no centro do sistema do mundo que ele formara, e se tornou arrogante em seu orgulho, exclamando: “Eu sou Deus e não há outro Deus além de mim!” Dessa forma, ele demonstrou sua ignorância agora do verdadeiro caráter do ser, bem como seu orgulho, pois negou até sua própria mãe. Sophia, no entanto, olhou para ele das alturas e exclamou em voz alta: “proferistes uma falsidade ó Samael!” Foi assim que ele recebeu o nome que o tornara o senhor cego da morte (Samael), e então Sophia o chamou também de Saclas, com o que afirmava a tolice dele.

Sophia, porém, sabendo que sua descendência gerara uma criação a partir de sua própria imagem defeituosa, decidiu ajudar secretamente a luz que estava presente no mundo. Desceu de sua habitação e veio para perto da terra, movendo-se de lá para cá sobre ela, assim outorgando sua sabedoria e amor ao sistema que o tolo criador desenvolvera. Os regentes pensaram que eles, sozinhos, tinham criado e ordenado o mundo, mas o espírito de Sophia contribuiu secretamente para colocar esplêndidos padrões arquetípicos na trama do trabalho deles.Então uma grande maravilha apareceu nos céus: a forma de um homem, de visão majestosa e gloriosa. O criador Yaldabaoth e sua hoste tremeram e as bases do abismo sacudiram-se e as águas agitaram-se em terror sobre a terra. Tão grande era o brilho do arquétipo humano celestial que apareceu no céu que os regentes foram por ele cegados e não puderam agüentar seu poder. Desviaram os olhos e fixaram o reflexo da forma do homem, conforme essa aparecia nas águas abaixo.Todos os regentes e seus servos correram para perto e, juntando seus poderes, fizeram uma réplica da imagem do homem celestial; mas seu trabalho era defeituoso e fraco, porque a força de Sophia não estava na sua criação. O homem falsificado era estúpido e insensato e se arrastava pela terra como um verme. Sophia, então, enviou vários mensageiros da luz e eles, secretamente, penetraram na mente de Yaldabaoth, fazendo-o respirar sobre a lamentável criatura, desse modo infundindo-lhe vida. Aquele que criara pensou que era ele quem tinha dotado os homens de vida, mas, na realidade, foi sua mãe Sophia quem deu à humanidade a verdadeira vida. E o homem ficou de pé, caminhou e foi circundado por uma luz não terrestre.

Yaldabaoth e sua hoste reconheceram que o homem era, de fato, um ser cujo poder espiritual e inteligência excediam o seu próprio. Cheios de inveja e raiva, eles atacaram o homem cujo nome era Adão e o lançaram na escura região da matéria, para lá definhar em tristeza e privação. Sophia, entretanto, em cooperação com os mais altos poderes da plenitude, enviou a Adão um auxiliar, para instruí-lo e assisti-lo com sabedoria e força espiritual. Esse auxiliar era uma mulher, conhecida como Eva, mas cujo verdadeiro nome é Zoe, que significa vida (a filha de Pistis-Sophia). O sábio espírito feminino penetrou em Adão e ficou escondido aí, para que os regentes não percebessem a sua presença.Os regentes, então, conspiraram e elaboraram um plano no qual esperavam que o homem poderia cair, e permanecer cativo de seus desígnios. Eles criaram um jardim, cheio de belezas e delícias da terra, e colocaram Adão no meio dele, fornecendo-lhe todo o tipo de objeto agradável que pudesse desejar. Então eles mandaram Adão comer, pois o alimento do jardim é amargo e sua beleza é perversão, sua delícia é engano e suas árvores são iniquidade, seu fruto é veneno incurável e sua promessa é morte. As belezas e os prazeres oferecidos eram enganosos, corruptos e planejados para mantê-lo cativo dos regentes, sem vontade ou vida própria. Também colocaram uma árvore no jardim, contendo a vida deles, e proibiram Adão de tocar ou de comer do seu fruto. Eles o enganaram a respeito da árvore, lhe dizendo que sua raiz é amarga e seus ramos são morte, sua sombra é ódio e em sua folhagem está o engano, seu suco é o ungüento da perversidade, seu fruto é mortal e sua seiva é a cobiça; e que ela germina das trevas. Mas essa árvore é a inteligência-luz. E dizendo tais coisas sobre ela, eles impediram Adão de ver sua plenitude e conhecer a Verdade, fazendo-o ficar preso naquilo que era realmente ruim, e os regentes diziam a Adão ser bom.

Mais uma vez Sophia e os poderes celestiais (na forma de uma serpente) foram em socorro de Adão e o instruíram a comer o fruto daquela árvore e desafiar o regente e seus anjos tirânicos. Ao mesmo tempo, a mulher nasceu de Adão, mas o chefe dos regentes a reconheceu como tendo a luz de Sophia e enfureceu-se. Ele a perseguiu por todo o jardim e, tendo a subjugado, violentou-a e ela concebeu dois filhos dele, Caim e Abel. Porém, o espírito brilhante de sabedoria que habitava em Eva fugiu, enquanto ocorria esse estupro, e, assim, apenas a Eva humana passou por essa vergonha e não Zoe, o espírito vivo. Caim tornou-se mestre da terra e da água e dele descendem os homens e mulheres com inclinação para a matéria, ao passo que Abel comandou o ar e o fogo e se tornou o pai dos seres humanos que valorizam a alma e a mente. Adão, no entanto, percebeu o que o regente tirânico tinha feito e subseqüentemente gerou um filho com o nome de Seth, com inclinação para o espírito, e que se tornou pai daqueles que aspiram pela Gnose e por uma união com espírito.Os anjos tirânicos, então, observaram, enfurecidos, que a humanidade seguia seu curso e não iria permanecer no paraíso dos tolos, onde aquele que criara queria mantê-los cativos. O chefe dos regentes amaldiçoou especialmente a mulher, que veio a ser a mãe da humanidade e seu destino, bem como o de suas filhas, tem sido difícil desde então. Entretanto, Eva deu à luz uma filha, chamada Norea, plena de verdadeira Gnose, e que permaneceu na terra por muito tempo como uma ajudante da humanidade, porque era sábia e conhecia os esquemas e más obras dos anjos tirânicos.

Enquanto isso, os homens se multiplicaram, instruídos por Seth e Norea, muitos voltaram à Gnose, assim, os regentes ficaram com poucos homens e mulheres que os aceitavam como divinos e seguiam suas leis. Furiosos, então, desejaram destruir a humanidade, então resolveram provocar um dilúvio. Norea, vendo o que eles iam fazer, instruiu um de seus filhos, Noé, para que ele construísse uma arca onde todos os puros pudessem ser salvos. Então ele, instruído por sua mãe, assim o fez.Os anjos maus, então, assaltaram Norea, desejando violá-la com tinham feito com Eva, sua mãe, mas um grande anjo de luz chamado Eleleth a resgatou e lhe deu forças para continuar sua missão. Assim, com a ajuda de Norea, a partir de seu filho Noé, o esquema dos anjos tirânicos foi frustrado.Desde então a humanidade tem vivido em conflito e divisão, pois o chefe dos regentes nela semeou cólera. A verdadeira Gnose tornou-se rara e os filhos dos homens aprenderam coisas inúteis e mortas, seu conhecimento tornou-se mundano e corrupto. Mesmo assim a raça humana nunca foi deixada em abandono. Repetidamente os regentes se reuniram e planejaram destruir aqueles seres humanos que não queriam servi-los. Queriam corromper a raça humana, mesclando sua essência com a humanidade, e assim o fizeram, corrompendo mulheres humanas, fazendo-as ter filhos deles e não do Divino. Devido à multiplicação dos planos perversos e às depredações dos regentes, uma parte da humanidade está contaminada por sua semente, embora todos os homens e mulheres possuam também, a luz de Sophia.Os regentes são os verdadeiros tiranos. Seu mais profundo desejo é subjugar e reinar sobre a humanidade. Por isso os regentes estão sempre trabalhando, elaborando leis e mandamentos, como os quais possam constranger os filhos dos homens. Mascaram-se como mensageiros da luz, ou mesmo como o próprio Divino, exigindo obediência e adoração. Assim eles iludiram muitos profetas e videntes bem-intencionados. Porém Sophia nunca deixa de lutar por seus filhos.

Esse texto chama atenção pois coloca a visão gnostica de que o deus criador é um deus inferior e arrogante que tentou copiar para si os mundos celestese que o paraiso de adao e eva é na verdade o paraiso dos sentidos, feito para prende-los e fazer com que esqueçam sua origem..mas eva, isto é, o aspecto feminino do ser humano (o espirito), mostra à adão (a mente) como se libertar, comento do fruto da gnosis..

Deus - Inefável



Extrato do Evangelho Gnóstico de João, um dos textos que compõem a Biblioteca de Nag Hammadi:


A Monada é uma unidade sobre a qual nada rege. [...] é o Invisível e aquele que está acima do Todo, é imperecível e existe na pura luz para a qual olho algum é capaz olhar.
É o Espírito invisível. Não se deve pensar que seja um deus ou como um deus, pois é mais que um deus.
É um Começo que nada precede, pois nada existiu antes dele e não há nada que Ele necessite. Não existe em qualquer coisa que seja inferior a si, pois tudo existe nele.
Não necessita de vida, pois é eterno; não necessita de nada.
É Pleno, não possui nenhuma deficiência que possa ser aperfeiçoada, está além de toda perfeição. É luz.
É ilimitável, já que não há nada anterior a ele para limitá-lo.
É insondável, já que não há nada anterior a ele para sondá-lo.
É imensurável, pois não há nada anterior a ele para medi-lo.
É invisível, pois ninguém nunca o viu.É eterno e existe eternamente.
É inefável, já que nada pode compreendê-lo para dizê-lo.
É inominável, pois não há nada anterior a ele para dar-lhe um nome.
É Luz imensurável, pura, sagrada e imaculada. É indescritível, sendo perfeito em sua incorruptibilidade. Não que seja perfeição, bem-aventurança, ou divindade: é muito maior.
É ilimitável. Não é corpóreo nem incorpóreo; nem grande nem pequeno.
“É impossível dizer ‘Qual é sua medida?’ ou ‘Qual é seu tipo?’, pois ninguém pode conhecê-lo. Não é uma dentre as muitas coisas que há na existência: é muito superior. [..] É em si mesmo.Não é uma parte dos eons ou do tempo, pois o que quer que seja parte de um eon foi produzido por algo mais.
O tempo não foi designado a Ele, pois Ele não recebe nada de ninguém.
Aquele que existe desde o princípio não necessita de nada daqueles que vieram depois.
Em resumo, nada há antes dele.
Contempla somente a si mesmo na perfeição da Luz e abrange a pura Luz “Aquele-que-é-perfeito é majestoso; é puro, mente imensurável.
É o eterno que provê eternidade.
É o Eon que gera eon.
Luz que confere luz. Vida que dá vida.
O Abençoado que provê bem-aventurança. Conhecimento (gnosis) doador de conhecimento.
O Bem que provê bondade. Misericórdia que provê misericórdia e redenção. Graça que dá graça. Não que seja realmente assim. Mais exatamente, provê incomensurável e incompreensível luz. O eon dele é imperecível. É tranqüilo e repousa no silêncio. É anterior ao Todo. É a cabeça de todos os eons e sustenta-os por meio de sua bondade. Aquele-que-é-perfeito contempla a si mesmo na luz que o circunda...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Moradas de Teresa de Ávila



Teresa de Ávila, como ficou conhecida por sua cidade de nascimento Teresa de Cepeda y Ahumada (1515-1582), escreveu, dentre outras obras, três tratados místicos, de que o mais importante é O Castelo Interior, no qual relata sua experiência iluminativa alcançada depois de rigorosa disciplina espiritual que a fez viajar por seu mundo interior até os mais profundos estados de consciência.

Mas essa notável escritora e poetisa do período áureo da literatura espanhola, o século de Cervantes, não foi uma intelectual de gabinete e sim mulher de ação comprometida com o ideal de melhorar a humanidade.

Correspondeu-se com os grandes de seu tempo, assim autoridades civis como eclesiásticas, propondo as mudanças necessárias. Se escreveu, em prosa e em verso, obras tão belas que lhe garantem lugar de relevo nas letras universais, não foi por pretensão literária que não possuía de nenhum modo, mas para ensinar às suas irmãs de fé um padrão mais elevado de vida.

Teresa nasceu em 28.3.1515, em Ávila, região central da Espanha e faleceu em 4.10.1582. Aos 20 anos, ingressou, contra a vontade do pai, no convento carmelita da Encarnação e fez os votos, aos 22. Empenhou-se na reforma do Carmelo, tendo a colaboração de S. João da Cruz.

Escreveu O Livro das Fundações, Constituições, Livro da Vida, Caminho de Perfeição, O Castelo Interior, Contas de Consciência e Meditações sobre os Cantares. Eleita padroeira da Espanha em 1617, foi canonizada em 1622. É conhecida como a Santa dos Êxtases por suas extraordinárias experiências místicas.

O Castelo Interior foi redigido em 1577, no curto espaço de dois meses, numa espécie de escrita automática, como se fosse recebido do Alto.

É obra da maturidade espiritual de Teresa, que contava então 62 anos e já havia entrado em consciência cósmica, após uma sucessão de despertares que marcaram sua existência terrena repleta de enfermidades, atribulações, trabalhos constantes e mesmo perseguições por parte daqueles que não aceitavam idéias reformistas.

Como todos os escritos de Teresa, O Castelo não se destinava à leitura do grande público, e sim à instrução das carmelitas descalças, como um guia de espiritualidade. Tornou-se, no entanto, sua mais conhecida obra, quer pela perfeição da narrativa, quer, sobretudo pela acurada análise que faz da psique humana, interessando, por isso, também à ciência psicológica, nesta nossa época em que a expansão da consciência tem sido a proposta da mais sã psicologia.

Teresa parte da idéia de que a felicidade, que ela chama de Deus, está dentro de cada um de nós e não pode ser encontrada em nenhum outro lugar, visto ser um estado de consciência, cujo aflorar demanda o autoconhecimento, pois o homem afirma, não é a idéia que tem de si mesmo, mas uma alma ou consciência com vários graus de perfeição que abriga no mais recôndito o verdadeiro ser.

A entrada nessa esfera de consciência, no entanto, não depende de conhecimento intelectivo e sim de experiência direta que caracteriza o saber místico, a verdadeira sabedoria. É pelo autoconhecimento, lastreado na introspecção, que o ser humano consegue compreender-se e se transformar, de ser psíquico em Eu superior, ensejando a renovação da mente e o nascer para uma vida completamente nova, fruto de aliança definitiva da personalidade com o homem interior, o grande desconhecido.

Para explicar essa experiência transformadora, pela qual ela própria passara, Teresa vale-se da linguagem metafórica, que é a forma natural de expressão mística, porquanto a linguagem usual é insuficiente para expressar as realidades que transcendem. Duas são as principais imagens adotadas pela autora: o castelo e o casamento que são símbolos relacionados tradicionalmente com a necessidade que tem o homem em seu crescimento pessoal de se libertar da imaturidade psíquica e das formas limitadas de vida, com vistas na plena realização de suas potencialidades.

Teresa não inventou esses símbolos, nem foi a primeira escritora que fez uso deles, visto que encontram suas raízes já no próprio texto bíblico. O castelo representa a alma humana, ou a esfera intima do ser, o centro individual de segurança, porque os castelos são construções sólidas, de difícil acesso, erigidas geralmente em lugares altos e isolados, nos campos ou nos bosques, longe da turba da cidade. São protegidos contra as inundações e os ataques externos. Têm geralmente torres elevadas que conotam a evolução ou ascensão, e representam o elo entre a terra e o céu. Os castelos expressam, assim como os templos, o desejo de aproximação com Deus e de canalização do poder divino para a Terra.

Nos contos de fada, os castelos abrigam jovens à espera de um príncipe, qual a Bela Adormecida, ou um príncipe à procura de uma jovem para desposar, como a Cinderela. Na psicanálise, usa-se a figura da casa, similar ao castelo, para exemplificar o aparelho psíquico: o porão, geralmente escuro, denota o inconsciente e seus instintos, ao passo que os cômodos iluminados significam a consciência; entre luzes e sombras, há meios tons. No que tange ao casamento, o simbolismo é bastante claro. Já no Cântico dos Cânticos, ele traduz a experiência mais secreta da alma, uma relação pessoal e intensa determinada pela necessidade vital de alteridade, a que se deve a geração da vida. Sob o aspecto social, o casamento, disciplinado na legislação dos povos, implica relação duradoura, constância, mútuo interesse, comunhão de vida e de bens, auxilio recíproco, deveres e, até há bem pouco tempo, indissolubilidade.

Trata-se, na linguagem mística, não de imagem sexual, como pode parecer aos menos avisados, nem de sexualidade reprimida, como querem ver no texto teresiano alguns críticos que desconhecem a base poética da psique, mas a representação da união transformadora que produz a vida santificada.

Teresa concebe a alma humana como um castelo de sete pavimentos ou andares que são os vários graus de consciência pelos quais a pessoa tem de passar até chegar ao topo e ao centro, onde se dá a plenitude iluminativa:

"É de considerar nossa alma como um castelo todo de diamante ou mui claro cristal, onde há muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas. Que se bem o considerarmos, não é outra coisa a alma do justo senão um paraíso onde Ele disse ter suas delícias".

Mas, para desfrutar desse paraíso, faz-se necessária a introspecção a que nem todos estão acostumados. É preciso, em primeiro lugar, entrar no castelo, porque as pessoas, em sua maioria, ficam de fora, fascinadas com as coisas do mundo exterior. Com o objetivo de não confundir o leitor, Teresa adverte em tom pedagógico:

"Parece que digo algum disparate: porque se este castelo é a alma, claro que não se trata de entrar, pois se é ele mesmo, pareceria desatino dizer a alguém que entrasse num aposento já estando dentro".

O paradoxo, no entanto, é só aparente, porque mesmo no espaço físico há modos de estar. Há quem está mas não percebe e não tira nenhum proveito da estada vê, mas não enxerga, ouve, mas não escuta, porque o pensamento está muito longe, e é como se não estivesse no local.

Sabe-se de longa data que a alma tem em si algo de terreno (inferior) e de divino (superior): em geral, as pessoas comuns ficam com o terreno, não tomando posse nunca do nível superior, íntimo. É, pois, preciso entrar no castelo (voltar-se para o íntimo) e percorrer seus aposentos, num movimento ascensional, até descobrir a própria identidade iluminada.

Não basta, portanto, ter a noção de "possuir uma alma".

É imperioso aprofundar-se em si mesmo para chegar aos patamares mais altos da consciência e viver como um ser superior, ou divino. Enquanto a alma não necessita de esforço para viver seu aspecto terreno, necessita de muito esforço para viver superiormente, visto que é estreito o caminho que conduz para cima.

Assim, o centro da alma que Teresa diz ser o espírito não é reconhecido facilmente pelo homem (diga-se, pela própria alma), porque as ilusões turbam o entendimento. E é inútil o homem saber que é uma alma, se não experimenta todos os aspectos dessa alma. É, pois, somente esse conhecimento experimental, próprio dos grandes sábios e místicos, que produz a compreensão e a iluminação.

Essa expansão da consciência cura as inquietações da alma, operando a aliança do homem exterior com o homem interior, de modo que o primeiro passe a ser comandado pelo segundo. À melhor parte da alma, só se adentra com muito trabalho e esforço justificados pela necessidade de superar a ignorância.

"Não é pequena lástima e confusão, pergunta Teresa que por nossa culpa não nos entendamos a nós mesmos, nem saibamos quem somos? Não seria grande ignorância que perguntassem a alguém quem era e não conhecesse nem soubesse quem foi seu pai, nem sua mãe, nem sua terra?".

É, pois, imprescindível saber por experiência, o grande bem que há na alma, o que se dá pela entrada em si. A introspecção é justamente o adentrar da alma em si. Isso depende só do querer. A chave posta à disposição de quem quer entrar é, segundo Teresa, dúplice: a oração e a reflexão. Não a oração decorada, mera repetição de palavras, mas a oração reflexiva, com concentração do pensamento e afastamento de todo e qualquer cogitar profano.

Na oração, ensina S. Teresa, não é importante o muito falar, mas o muito amar. Trata-se da oração contemplativa, expressão de amor, que traz contentamento grande e quieto da vontade, no dizer da escritora.

O castelo da alma com sete andares e muitas moradas, imaginado por Teresa de Ávila, não é como os castelos que estamos acostumados a ver. É construído em forma de palmito, tendo em seu núcleo a parte saborosa envolvida em muitas coberturas.

Tampouco os cômodos ou moradas estão dispostos linearmente, senão abaixo, acima e ao redor. As moradas são graus de consciência e amor.

Nesse castelo, os órgãos dos sentidos são os serviçais que, no entanto, governam mal a casa e deixam entrar animais peçonhentos (as paixões), descurando ademais da limpeza. Por isso, se a chave da porta principal do castelo é a oração, as chaves das várias moradas são a humildade e a devoção. Humildade para reconhecer os pontos obscuros do castelo com vistas em eliminá-los; devoção ao grande ser que habita o centro do castelo.

Nas três primeiras moradas, há muita impureza, porque, estando mais próximas do solo, são mais vulneráveis às paixões, ao orgulho pessoal, ao amor narcísico, à avidez e às vaidades. Ao tomar ciência dessa poluição, quem entra nessas moradas, deve em primeiro lugar proceder à faxina de suas falhas. Cuida-se de extirpar o apego ao mundo, combater os maus pensamentos e sentimentos e de mudar o modo de falar.

As quartas moradas oferecem um colírio para os olhos da alma. Por estarem mais próximas da câmara real, são belas e iluminadas. Nelas não entram animais e, mesmo que entrem, não lhes fazem dano, porque a alma está purificada e fortalecida, já não tem apegos e sente prazer no recolhimento interior , deixa de pensar e passa a amar. É o início da vida iluminada, e uma força que parte do centro e do alto do castelo, puxa a alma para mais perto da morada central.

Nas quintas moradas, a oração começa a produzir o fruto da união. A alma torna-se compassiva, recebendo a marca do amor incondicional, que é a característica divina do homem. Livre da egoicidade, o homem se transforma (a lagarta se faz borboleta) e quer a todo preço chegar ao centro. Foi neste estágio de sua ascensão que Teresa recebeu as visões e os êxtases, pelos quais ficou conhecida, ela é chamada de a "Santa dos Êxtases". Na definição que a própria autora nos oferece, esses êxtases são "vôos do espírito", ou saídas de si, pelas quais a alma experimenta uma união fugaz com o divino e se sente estimulada a prosseguir em sua subida espiritual e abandonar de vez as conversações e confortos terrenos.

Enquanto os êxtases são arroubos da alma, as visões de Deus e de multidão de anjos, são intuições da presença divina na alma, intuições que ela chama de visões intelectuais, porque os olhos carnais, em verdade, nada vêem.

A consciência capta essa presença sem a intermediação dos órgãos dos sentidos. Com tais experiências, Santa Teresa tomou conhecimento mais perfeito da grandeza do ser que habita o castelo, aumentou o autoconhecimento e a humildade, e confirmou uma vez mais a pequenez das coisas terrenas.

Vê-se assim que tanto os êxtases como as visões têm por fim aumentar a capacidade de compreensão, que, ao lado da compaixão, é a característica básica da consciência cósmica. "Em Deus, diz, vêem-se todas as coisas, e Ele as tem todas em si mesmo". Mas, por causa desses êxtases e dessas visões, teve de enfrentar a incompreensão alheia, sendo vítima de acusações e reprovações até de seus superiores hierárquicos.

As sextas moradas são ainda mais belas, porque freqüentadas pelo senhor do castelo. Nelas a alma realiza os esponsais com a divindade. As tribulações, todavia, continuam, porque as outras pessoas com quem necessariamente ela convive, não a entendem (Teresa, como todo místico, destoa do grupo social) e a criticam e desprezam. É a noite escura da alma que precede a plena e definitiva transformação.

Por fim, nas sétimas moradas, que são as mais ricas e bonitas, a alma une-se, em casamento, com a divindade. Neste estágio, a pessoa percebe a sutil divisão entre alma e espírito, o centrum securitatis. O matrimônio espiritual nada mais é do que a divinização da alma que, purificada, fortalecida e iluminada, passa a desfrutar da paz que excede todo o entendimento.

Neste mais alto patamar, a vontade de servir ao próximo toma vulto, porque a alma se reconhece como instrumento cósmico para servir às criaturas. Então, quem se havia afastado do mundo para melhor compreender sua real identidade, estando já definitivamente livre dos apegos e das ilusões, volta ao convívio social para trabalhar com redobrado vigor em prol de todos os seres. A experiência mística só se completa e se confirma pelo serviço desinteressado.

É a faceta Marta que se ativa na alma. Nes te passo do livro, Teresa reabilita a figura evangélica de Marta, irmã de Maria. Em Lucas, 10:38-42, lemos que Marta hospedou Jesus em sua casa, e sua irmã, Maria, quedou-se assentada aos pés do Mestre a ouvir-lhe os ensinamentos, enquanto Marta agitava-se de um lado para outro, fazendo os preparativos para bem servir ao convidado ilustre, até que pediu ao Divino Mestre que ordenasse à irmã fosse ajudá-la a pôr a mesa. Ao que Jesus respondeu:

"Marta! Marta! Andas inquieta e te preocupas com muitas coisas. Entretanto, pouco é necessário ou mesmo uma só coisa; Maria, pois, escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada".

Pelo diálogo, tem-se a impressão de que o Mestre reprovou Marta e elogiou Maria, vale dizer, exaltou a contemplação e deu pouca importância ao trabalho. Teresa de Ávila, no entanto, dá interpretação mais adequada à passagem bíblica: Maria, a contemplativa, não é mais importante do que Marta, a laborativa, porque no grande castelo da alma, "Marta e Maria hão de andar juntas para bem hospedar o Senhor, e tê-lo sempre consigo".

Enfaticamente, pergunta a autora: Como Maria, assentada sempre aos pés do Mestre, lhe poderia dar boa hospedagem se a irmã Marta não a ajudasse? De fato, sem Marta, não há regalos, não há festa, não há boa hospedaria. Marta e Maria são facetas de uma mesma pessoa. O verdadeiro místico não se limita a contemplar, mas age e age sempre para o melhoramento do mundo.

Contemplação e trabalho se unem na personalidade mística.

Da mesma forma como a fé sem obras é morta, a contemplação sem a ação perde muito de seu valor. Diz-se mesmo que a missão do místico é trazer os céus à Terra para que esta se transforme em paraíso. Para completar, portanto, ascensão da alma, é mister o serviço desinteressado porque de nada vale represar o amor extraordinário que existe na alma de todo ser humano.

Além disso, a melhor parte, a que se refere Mestre Jesus, vem depois de muito trabalho e mortificação. É notório naqueles que atingem a iluminação o desejo de trabalhar para melhorar o mundo.

Foi assim com Sidarta Gautama que tendo-se afastado do mundo por seis anos em disciplina ascética, voltou iluminado para ensinar a humanidade a livrar-se do sofrimento, exercendo seu magistério durante 45 anos.

Foi assim com o Mestre Jesus que, iluminado nas águas do Jordão, não deixou nenhum dia sequer de pregar, ensinar, curar os enfermos e ressuscitar os mortos.

Foi assim com Paulo de Tarso: depois da conversão, não deixou de trabalhar, enfrentando perigos e tormentas para pregar a boa nova, além de prover o próprio sustento como tecelão.

E foi assim, também, com Teresa: após sua iluminação, em idade madura, não descansou um minuto sequer, atuando como reformadora e mestra espiritual, para o que teve de realizar viagens em condições precárias para diversos pontos da Espanha.

Deste breve passeio que acabamos de fazer pelas moradas de Teresa de Ávila, conclui-se que os ensinamentos dessa insuperável mestra de espiritualidade continuam válidos hoje, decorridos mais de quatro séculos, como continuarão sempre para aqueles que, "querem transcender a enfermidade do ego e do mundo, para enveredar pelo caminho da perfeição até Deus".